Sobre Kepler, blocos de montar e o amor.

Talvez Deus seja excêntrico. Sendo Deus, é melhor que seja excêntrico. Soa mais romântico. Excêntrico, Ele fica mais perto de nós. Em certa medida, deve ter sido essa constatação que levou Kepler a abrir mão de sua concepção própria de perfeição e harmonia para captar com mais precisão a (im)perfeição divina. Kepler, dito de outra maneira, parou de tentar dizer o que era Deus para poder vê-lo melhor. (1)

Feita a breve introdução, passemos à história.

Era um dia comum, em que fui até a escola de meu filho para buscá-lo. Antes de chegar à porta da sala, visualizei-o por uma janela sentado à mesa. Grave e compenetrado, brincava com blocos de montar. Ao me ver chegar, gritou:

– Olha, pai! Fiz uma cozinha espacial!

A professora me olha:

– Ele adora brincar com esses blocos, não?

Adora? – Pensei comigo.

A frase, então, caiu-me como uma revelação. Estava ali a chave há tanto buscada. Em um momento inusitado, através de alguém estranho, o oráculo foi proferido e um portal se abriu: um caminho de luz para o coração de meu filho – blocos de montar.

Não respondi à professora. Apenas lhe enderecei um sorriso de aprovação. Meu filho veio em minha direção correndo e abraçou-me. Voltamos para casa.

No caminho, no mesmo carro, seguimos. Não necessariamente para o mesmo lugar. Embora o filho queira, ou mesmo o pai faça questão, um pai e um filho não necessariamente vão para um mesmo lugar. Desencontros do amor. O amor, por vezes, está ali, mas não encontra a fresta por onde entrar. A casa para a qual eu ia não era a mesma para a qual meu filho estava indo. Qual era a dele? Só ele sabe dizer.

Tracei, como modelo cosmológico, uma órbita circular uniforme de amor: minha perfeição. Supus ser essa a forma justa e assim entregava um pai a meu filho. Geometria euclidiana. No entanto, quando o fenômeno se apresentava no mundo, a equação não fechava. A falta atravessava o caminho. Fazia furo. O teorema era perfeito, mas não se ajustava ao fato. Desentendimentos e cansaços do amor. Culpa da insuficiência.

Na hora do banho era a hora do brinquedo. A roupa não era aquela: “Não quero vestir a roupa! Quero ficar pelado!” Hora de comer: “Não quero comida! Não quero essa comida! Nunca mais vou escovar os dentes! Hora do banho: Nunca mais ninguém vai lavar a cabeça! Sabia, pai, que ninguém escova os dentes. Não quero dormir agora! Não quero!” 

Quero você! Quero só você! Quero todo o amor que eu puder ter com a sua cara no meio! Quero o amor com a sua cara! Não quero nada outro! Não quero banho, janta, cama! Quero, quero você!

O que quer uma criança? Afeto com nome próprio até transbordar o balde. Até o fim. Amor com nome de pai e mãe. Com carne, gosto e cheiro de pai e mãe. 

– Quem é sua família, meu filho?

– Você, a mãe, o mano e meus brinquedos.

Somos brinquedos. E o que faz uma criança com seus brinquedos senão criar. E o que faz um homem com o mundo, que já não tenha feito com seus brinquedos de criança? O amor dos filhos não tem lógica. Não tem perfeição. Não tem ajuste. É sempre demais. É sempre incabível, indizível, incontido, como deve ser o amor. Nós é que não sabemos amar. Somos nós que nos perdemos. Desencontramo-nos. Esse pastiche: os adultos.

No caminho de casa, ouço no carro uma música. Espero que meu filho goste dela quando crescer. Ele só quer ver desenho. Sou eu quem gosta da música, não ele. Talvez, no futuro, a música evoque a mim na sua lembrança, nada mais. Ele, no entanto, gosta mesmo de outra coisa. 

E a porta nunca se abre. E batemos. Queremos estar ali no coração deles, mas o amor é arisco como um gato. Às vezes, alguém espia de leve, por uma fresta entreaberta, em uma tarde de sol ameno de sábado, e um sorriso nos abraça. No entanto, logo ao sentir o abraço, abruptamente esse alguém bate a porta em nossa cara com a frieza implacável de uma noite de domingo – a face tétrica do real.

– Veja aqueles pássaros, meu filho! – Aponto um bando de pássaros voando juntos, fazendo desenhos no céu.

– Parece a nossa família, né, pai! – E a porta entreabriu-se novamente.

Só vê o desencontro, quem está buscando encontrar. Quem não o vê, já está perdido.

Chego em casa e paro o carro, esperando o portão abrir. Minha esposa parou à porta com meu outro filho no colo.

– Temos uma surpresa, papai!

Meu filho grita do carro:

– O que é mamãe? Animais marinhos?

Entramos na sala.

– Uma caixa de blocos de montar!

E a porta se escancarou. Arrancaram a porta. Não há mais porta. Meus filhos espalharam os blocos todos pelo chão. Bagunça. O amor é uma bagunça.

Abramos aqui um parêntese. Consta nos anais da história que Kepler, depois de muito insistir em uma geometria por ele suposta, depois de muitas frustrações, culpas, finalmente percebeu que seu olhar estava equivocado. Bastava tornar o sol excêntrico ao sistema e torcer um pouco em elipse a órbita dos planetas e a verdade se daria a olhos de ver. Kepler, depois de anos tentando encaixar a vida na sua geometria, torceu o olhar e viu melhor. Foi o primeiro a perceber que os planetas traçam órbitas elípticas ao redor do sol. Sigamos a história. (2)

Envolto, ainda, em teoremas, sento no sofá e pego algumas peças para montar. Meu filho interpela-me:

– Pai, senta aqui no chão!

Penso: verdade. Quem brinca sentado em um sofá? Só adultos. Mas adultos não brincam. Paradoxo. Sentei-me no chão. Algo demiúrgico se apossou de mim e comecei a ver as peças tomando formas diversas diante de meus olhos. Bastava montar. A cada peça encaixada eu desmontava o adulto em mim. A criança adormecida logo apareceu e eu era um amiguinho do meu filho.

– Tu é o meu melhor amigo, né, pai!

– Sou, meu filho! Sou seu melhor amigo.

Somos nós que não sabemos amar. 

Carro edifício. Zumbi elétrico. Cozinha voadora. Jaula de formiga. 

Eu esqueci de mim. Só via minha esposa, meus filhos e meus brinquedos. Minha família.  Para ver o amor talvez seja necessário torcer o olhar. Pode ser que Deus seja excêntrico, e precisemos olhá-lo como uma criança. Kepler sabe bem o que estou tentando dizer.

Notas:

(1) Johannes Kepler (Weil der Stadt, 27 de dezembro de 1571 — Ratisbona, 15 de novembro de 1630) foi um astrônomo, astrólogo[2] e matemático alemão. Como uma das suas grandes contribuições destaca-se a observação pioneira de que os planetas descrevem, em verdade, órbitas elípticas e não circulares ao redor do sol, sendo que este ocupa um dos focos da elipse, e não o centro. Com isso, abandonou-se a ideia vinda desde Aristóteles de que os corpos celestes possuíam órbitas circulares uniformes ao redor do sol.

(2) Mais surpreendente ainda é que, por ocasião da segunda edição do Mysterium, 25 anos depois, Kepler, já sabendo que esse modelo não tinha passado de um sonho e fazendo em notas ao texto uma autocrítica da sua obra de juventude, acrescentou, no entanto: “… é com prazer que eu lembro das muitas voltas que eu dei, das paredes sem fim ao longo das quais eu tateava na escuridão da minha ignorância, até encontrar a porta por onde entrava a luz da verdade. (SIGAUD, Geraldo Monteiro. Copérnico e Kepler: como a terra saiu do centro do universo in Cadernos IHU Ideias. ano 4 – nº 49 – 2006 – 1679-0316.

A-Nota

Virei número. Nesta semana, fui agraciado com a maior honraria que pode alcançar um sujeito pós-moderno: virei número. Não um número qualquer: uma nota. Não uma nota qualquer: a pior.

Não são todos que têm o privilégio de ver as circunstancialidades da sua existência, os minutos de cansaço, os mal-estares, as pequenas vitórias do dia-a-dia, as conquistas anônimas, as insônias, as preocupações, os desafios emocionais condensados em quatro abstrações que a humanidade convencionou chamar de número.

Como dizia, não são todos que têm esse privilégio. Apenas um sujeito pós-moderno como eu o tem.

A nota não é imerecida, entendam-me bem. Não é disso que se trata. Foi muito justa. Segundo o referencial proposto, foi justa. É outra coisa. É o impacto trazido pelo resumo de uma vida em fragmentos decimais, a síntese levianamente pragmática de um percurso dada em um número real, inescapavelmente real, injustificadamente real; é tudo isso que, em mim, não deixa de trazer um desconforto de alma.

Os enleios do novelo da vida resolvidos no traço de uma reta real: encontro impossível.

O número, como coisa dada, não se discute. Paradoxo de uma coisa que se faz indizível, porque sua existência em si já diz o que há para dizer de si mesma.

O número é surdo para o que falam dele.

Virei número. E não importa o que eu diga. Hoje eu sou ele. Amanhã, não sei. Hoje, no entanto, sou ele. Para um outro, sou ele.

Em certa medida, os números são, para o homem, uma tentativa desesperada de segurança. Promessa de ordem. Dias de paz. Se as coisas saem do controle, se algo escapa, se as sobras de nossos atos começam a compor um estranho, que com o tempo começa a ganhar vida e a nos ameaçar como um “outro-intruso”, é nessas horas que o número aparece para dourar a pílula.

Simplificação do não-saber.

E esse, que aí está a me olhar como um número, não é honesto. O número limita-se ao próprio ser de si. Aquele que olha o número, no entanto, põe dentro dele os significados que lhe aprazem, em desacordo com a lógica própria do número. Enche de conteúdo uma coisa que existe em si pelo fato de não comportar conteúdo de significado: desonestidade.

Esse olhar estrangeiro preenche o “número-eu” de ideias suas, não minhas. Aquilo posto no número é seu, não meu. Não é nem do número. 

Talvez eu cause estranheza a esse que olha. Talvez a minha existência (sem número) seja para ele incontrolável, inclassificável, inconcebível: a sombra de um estranho começando a tomar forma, e que ele mantém distante fazendo de mim um número.

Como número, estou sob controle. Em número, estou concebido. Do número, não me escapo.

No número, sou qualquer outra coisa para um outro, menos eu.