Inventar-se pai*

Tapes/RS, 2020. Foto: Maurício da Rosa Ávila

Um pai é sempre depois. Não existe pai em tese. O pai é algo que habita o agora de um eterno presente. Função.

Talvez alguém se suponha pai pelo fato de ter participado da concepção de um ser humano. Porém, descobrirá em breve tempo que esse ente suposto nada vale para o olhar de um filho quando esvaziado das significações da presença. Presença subjetiva.

A velha autoridade bancada pela hereditariedade dos genes diluiu-se. O pai é demandado desde outro lugar. Nasce, desenvolve-se, cresce e ganha autonomia junto a seus pequenos. Há aí algo de uma simbiose em que a criança do pai retorna e impõe um real enfrentamento de suas questões a partir das demandas atualizadas pela criança que é o filho.

E é imperioso ao pai se haver com essa sua criança. Ela traz em si fantasias de onipotência e se não for contida em seu furor autoritário poderá impor à criança do filho castrações moralistas a título de educação. Uma criança onipotente (do pai) não ama, exige. Não escuta, grita. Não propõe, obriga. E não há nada tão trágico para o desejo de um filho que um pai ditador do destino. Para sua desgraça, o filho está condenado a ter alguém que sabe sempre o melhor caminho.

Com essa postura, a escuta está perdida. A comunicação entre ambos não encontra mais repertório para se haver com suas impossibilidades. Sobra apenas uma saída: a revolta. Uma criança ferida foi imposta a outra e a relação especular fez seu trabalho: agora são duas crianças feridas.

No entanto, é possível a busca de outras vias para se haver com o real da paternidade sem que se tenha de passar necessariamente pelas estruturas imaginárias herdadas da historiografia familiar, reproduzidas, muitas vezes, tão somente pelo gozo que há em reproduzi-las, sem qualquer questionamento. 

Cabe ao pai a busca de um repertório simbólico próprio que o ajude na construção de um discurso a respeito do filho, fundado o mais próximo possível do seu desejo de ser pai e do desejo do filho, atento sempre às respectivas articulações com o núcleo familiar. Nesse ponto, a palavra da mãe acerca do pai também é decisiva para a construção da proposta discursiva em relação ao filho.

A partir dessa visão pode-se dizer que ser pai é dar a mão a uma pessoa e trilhar com ela um rumo desconhecido. Não há garantias de chegada, nem de como será essa chegada. É um estado de presença e atenção para os leves movimentos do desimportante. 

E como é preciso desvestir-se das importâncias para estar apto à solenidade das crianças! Um olhar. Um gesto. Uma frase. Uma brincadeira. Crianças falam o mais importante pelas brincadeiras. Ali mora uma mensagem grave, cujas tintas da fantasia podem fazer com que a deixemos passar despercebida.

Paternidade é um movimento em que o gesto de um implica e supõe o gesto do outro. Tempo de duas vidas escoando pelos dedos das demoras. Demoras necessárias. Demoras já obsoletas, em outros momentos, pelas urgências do mundo.

A carne de um pai é feita de minutos. Minutos em que temos de deixar ruir construções imaginárias de um suposto eu próprio para participarmos, em boa medida, da vida pulsional e fragmentária da criança. Isso custa. Se não custa ao pai, custa ao filho. E cada um arca com o custo que é o seu.

Não proibir a birra, mas questionar de onde ela vem. Talvez seja proveitoso estar atento ao porquê de um determinado ato. Uma pergunta correta a um filho pode nos trazer uma resposta inesperada, embora resolutiva. Crianças são palavras que andam. Posto o valor na palavra dita e sustentando-se esse valor, a criança estará apta a se reconhecer como sujeito de suas próprias palavras.

Não há regras. Aliás, há só uma: estar implicado. Responsabilizar-se. O resto, somos livres para inventar. A paternidade não deixa de ser uma invenção nossa a partir do desejo próprio de pai. Se o tenho e o sustento, melhor para meu filho que aprenderá a ter e a sustentar o seu desejo.

Isso não ocorre sem erros. Escorregões. Atritos. Falhas. Faltas. A falta, no entanto, é o que nos constitui como pessoas. Pessoas vivas, porque desejantes. O problema é quando nada falta e estamos satisfeitos de tédio. A vida torna-se uma insuportável indolência. Pais que erram estão a caminho.

Triste é esconder-se na justificativa de ausências de regras, de inexistência de fórmulas, para não precisar inventar as próprias, bancá-las e viver de acordo com elas. Alguém as inventará e seguiremos regras alheias, de modo que nunca nos responsabilizaremos pelos encontros e desencontros da paternidade que é a nossa.

Infelizmente, a subjetividade do filho é que paga a conta mais alta pela desistência de um pai. Melhor inventá-lo enquanto há tempo.

*Texto dedicado a todos aqueles que fazem função paterna, inclusive aos pais biológicos.

O que sobra…

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*Foto: Maurício da Rosa Ávila/Colônia, Uy. 2017

Passamos a vida nos havendo com sobras. Nossas sobras. Sobras de nós. Sobra-nós. Hoje somos o resto de ontem. Aquilo não consumido por este implacável Sempre do Agora. Osso sobrado das carnes dos segundos. Isto que deu ao ontem boa parte de si, e já não sabe o que fazer com resto. É o que somos. Nós em nossa mais absurda realidade.

Estarrecedor. Estarrecido, pergunto: O que sobra depois do ódio comido com fome? O que sobra depois de todas as hipocrisias mentidas para si mesmo? O que sobra para consciência depois dos crimes todos? O que sobra de todas as teimosias ao pé de portas fechadas por dentro? O que sobra depois de todas as desistências de planos supostos? O que sobra das fantasias ? O que sobra dos sucessos vencidos? Dos títulos pendurados em paredes de casas vazias? Dos inimigos derrotados com cinismo? O que sobra dos gozos da esperteza? O que sobra de crer com muita fé, para descrer com mais força? O que sobra dos moralismos das religiões não-Deus inventadas? O que sobra dos gritos, das discussões? O que sobra depois do bater de braços do afogado? O que sobra do amargo das poucas vitórias e do corriqueiro das derrotas; derrotas-gente-de-casa?

O que sobra de tentar, tentar e tentar? O sonho sonhado é um, posto em prática é já outro, e gozado é péssimo. O que sobra dele? Coisa deselegante e vil isto de colocar sonhos em prática…

O que sobra depois de todos os cansaços cansados, senão um cansaço metafísico. Um espaldar na cadeira da alma, e um suspirar de alívio de nada. Um estirar de músculos nas carnes do ser, e um dar de ombros às obrigações expectantes de nós, que as esquecemos.

O que sobra depois de tudo?

Tento provar, neste lugar, e desde este lugar, que sobra o inusitado. Sobra aquilo feito de linguagem, investido aqui de palavras: sonho íntegro em seu caráter de sonho, por ser contado, apenas; e nunca posto em prática.

Sobra o inesperado. Sobra o buscado e nunca encontrado, porque não se encontrava buscando. Compassivo expectador dessa busca, assistia-nos em nossa carreira, que era inútil, esperando uma fenda por onde mostrar o rosto, mas não dava. Não dávamos.

Eu, de mim, e por mim, estou convicto: o amor é o que sobra depois de tudo.

Bem vindos!