A Coisa

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Praia da Pinvest. Tapes/RS. Fevereiro/2021
Há quem veja na Coisa
A que pusemos o nome de Vida
O aleatório.

O acaso regulando ordenadamente
Estações, bichos e gentes
Num compasso onde não há
Quem dê o ritmo.

Eu, por minha conta,
Peguei Deus e a Vida
Um em cada mão;

Fui até o pátio
E despejei-os fora
De tudo que haviam posto neles dentro.

Levei-os de novo para casa
Como dois baldes vazios
Para neles por o que me aprouvesse bem.

Não fiz conta do jogado fora:
Tagarelices sobre eles.

O que importa do balde é a borda
E não que se ponha um nome
Para enchê-los dentro.

18.02.2021

Ao Reinado da Escócia

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Dezembro, 2020.
Que pensar dessas almas de hoje,
Coitadas, nunca cravaram espinho no pé.
Seres esbranquiçados pelo calcário moderno
Verdejam competências 
Para a importância das coisas inúteis.

Posso eu esperar o que
Desses meninos de olheiras pretas?
Piedade destes que não conhecem o sentido
De uma bola velha murcha, alguns amigos e a rua.
Eles não sabem sujar a roupa...

Pranto compassivo por estas crianças
Guardadas nas gavetas devidas;
Estorvos de um tempo
Em que a imaginação é inútil;
Bonecos velhos de pano
Guardados em baús – só que de pedra.

Quem valerá por essas almas infantes
E tomará para elas a alforria
Destes homens sisudos que lhes dão compromissos
Quando deveriam lhes dar goiabas?

Querem, meu Deus, que seus filhos tenham sucesso...
Ah, o sucesso para uma criança...
Um chapéu de jornal velho e uma espada de pau;
Isto tudo e um quintal de quinquilharias bastam
Para que, em uma tarde,
Conquiste-se o reinado da Escócia,
A tempo ainda de tomar banho e jantar.

O melhor da classe?
Adultos doentes sempre estão às voltas com isso,
E por que não podem, forçam os filhos a podê-lo.

Deixemos em paz nossos pequenos.
Que a imaginação de criança
É a experiência mais próxima
Que, nesta vida, teremos de Deus.

O mar

*A cidade de Torres – RS

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Torres/RS. Dezembro, 2014.
Tive, por algum tempo, o mar
Pelas ruas de minha casa,
Debruçado nas janelas.

Senti-o
No vento das tardes cálidas,
Visitando o absurdo dos sonhos.

Quantas vezes foi a misericórdia dos cansaços?
Nem lembro...

Agora...

Agora, hei de partir!
E ao meu destino chegarei,
Por culpa dele,
Aos poucos.

Aos pedaços.

Será penoso acostumar a alma
A não querê-lo nos olhos
Pelos largos fins de tarde.

Novembro de 2015

Verão

Foto: Paula Steil Machado. Tapes/RS. Brasil. Janeiro, 2021.
Havia no sol, ontem, uma insistência nova
Na maneira de aquecer dos raios.
Prenúncio de outra estação
No movimento das harmonias.
E um sabor de mil verões,
Que o gosto das memórias traz à alma.

Enrubescem-se as vontades,
Com sangue novo que verte
Dos instintos despertos.
As paixões têm mais sentido,
O sentido mais essência.
Mais vigor, cada alvorada.

Noites vagam incautas
Pelas ruelas das vilas
Deixando o rastro, descuidadas,
Destas brisas pequeninas,
Que vez em quando, travessas,
Perdem-se nalguma folhagem.

Retine a prata da lua cheia
Em cada pupila que sonha
Novos dias siderais escondidos
Sob o escuro manto
Das distâncias do infinito.

04.11.2011

Normal

“Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me

Quando quis tirar a máscara, 

Estava pegada à cara” *

*Tabacaria. Álvaro de Campos.
Letargo
Onde a dor já não doía
E o medo era triste.

O sangue,
Vazio de calor,
Corria por correr.

Beijos
Eram protocolares.

E os abraços
Não havia abraços…

O corpo
Uma fisiologia austera.
E o dono,
Um morador louco
Com pretensões de ser a casa.

Para onde foi o teatro?
O que foi feito da plateia?
Pergunto eu,
Já perplexo,
Com a máscara na mão...

Eu,
Para quem as horas escoavam
Por entre os dedos
Das mãos aflitas,
Ouço agora o relógio correr.

E cada sua batida
Escorre pelos ponteiros
O sem sentido das eras.

Viver é para sempre.

O que há
É que não suportamos.

Antes faltava tempo.
Agora nos sobra vida.

Ocorre que com o tempo,
Não há outra coisa,
Senão gastá-lo.

Com a vida,
Não há jeito,
Só vivendo.

O tempo é ânsia.

A vida sonho.
Rubor da face.
Calor do sangue.
Paixão do beijo.
Aperto do abraço.

O tempo, tão somente, urge.

A vida é medo.
Confusão.
Frio na espinha
À beira do precipício.
Incerteza e dor.

O tempo, um cigarro
Aceso ao final do outro.

Onde pus a máscara?
Coloco-a, mas a plateia não vem…

Medo da alma.

Fico eu aqui
Ridículo e só.
Herói bobo
De um pastiche
Esperando que um dia
A vida volte ao normal.

29.05.2020

Carta a Narciso

*Foto: Maurício da Rosa Ávila. Janeiro, 2021.
Nunca foi tão necessário ao humano pôr-se de acordo consigo como agora.
Narciso, hoje, está só.
Sequer lhe resta o consolo de afogar-se nas águas de sua imagem. 
Foi-lhe retirada a possibilidade do espelho.

O que diz a humanidade de si 
Quando as aparências estão ao cabide
Com os ternos e as roupas de grife? 
Como faz para suportar a si mesmo
Aquele para quem os títulos são inócuos ante a angústia iminente?

Aquele que por palavras convenceu tantos, mas nunca a si mesmo; 
Como responde às suas insônias? 
Ele, posto diante da morte em hora inoportuna, 
Como irá se haver com ela?

A morte, agora, espreitando seus sonhos; 
E ele, tão prolífico em ciência, só responde com ódio, medo e desespero…

Ronda os silêncios de sua habitação, 
Como fantasmagoria, a pergunta: 
O que fez até aqui?

Mas não há resposta.

Luta para agarrar-se ao concebido como realidade, 
Mas o pensamento o traga em uma onda invencível para o caos de dentro.

O personagem vive em suspenso.

O que sobra?
Como ser?
O que é ser?
Ser para quê?
É possível não ser?

Narciso descobre hoje um mundo novo para além do espelho.
Tudo era imagem.
Imagem de si. 
Suposto. 
Suposto de si. 

A realidade era um eu torto.

Por um instante, dirige o olhar à ninfa que o chama,
Mas não sabe amá-la.

Narciso olha ao redor, 
Mas não sabe reconhecer o que vê. 
O impossível.
O inominável.

A angústia.

Olha para si, não mais no espelho, 
Mas a partir de si. 
De que és feito, Narciso? 
De que prazer e medo partiram teus anseios?
 Qual foi a estrada do teu caminho?

Não há como retroceder.
Aquel’outra realidade era delírio. 
Ilusão.

Este nada que hoje és tu, 
É a matéria disponível para seguir. 
Esse oco que hoje é a alma, 
É o único lugar que te sobrou por casa.

A palavra está contigo, Narciso! 
O significado também é teu.
E o mundo é feito daquilo que não disseste.
 
Tua fala é do, até hoje, não dito.
Não serve o idioma de antes.
Não há quem ouça.
Como farás para te pores de acordo contigo?

Quem és tu, Narciso?

21.07.2020

O que sobra…

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*Foto: Maurício da Rosa Ávila/Colônia, Uy. 2017

Passamos a vida nos havendo com sobras. Nossas sobras. Sobras de nós. Sobra-nós. Hoje somos o resto de ontem. Aquilo não consumido por este implacável Sempre do Agora. Osso sobrado das carnes dos segundos. Isto que deu ao ontem boa parte de si, e já não sabe o que fazer com resto. É o que somos. Nós em nossa mais absurda realidade.

Estarrecedor. Estarrecido, pergunto: O que sobra depois do ódio comido com fome? O que sobra depois de todas as hipocrisias mentidas para si mesmo? O que sobra para consciência depois dos crimes todos? O que sobra de todas as teimosias ao pé de portas fechadas por dentro? O que sobra depois de todas as desistências de planos supostos? O que sobra das fantasias ? O que sobra dos sucessos vencidos? Dos títulos pendurados em paredes de casas vazias? Dos inimigos derrotados com cinismo? O que sobra dos gozos da esperteza? O que sobra de crer com muita fé, para descrer com mais força? O que sobra dos moralismos das religiões não-Deus inventadas? O que sobra dos gritos, das discussões? O que sobra depois do bater de braços do afogado? O que sobra do amargo das poucas vitórias e do corriqueiro das derrotas; derrotas-gente-de-casa?

O que sobra de tentar, tentar e tentar? O sonho sonhado é um, posto em prática é já outro, e gozado é péssimo. O que sobra dele? Coisa deselegante e vil isto de colocar sonhos em prática…

O que sobra depois de todos os cansaços cansados, senão um cansaço metafísico. Um espaldar na cadeira da alma, e um suspirar de alívio de nada. Um estirar de músculos nas carnes do ser, e um dar de ombros às obrigações expectantes de nós, que as esquecemos.

O que sobra depois de tudo?

Tento provar, neste lugar, e desde este lugar, que sobra o inusitado. Sobra aquilo feito de linguagem, investido aqui de palavras: sonho íntegro em seu caráter de sonho, por ser contado, apenas; e nunca posto em prática.

Sobra o inesperado. Sobra o buscado e nunca encontrado, porque não se encontrava buscando. Compassivo expectador dessa busca, assistia-nos em nossa carreira, que era inútil, esperando uma fenda por onde mostrar o rosto, mas não dava. Não dávamos.

Eu, de mim, e por mim, estou convicto: o amor é o que sobra depois de tudo.

Bem vindos!