Foto: Maurício da Rosa Ávila. Santiago/RS. Nov.2023
Se interessa a todos, A mim já não interessa. Se todos gostam, A mim repugna O fato de todos gostarem.
O normal é uma desgraça.
A mim interessa o que passou. O esquecido. Os cacos. O bagaço da vida.
A mim interessa a fachada velha Dessas casas antigas Sustentando, No canto esquecido de um bairro, Trepadeiras E flores insuspeitas Colhidas por ninguém.
Eu sou advogado.
Eu, engenheiro.
Eu sou mestre em economia.
Sou Doutor em filosofia.
Sou chato.
Sou muito rápido.
Eu sou eficiente.
Já eu sou intuitivo.
Eu sou competitivo.
Eu não.
Eu sou pai.
Eu não sou ninguém
Sou jardineiro.
Sou um homem de sucesso.
Sou empresário.
Sou elegante.
Sou uma boa pessoa.
Sou imperfeito.
Sou detalhista.
Sou um bom motorista.
Sou jogador de futebol.
Sou psicólogo.
Sou chapista.
Sou catador de lixo.
Sou morador de rua.
Sou investidor.
Sou sério.
Sou pleno.
Eu sou triste.
Sou depressivo.
Tenho TOC.
Tenho TDAH.
Sou juiz.
Sou presidiário.
Eu sou carcereiro.
Eu, policial.
Sou o filho de minha mãe.
O orgulho de papai.
Sou homem de família.
Sou pervertido.
Sou empregado doméstico.
Sou copeira.
Sou professora.
Sou criminoso.
Sou político.
Sou aposentado.
Eu não sou.
Eu sou produtivo.
Sou grato.
Sou feliz.
Sou operário.
Sou presidente.
Sou bonito.
Sou feio.
Sou magro.
Sou realizado.
E essa impostura que olha você aí, desde o espelho,
E o espia impertinente por trás de sua imagem?
Isso aí é o quê?
O que vejo ali em meu filho?
Um sonho fugidio
Outrora menino em mim?
Vejo um rosto
Para além do seu
Interpelando-me pelo que fiz da vida?
Vejo-me em meu filho?
Quero para ele
Todos os desejos esquecidos
Cobertos pela areia das horas?
Quero para ele
Tudo que quero?
Quero para ele
Tudo que quis e não pude?
Meu filho olha em meus olhos
E há ali,
Por detrás,
Um olhar estrangeiro.
Irreconhecível.
Não reconhecido.
Algo atravessando nosso amor
Com um nó na garganta:
O inesperado.
Fantasia.
Fantasma caído
De tudo que em mim não deu
Assombra nossos abraços.
Alguém me olha
Pelo olhar de meu filho
E se nega.
Não quer.
Não me quer.
Entre encontros inusitados,
Inesperados sorrisos,
Há uma fenda insolúvel:
Dois estranhos buscando abrigo.
Por trás do olhar de meu filho
Há alguém
Pedindo outra coisa,
Alheio ao meu próprio querer.
Por trás do olhar de meu filho
Há o radicalmente,
O insuperavelmente,
O infamiliarmente diverso.
Aquilo que, um dia,
Inevitavelmente marcará entre nós
A diferença.
O desencaixe.
Entre mim e meu filho
Há ele.
Impossivelmente ele.
Feito de tudo que não sou.
Tudo que não quero.
Tudo que não sei,
Nem posso saber.
Por trás do olhar de meu filho
Há ele.
Com pressa, tenho de deixar meus filhos na escola.
Com pressa, tenho de ir trabalhar.
É tarde.
Com pressa, trabalho
Para, com pressa, buscá-los na escola.
Com pressa, preciso entregar no prazo.
Com pressa, preciso que durmam.
Com pressa, tomo um banho rápido.
Com pressa, janto
Para, em seguida, dormir com pressa.
Com pressa, preparo um café
Para tomar em pé.
Leio manchetes.
Com pressa tomo uma ducha.
Há reunião de trabalho logo cedo.
Leio com pressa as mensagens
De quem nem espera a resposta.
As mensagens para mim, respondo-as rápido.
Rapidinho, até dou uma passada lá.
Só se for rápido,
Sem risco de haver prazer.
Aí, vou.
Para me demorar, não me esperem.
Estou com pressa.
Não tenho tempo
Para essas coisas que demoram tempo.
Filmes, livros, romance, lágrimas
Não habitam mais estes tempos.
Abraços, visitas, bobeira,
Nada para fazer, conversa fiada,
Gente nas calçadas até mais tarde rindo,
Namoros de portão, baralho nas tardes,
Chuva assistida da poltrona,
Pensamento solto
Com as fantasias de crianças
A invadir sonhos de gente grande,
Adivinhar formas nas nuvens,
Desperdiçar amenidades com um desconhecido
Enquanto se aguarda o ônibus.
Essas coisas que costumavam fazer em nós
Nossa humanidade,
Tudo nada mais vale.
Se eu parar para pensar... Não!
Melhor não pensar, senão terei de parar.
Não temos tempo a perder.
Nossa moeda é o tempo.
Temos de ser avaros.
Não desperdiçá-lo.
Muitas coisas
No menor tempo possível.
A emoção distrai.
Faz perdermos tempo.
Demora demais. É incerta no resultado.
Melhor é fazer no menor tempo
Sem sentir.
Rende mais.
À distância é mais seguro.
Virtualmente, melhor.
Não se perde tempo com perguntas tolas:
- "Vejo pelo seu rosto que algo não está bem.
Gostaria de falar?"
Melhor evitar.
Perde-se tempo.
Diria mesmo,
Melhor não olhar no olho.
Melhor ainda não olhar no rosto.
Sem rosto, a gente rende mais.
Sem gosto, a gente come menos.
Sem vida, a gente vive menos
E não perde tempo.
Onde larguei a serotonina? Fui pegá-la de volta E não estava mais lá.
Em verdade, nem mesmo sei Porque a deixava ir Para ter de buscá-la novamente.
Por que não a retinha comigo Desde sempre?
Enfim, de qualquer maneira, Fomos postos como Sísifo, Ao pé da montanha, Tendo de rolar a pedra Eternamente.
Houve um momento, porém, Em que alguém ficou triste com isso. Triste, de não haver remédio. E um outro sabichão bradou: - Este recapturou seratonina demais. Quem ceifa onde não semeou Paga em dobro a conta! - sentenciou.
Inventaram, então, os inibidores Para que não se colhesse felicidade Em campos de prazeres inoportunos.
Interessante que o remédio deste tempo Para os males da infelicidade Seja um inibidor.
O que se inibe na inibição? Sempre me ocorreu Que a tristeza Fosse a constatação captatória da falta.
Parece que não. Ou é, e isso é o que se inibe na inibição.
De qualquer modo, Ficamos melancólicos Como o malabarista no sinal: Jogando os malabares para cima Impedidos de pegá-los na outra mão.
Inibidos da vida Com a alegria baça dos produtivos.
Foto: Praia de Itapeva, Torres/RS. Maurício da Rosa Ávila. Janeiro de 2022.
Vemos Deus com a cor de nossos olhos,
Mas ele é outro.
Há os que o buscam em templos.
Os que seguem liturgias.
Os que reviram livros sagrados.
Há também os que descreem.
Eu
Cato conchas na praia com meus filhos
E sei o infinito.
Pego a eternidade na mão
Por um breve tempo
E fico a admirar
O acaso bonito e inesperado
Das cores e formas.
Deus me espia
Por entre os buracos das pedras
Arisco como os caranguejos.
Voa, de repente, com as gaivotas
Quando uma ânsia de liberdade
Não cabe mais no chão.
Atira-se com a força das marés
Contra as falésias antigas
Cobrindo meu rosto de brisa salgada.
E deita suspiros mansos
Nas maretas que me cobrem os pés
De sossego e sal.
Volta para casa com os pescadores
Que dançam cansaços
Em barcos humildes
Vistos da margem.
- Vamos embora, papai?
- Vamos, filho.
Deus me acena com as ondas
E se joga do poente
Com o sol.
Fica para trás um cheiro de mar.
Fica também o sono meu e de meus filhos
Cheios de sonhos de criança;
Daqueles que se contam pela manhã ao acordar.
Há os que creem
E os que descreem.
Eu cato conchas com meus filhos na praia
E sei o infinito.