Pragmático

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Canela/RS. 2021.
O texto tem de ser curto.
Não há tempo para ler.

O trabalho, objetivo.
Linha de produção.

Criatividade morta
Em tempos de eficiência.

O ócio é crime
De lesa-majestade.

Meu avô, com sua sesta
E seu chimarrão demorado
Nas tardes mornas de primavera
Deve arder, agora,
Em algum inferno de eficientes.

Coitado, ele que tinha tempo
Para me perguntar como anda a escola
E fazer cavacos à tardinha
Antes de acender o fogão a lenha
Deve lamentar
Não fazer parte do mundo moderno.

E minha avó, então!
Para ela a novela das oito
E o programa de rádio do meio-dia
Eram momentos litúrgicos
Tal como a missa das seis;
Hoje, certamente, pena por aí
Em algum purgatório
De gestores de tempo.

A espera foi embora.
Os abraços são rápidos.
Os beijos, pragmáticos.
Os namoros, virtuais.
A vida, exangue
Para gente que foge do tempo
Estando sempre adiante dele.

O cansaço tem sido a alma do corpo.

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