Pragmático

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Canela/RS. 2021.
O texto tem de ser curto.
Não há tempo para ler.

O trabalho, objetivo.
Linha de produção.

Criatividade morta
Em tempos de eficiência.

O ócio é crime
De lesa-majestade.

Meu avô, com sua sesta
E seu chimarrão demorado
Nas tardes mornas de primavera
Deve arder, agora,
Em algum inferno de eficientes.

Coitado, ele que tinha tempo
Para me perguntar como anda a escola
E fazer cavacos à tardinha
Antes de acender o fogão a lenha
Deve lamentar
Não fazer parte do mundo moderno.

E minha avó, então!
Para ela a novela das oito
E o programa de rádio do meio-dia
Eram momentos litúrgicos
Tal como a missa das seis;
Hoje, certamente, pena por aí
Em algum purgatório
De gestores de tempo.

A espera foi embora.
Os abraços são rápidos.
Os beijos, pragmáticos.
Os namoros, virtuais.
A vida, exangue
Para gente que foge do tempo
Estando sempre adiante dele.

O cansaço tem sido a alma do corpo.

Setembro

Fico vagando pelo resto de tarde.
Jeito manso de noite clara
Nas maneiras do sol partindo.
Uma copla bem floreada para
a nova
Que um grilo longe vai brandindo.

Nessas noites leves de setembro,
Recém-nascidas no calendário do ano,
Há um cheiro doce pela brisa.
Qualquer coisa de primavera afaga
O rosto grave de um inverno morto.

Viço nas folhagens e nas gentes.

Brotam perfumes e carícias
No desdobrar dos botões de flores;

Chegam instantes lentos
Nos dias que desconhecem pressa.

Já não fico onde me vejo.
Perde-se o espírito, velho andejo,
Por paisagens que sei ou adivinho.
Não paro nas malhas do tempo
Se o belo me fala de eternidades.

Sensorium III

Que poderia dizer do frio que minhas carnes não saibam...

Mas não é a elas que falo, senão à alma que tenho.
O inverno traz outro gosto à cevadura das horas,
E os instantes aguardam estios às janelas das casas.

Em me recolhendo tanto chego a estar no espírito.
Olho de mim para o cenho franzido do dia
- O tempo parece mais taciturno.
Sol tímido espia tardes frias
Por entre o peso argênteo do céu invernal.

Luzes por dentro das casas vistas da rua
Dormem ao vento gelado que cala a vida.
Todos cultivam em sonos
Esperanças de manhãs mais trigueiras.

Translucidez negra desenha a abóboda de um céu
Que ao inverno deu em estrelado.
Lua minguante profusa em claridades mais tímidas
Traz do absoluto mais infinito
Para o sentido de infinito que já há na paisagem.

Horas mais eternas.

Harmonias azuis distribuem cantigas insuspeitas,
Ressoando o arpejo frondoso que há nas copas
Das árvores mais altas pintadas de manhã.

Saudades mais queridas falam ao peito
De verdades a tanto esperadas.
Ansiedades morrem ao toque dessas coisas
Cessando procuras que eram fermento de ilusão.

O ser percebe a Verdade no belo que vê.
E sentindo-se, então, parte também do concerto,
Sabe-se elemento essencial de verdade.

- Intimidade mais estreita no coração com aquilo que é Deus.

Distraído

Lua espalhando claridades
Pelos remansos da noite.

Estrelas.

Não há vento
E o escuro é infinito.
Dessa vida sinto apenas o jasmim:
Cheiro lilás em doçuras delicadas.

Passeio distraído pela rua.
Deus vê a mim sem que eu o perceba.
Intuo sua presença nas coisas
E sou pleno.

Pequena brisa toca de leve os cinamomos
E leva do meu peito todas as culpas.
Lavadeiras atentas derramam baldes nas calçadas do meu ser.
Lavam de escovas as lajes de mim – água fresca sobre a alma limpa.

Não preciso ou devo, nem quero ou tenho.
Apenas sou como vida e isso me basta.
Nesse instante, a noite transpassa-me o ser
E não sinto meu corpo.

A casa, o cinamomo da frente,
As pequenas pedras da rua, as estrelas,
O jasmim e os odores,
Tudo isso que compõe o enredo de minha calma de agora
Desaparece da vista como coisa de pegar.

Abraço, enfim, Deus
Como quem abraça o pai.
- Paz daquelas de voltar para casa -

Meu vizinho sai à frente ter também com a noite
E me acena.
Largo-lhe um sorriso em despedida.
Volto
E tranco a porta.


Imagino sonhos.
Meu sono não é de dormir.

Pampeiro

Pampeiro... Velho fantasma gelado…

Assombras de pesadas solidões 
Os invernos da campanha.

Tens o entono aragano
Dos índios nossos
Ancestrais americanos.

Dizem, não sei,
foi um boleador,
Desses de terras paisanas,
Que num tropel de disparada insana
Ergueu teu sopro bravio
No encalço das alçadas.

Ou, quem sabe, há quem conte,
Vieste da escarpa andina
Assoviando... Desgarrado... Gemendo...
Fugindo pela planura
Do agito da envergadura
Das asas de algum condor.

Chibeiro de alheias memórias…

Tens o nada do deserto nos vazios.
Aroma de patagônia em teu gelo,
E o agouro do abandono em assobios.

Vento de dias metálicos
Que há pelos frios de julho.
Milonga que o povo entoa
De tanto ouvir pelas noites
Os uivos que o pampa soa.

Não sei ao certo, pampeiro,
O rastro do teu caminho.

O certo é que és andarilho
Destas províncias platinas,
Trazendo o gosto amargo do inverno
À fria cor dessas coxilhas.


07.07.11

Mateando

Um dia serei de novo aquela estrela sozinha
Madrugando pelas ausências dos campos.
Serei o espanto e a novidade do mistério
Povoando o sonho dos amanhãs.
Serei o vento pampeiro
Buscando perdido o rastro ancestral da disparada,
Em estouro e tropel, de algum centauro charrua.

Serei a pedra silente do lajedo pequeno
Nas tardes de verão quente.
O arrulho escondido num cinamomo de tapera.
Serei para mim mesmo a quimera
De ser um pedaço de meu próprio mundo –
Uma braça de terra, um revoo na aguada...
Estrada, tempo e caminho...

Posso não ser importante e até desconhecido,
Mas não se importem comigo,
Na solidão das lonjuras,
Basta a mim ser horizonte;
Ou qualquer elemento anônimo,
Que faz a vida do meu rincão
Uma mensagem de Deus para a alma.

Não me canso atrás do bastante
Quando a mim mesmo me basto.
O que posso querer da ilusão
Se dela nunca terei verdade?

O que quero mesmo é ser flechilha e caraguatá;
Porque nada falta ao que bebe silêncio:
É só mate, fogão e a alma...



16.01.12

Eu acho…

Sinto saudade de um tempo
Em que o vento parecia ser a alma da gente.

Não...

Na verdade, não era bem a alma da gente.
Eu acho...

Atravessava ele
As minhas transparências.

Fazia pequenos redemoinhos em meu peito,
Espalhando os ciscos de mim,
E fugia para os arvoredos comigo.

Brincávamos entre os passarinhos.
Escondíamo-nos do sol entre as nuvens.
Chovíamos garoas,
Esparramando-as pelas tardes.

Revoávamos o poente de vermelho.

E, em seguida,
À noite,
Íamos juntos embora
Pelas estradas de lua.

23.04.2021

Eu hoje descobri o silêncio

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Março de 2021, Tapes/RS
Eu hoje descobri o silêncio.

Ele é claro como uma manhã de outono.
Há nele árvores
E uma lagoa serena.

Pequeno bando de garças
Cruza o céu
Na direção de seu trabalho diário
De espiar e colher peixes.

Nele há vento, cheiro de mato
E nada para fazer.

Hoje eu descobri o silêncio.

E, na hora mesma em que o descobri,
Uma garoa veio insistir
Causando em mim breve estranhamento.

Olhei o entorno.

No silêncio encontrei uma figueira.
Sentei-me em um galho seu,
Desses que parecem braços de gente.

O João-de-Barro catando pequenos ciscos pela grama
Veio ter a meu lado.
Olhou-me com breve espanto.
Não acreditou que lhe fosse fazer algum mal
E seguiu o curso de sua vida
Como sempre.

Eu sentado.
Olhando o mundo.

Pensando...

Em nada.

Apenas que hoje eu descobri o silêncio.

30.03.2021

Ideologia

Arte (?): Maurício da Rosa Ávila. 21.03.2021
Vida longa ao nosso rei: Ideologia!
Altares são ornados em seu nome.
Senhor de tudo que sentimos,
joga xadrez com nossas mentes.
Brincamos de pensar, quando, em verdade,
prestamos reverência a sua odiosa coroa.
Oh, Grande Rei, que nos fala
por sob vestes de ideias sombrias
do estrado cambiante da falácia!
Na luta da vida, ovacionamos suas palavras.
Na guerra, irmãos, famílias
e confrades travam contendas;
o sangue do amado na palma de nossas mãos
é o triunfo do nosso monarca.
Oh, Rei Sol dos novos tempos!
Quantos heróis vitoriosos,
privados do gozo da glória!
Quantos inimigos vencidos,
eximidos da dor do fracasso!
Quantos gênios relegados
à miséria da heresia!
Quantos energúmenos
jubilosos no poder!
Para o único triunfo
que é a força de sua coroa...
O humano que nos habita,
Exilou-se na caverna-mundo
e chora um pranto sincero de criança,
por isso a dor.
Chora seus confrades,
que caminham ingenuamente
até o abismo da subserviência
embalados pela flauta do seu déspota - Oh, Ideologia!
Chora de não ser,
num mundo que não permite ser.
Chora cada homem que tomba,
pois sabe que, depois da queda,
todos choram também à procura
sedentos de uma verdade esquecida
E a alma, na embriaguez dos delírios,
em troca de uma bandeira,
ficou largada ao chão
de uma estrada perdida.
Outubro 2003

Cinamomos

Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021
Eu compreendo os cinamomos:
Colunas hirtas de um império que não houve
Pendendo copadas sombras sobre casas velhas de musgo.

É quando a brisa quente do tempo
Espalha o gosto verde pelos cheiros das sestas,
Quando as pequenas flores brancas
Enleiam-se nos cachos das meninas de trança
E as surpresas estão todas de chinelos,
Que os machados sangram sua inveja
Pela quentura dos fios.

Atrapalham o progresso dos concretos
Suas grandes raízes com firmezas que nem os homens temos.

Eles morrem sem chorar.
Gemem sem sangrar.
Não honram os metais com nenhuma gota de seiva.

Seguem mudos.

Ossatura pendurada
De alguém insepulto.

Deixa eles, cinamomo!
Não sabem da primavera…

Teus brotos pequenos
Vingando verdes das amputações violentas
Dirão aos que estavam certos da tua morte:
Vassalos do útil, vocês não podem arrancar a vida!

Quantas vezes te mataram, cinamomo?
Quantas vezes morri também?
Os olhos dos verdugos são de gelo
Como a ausência da Justiça....

Mas os sabres de fogo do tempo
Logo ceifarão os cínicos da hora.
Em breve, cinamomo, nossa copa solene
Estará pronta para a simplicidade dos ninhos,
Para o carinho dos ventos
E para o sono dos ébrios...