Vende-se

Foto por Magda Ehlers em Pexels.com
Vende-se esta casa:
Tratar com o dono.

Mas o dono se foi…

Vende-se esta casa
com tudo que ela tem
de memória
e mobília antiga

Vende-se a macieira do pomar
onde, em tardes cálidas,
subíamos
para olhar os morros,
além

Vende-se a encerra das galinhas
com um menino
brincando de dar pão velho a elas
para rir
de umas fugindo das outras

Vende-se o ovo que a avó deixava
de propósito
no ninho
para que o neto o descobrisse
surpreso
e entregasse a ela
como um raro presente

Vende-se o galpão
com todas as quinquilharias,
algumas delas
feitas pelas mãos rudes do avô

Vende-se o galo
que acordava todos
às quatro da madrugada
irritantemente

Vende-se o campo florido
amarelinho de maria-mole
que se via desde a janela do quarto
nas tardes de sesta larga

Vende-se o cheiro forte da cera vermelha
com que a avó lustrava o chão

Vende-se o cheiro do pão da avó
a rosca de milho, o queijo, o salame,
a rapadura de abobora com cravo

O fogão à lenha…

Vende-se o fogão à lenha
com o gato amarelo dormindo dentro da caixa de gravetos
que se guardava embaixo

Vende-se o vô
voltando do armazém
com brincadeiras
e caramelos

Vende-se a casa
Terreno de duzentos metros quadrados
Próxima a mercado, escola, posto de saúde
mas, agora, longe de mim…

Vejo a foto no anúncio
e sinto um desconforto de alma

Não vejo mais
para onde terá ido
a cerca de madeira feita pelo avô
onde brincávamos de subir?

E o pé de aritcum
em que subíamos
para comer sonhos
e apanhar distâncias?

Vende-se o apito do trem
ao longe
invadindo o silêncio das tardes

Vende-se o encanto
da passagem mesma do trem
vindo não se sabe de onde
e indo para lugar qualquer

Passagem…

Chegadas e partidas são por demais reais
Valem apenas pelo que fica de passagem entre as duas

A casa está à venda
e é como se vendessem a mim

Pudera eu, ao menos,
comprar o fogão à lenha
a casa não morreria

E eu teria n´alma outra vez
cheiro de erva-doce
como os doces de minha avó
erva-doce
era a alma de minha avó
doce

Borboletas

A meus filhos Martín e Santiago

Desenho: Maurício da Rosa Ávila, 2023.
Andam todos com pressa
Pressa de andar em frente
Pressa de não chegar
Angústia de permanecer.

Já tive pressa também.

Hoje ando lento
Olhando para trás a cada passo.

Eu hoje ando lento.

Preciso esperar um menino
Que vem sereno
Admirando as flores
E perseguindo borboletas.

Vem ele
Distraído com as pedras
E desconhecidos insetos
Que povoam suas pequenas descobertas.

Não há urgência em seu andar.

Passem adiante
Todos que querem seguir.
Passem adiante.

Eu hoje ando lento
Olhando para trás a cada passo.
Preciso esperar um menino
De quem fugi muito cedo.

Preciso esperar um menino
E não posso apressá-lo.
É ele que traz em suas mãos
A frágil argila do meu coração.

Todos

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Santiago/RS. Nov.2023
Se interessa a todos,
A mim já não interessa.
Se todos gostam,
A mim repugna
O fato de todos gostarem.

O normal é uma desgraça.

A mim interessa o que passou.
O esquecido.
Os cacos.
O bagaço da vida.

A mim interessa a fachada velha
Dessas casas antigas
Sustentando,
No canto esquecido de um bairro,
Trepadeiras
E flores insuspeitas
Colhidas por ninguém.

Eu sou ali.

Saudade

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Herval/RS. julho/2016.
Saudade...
Sombra na madrugada.

Rendas e sedas claras
Perfilam a geada
Sobre o espelho do açude.

Quero-quero entanguido
Nem alerta o movimento
Dos que vem a cavalo.

Ponchos grandes vestindo auroras
Sobre os ombros
Dos que acordam antes do sol.

Pasto branco.

Uma sede de caminho
Bebida no bojo da cuia.

Cambona perto do fogo.

Frio trazendo infinito
Para dentro do galpão.
Estrelas que invadem os olhos
E vêm se aninhar na alma da gente.

Se eu pudesse,
Seria mesmo horizonte;
Seria sempre distância.

Noite.
Lua nova guardada
No embornal do universo.

Silêncio
Em que só o fogo é que estala.
Mistério
Onde só meu coração é quem bate.

Isso

Foto por Konstantin Mishchenko em Pexels.com
Eu sou advogado.
Eu, engenheiro.
Eu sou mestre em economia.
Sou Doutor em filosofia.

Sou chato.
Sou muito rápido.
Eu sou eficiente.
Já eu sou intuitivo.

Eu sou competitivo.
Eu não.
Eu sou pai.
Eu não sou ninguém

Sou jardineiro.
Sou um homem de sucesso.
Sou empresário.
Sou elegante.

Sou uma boa pessoa.
Sou imperfeito.
Sou detalhista.
Sou um bom motorista.

Sou jogador de futebol.
Sou psicólogo.
Sou chapista.
Sou catador de lixo.

Sou morador de rua.
Sou investidor.
Sou sério.
Sou pleno.

Eu sou triste.
Sou depressivo.
Tenho TOC.
Tenho TDAH.

Sou juiz.
Sou presidiário.
Eu sou carcereiro.
Eu, policial.

Sou o filho de minha mãe.
O orgulho de papai.
Sou homem de família.
Sou pervertido.

Sou empregado doméstico.
Sou copeira.
Sou professora.
Sou criminoso.
Sou político.
Sou aposentado.
Eu não sou.
Eu sou produtivo.

Sou grato.
Sou feliz.
Sou operário.
Sou presidente.

Sou bonito.
Sou feio.
Sou magro.
Sou realizado.

E essa impostura que olha você aí, desde o espelho,
E o espia impertinente por trás de sua imagem?

Isso aí é o quê?

Uma breve história do ódio

Foto por Kat Smith em Pexels.com
- Eu odeio essa gente! 
- Odeio eles!

E eles odeiam
Os que odeiam eles.

Quem tem
Odeia o que não tem.
E quem não tem também.

Aquele que é
Odeia quem não é.

Quem não sabe
Odeia o que sabe.
E quem sabe também.

E os odiados
Odeiam aqueles
Que vivem de odiá-los
Por só saberem odiar.

O filho não viu o pai.
Nunca.
E o buraco triste virou ódio
De tudo e nada
Mira sem alvo

O filho odeia o pai
E o pai odeia o pai
Que espia de dentro do filho.

A mãe odeia o pai - partido.

- Odeio seu cabelo,
sua roupa,
seu olhar,
seu gesto,
seu jeito,
sua cor.

- Odeio o que você representa.

Um país odeia o outro.
Um bairro odeia o outro.
Um colega odeia o outro.

O sol odeia a noite.
A lua odeia o dia.
Uma mão odeia a outra.

O outro odeia o outro.

O menino odeia crianças.
Não existem mais as crianças,
Que não odiavam ninguém.

Quem as ensinou a amar?
Quem ama?
Quem não soube amar?

Onde deixamos cair a humanidade e não vimos?

Todos em fuga
Com medo do amor.

Fantasma

O que vejo ali em meu filho?
Um sonho fugidio
Outrora menino em mim?

Vejo um rosto
Para além do seu
Interpelando-me pelo que fiz da vida?

Vejo-me em meu filho?
Quero para ele
Todos os desejos esquecidos
Cobertos pela areia das horas?

Quero para ele
Tudo que quero?
Quero para ele
Tudo que quis e não pude?

Meu filho olha em meus olhos
E há ali,
Por detrás,
Um olhar estrangeiro.

Irreconhecível.
Não reconhecido.
Algo atravessando nosso amor
Com um nó na garganta:
O inesperado.

Fantasia.
Fantasma caído
De tudo que em mim não deu
Assombra nossos abraços.

Alguém me olha
Pelo olhar de meu filho
E se nega.
Não quer.
Não me quer.

Entre encontros inusitados,
Inesperados sorrisos,
Há uma fenda insolúvel:
Dois estranhos buscando abrigo.

Por trás do olhar de meu filho
Há alguém
Pedindo outra coisa,
Alheio ao meu próprio querer.

Por trás do olhar de meu filho
Há o radicalmente,
O insuperavelmente,
O infamiliarmente diverso.
Aquilo que, um dia,
Inevitavelmente marcará entre nós
A diferença.
O desencaixe.

Entre mim e meu filho
Há ele.
Impossivelmente ele.
Feito de tudo que não sou.
Tudo que não quero.
Tudo que não sei,
Nem posso saber.

Por trás do olhar de meu filho
Há ele.

Monólogo apressado

Foto por Benjamin Suter em Pexels.com
Com pressa, tenho de deixar meus filhos na escola.
Com pressa, tenho de ir trabalhar.
É tarde.
Com pressa, trabalho
Para, com pressa, buscá-los na escola.
Com pressa, preciso entregar no prazo.
Com pressa, preciso que durmam.
Com pressa, tomo um banho rápido.
Com pressa, janto
Para, em seguida, dormir com pressa.
Com pressa, preparo um café
Para tomar em pé.
Leio manchetes.
Com pressa tomo uma ducha.
Há reunião de trabalho logo cedo.
Leio com pressa as mensagens
De quem nem espera a resposta.
As mensagens para mim, respondo-as rápido.
Rapidinho, até dou uma passada lá.
Só se for rápido,
Sem risco de haver prazer.
Aí, vou.
Para me demorar, não me esperem.
Estou com pressa.
Não tenho tempo
Para essas coisas que demoram tempo.
Filmes, livros, romance, lágrimas
Não habitam mais estes tempos.
Abraços, visitas, bobeira,
Nada para fazer, conversa fiada,
Gente nas calçadas até mais tarde rindo,
Namoros de portão, baralho nas tardes,
Chuva assistida da poltrona,
Pensamento solto
Com as fantasias de crianças
A invadir sonhos de gente grande,
Adivinhar formas nas nuvens,
Desperdiçar amenidades com um desconhecido
Enquanto se aguarda o ônibus.
Essas coisas que costumavam fazer em nós
Nossa humanidade,
Tudo nada mais vale.
Se eu parar para pensar... Não!
Melhor não pensar, senão terei de parar.
Não temos tempo a perder.
Nossa moeda é o tempo.
Temos de ser avaros.
Não desperdiçá-lo.
Muitas coisas
No menor tempo possível.
A emoção distrai.
Faz perdermos tempo.
Demora demais. É incerta no resultado.
Melhor é fazer no menor tempo
Sem sentir.
Rende mais.
À distância é mais seguro.
Virtualmente, melhor.
Não se perde tempo com perguntas tolas:
 - "Vejo pelo seu rosto que algo não está bem.
Gostaria de falar?"
Melhor evitar.
Perde-se tempo.
Diria mesmo,
Melhor não olhar no olho.
Melhor ainda não olhar no rosto.
Sem rosto, a gente rende mais.
Sem gosto, a gente come menos.
Sem vida, a gente vive menos
E não perde tempo.

Pequena elegia aos inibidores seletivos de recaptação de serotonina

Onde larguei a serotonina? 
Fui pegá-la de volta
E não estava mais lá.

Em verdade, nem mesmo sei
Porque a deixava ir
Para ter de buscá-la novamente.

Por que não a retinha comigo
Desde sempre?

Enfim, de qualquer maneira,
Fomos postos como Sísifo,
Ao pé da montanha,
Tendo de rolar a pedra
Eternamente.

Houve um momento, porém,
Em que alguém ficou triste com isso.
Triste, de não haver remédio.
E um outro sabichão bradou:
- Este recapturou seratonina demais.
Quem ceifa onde não semeou
Paga em dobro a conta! - sentenciou.

Inventaram, então, os inibidores
Para que não se colhesse felicidade
Em campos de prazeres inoportunos.

Interessante que o remédio deste tempo
Para os males da infelicidade
Seja um inibidor.

O que se inibe na inibição?
Sempre me ocorreu
Que a tristeza
Fosse a constatação captatória da falta.

Parece que não.
Ou é, e isso é o que se inibe na inibição.

De qualquer modo,
Ficamos melancólicos
Como o malabarista no sinal:
Jogando os malabares para cima
Impedidos de pegá-los na outra mão.

Inibidos da vida
Com a alegria baça dos produtivos.

Prainha

Foto: Praia de Itapeva, Torres/RS. Maurício da Rosa Ávila. Janeiro de 2022.
Vemos Deus com a cor de nossos olhos,
Mas ele é outro.

Há os que o buscam em templos.
Os que seguem liturgias.
Os que reviram livros sagrados.
Há também os que descreem.

Eu
Cato conchas na praia com meus filhos
E sei o infinito.
Pego a eternidade na mão
Por um breve tempo
E fico a admirar
O acaso bonito e inesperado
Das cores e formas.

Deus me espia
Por entre os buracos das pedras
Arisco como os caranguejos.
Voa, de repente, com as gaivotas
Quando uma ânsia de liberdade
Não cabe mais no chão.

Atira-se com a força das marés
Contra as falésias antigas
Cobrindo meu rosto de brisa salgada.
E deita suspiros mansos
Nas maretas que me cobrem os pés
De sossego e sal.

Volta para casa com os pescadores
Que dançam cansaços
Em barcos humildes
Vistos da margem.

- Vamos embora, papai?
- Vamos, filho.

Deus me acena com as ondas
E se joga do poente
Com o sol.

Fica para trás um cheiro de mar.
Fica também o sono meu e de meus filhos
Cheios de sonhos de criança;
Daqueles que se contam pela manhã ao acordar.

Há os que creem
E os que descreem.
Eu cato conchas com meus filhos na praia
E sei o infinito.