Cada um de nós possui uma marca. A marca da diferença. Diferença que nos faz outro. Diferença que nos torna outro perante o outro, e outro perante si mesmo.
Em algum lugar somos sempre estrangeiros. Há algo em nós que nos faz, também, estrangeiros a nós mesmos.
Sigmund Freud aborda a questão, em sua obra, ao tratar do infamiliar. Mas não é de Freud que trataremos. Nossa digressão é sobre a obra A Vergonha da escritora, Nobel de literatura, Annie Ernaux.
Ao nosso olhar, é o que há nessa obra: o infamiliar. A vergonha é o que aparece no texto como a marca da diferença. Que essa marca signifique objetivamente vergonha, não é o que está em questão. O que se coloca é a constatação da existência dessa marca.
A partir da descrição de situações concretas da vida cotidiana de uma família francesa, vão se definindo os traços dessa diferença. Descrições de ruas, da geografia das cidades, das vestimentas de seus habitantes, do gestual, dos hábitos, tudo desenha o contorno dessa marca que para Ernaux aparece como vergonha.
O texto é cru. Não há fluxo de consciência. Não há estruturação psicológica de enredo. Estão praticamente ausentes imersões em eventuais estados anímicos dos personagens, exceto em alguns recortes em que eles surgem na condição de simples enumeração de dados objetivos. Não há digressões metafísicas.
Nos pequenos trechos em que a narradora ensaia um tímido e breve mergulho psicológico, ela o faz quando fala de si e de sua condição. São como tentativas de epifania sobre o seu próprio passado, as quais apresentam-se como interpolações ao texto, entre parênteses, algo deslocadas, e sempre relutando em abandonar o caráter denotativo e enumerativo das palavras.
As impressões da autora sobre si, colocadas entre parêntesis, ficam como que ensaios de um giro psicológico que acaba por não se concretizar, devido ao apelo que a concretude das coisas e uma visão objetiva de mundo impõem ao seu olhar. Em dado momento ela mesma refere: “Nunca vou conhecer o encanto das metáforas, a alegria do estilo”.
O texto é cru. Creuza essa presente na primeira cena do livro, descrita em toda a sua inteireza e honestidade. Cena descrita uma só vez e que povoa cada página do texto fantasmagoricamente, como cena oculta, mas sempre presente no não dito de cada frase.
Crueza da urina limpa na camisola, cuja marca fica no tecido como sinal de origem para os que vêm de fora. Crueza na origem e no comportamento do pai e da mãe e no trabalho que é seu sustento.
Crueza que contorna essa marca da diferença que é a da narradora. Diferenças de origem familiar e poder econômico capitalizadas politicamente por determinados setores da organização social, usadas para colocar em seu devido lugar os que não são distintos pela marca. Marca vivida e relatada pela narradora como a marca da vergonha.
Que essa marca signifique objetivamente vergonha, não é o que está em questão. Para alguns a mesma marca é lida como desprezo. Para outros, como ódio, saudosismo, orgulho, pertencimento, ou o que seja. O importante é que o texto nos conta que para a narradora essa marca é lida como vergonha.
A vergonha vista já no espelho dos olhos do outro. “No fim das contas, já nem percebia sua presença, ela já estava em meu próprio corpo.”
Resto esmaecido de paisagens velhas. O tempo d’antes é agora amarelecido. Sempre o aconchego da casa da avó No macio das lembranças em tecido.
Colcha colorida sobre o sofá antiquado. Janelas pequenas de madeira Feitas por quem mora na casa. - Assimetrias elegantes no labor silencioso que há nelas.
Tudo simples como a vida. Tudo sempre como Deus.
Foto do Papa à parede E a do casamento em seguida Falam de transcendências incabíveis em qualquer livro santo.
O essencial das lembranças é o amor que causam para hoje. Por isso, o amor insuspeito que há nas casas de avó. Tudo lá aguarda nossa chegada Nas maneiras carinhosas dos biscoitos que ela faz.
Há sempre o pão novo de forma para frugalidade de todos E o pequeno, com olhos de feijão, feito só para nós. Depois, passamos a vida buscando esse pão. Nunca encontramos o amor que havia Naquele de nossa avó.
Portanto, não estranho se, Nessas tardes de tristeza, Em que me cansei de ter altura, Tenho saudades de avó; E ânsia de me desfazer do que se apegou em meu ser Como pega-pega de capoeira Pelos caminhos tortos da vida.
Nesses dias, lembro da casa de minha avó E sento com ela na varanda de mim. Ela ainda me conta histórias Cobertas com a doçura Que uma bondade toda sua Sabia por às cantilenas.
O texto tem de ser curto.
Não há tempo para ler.
O trabalho, objetivo.
Linha de produção.
Criatividade morta
Em tempos de eficiência.
O ócio é crime
De lesa-majestade.
Meu avô, com sua sesta
E seu chimarrão demorado
Nas tardes mornas de primavera
Deve arder, agora,
Em algum inferno de eficientes.
Coitado, ele que tinha tempo
Para me perguntar como anda a escola
E fazer cavacos à tardinha
Antes de acender o fogão a lenha
Deve lamentar
Não fazer parte do mundo moderno.
E minha avó, então!
Para ela a novela das oito
E o programa de rádio do meio-dia
Eram momentos litúrgicos
Tal como a missa das seis;
Hoje, certamente, pena por aí
Em algum purgatório
De gestores de tempo.
A espera foi embora.
Os abraços são rápidos.
Os beijos, pragmáticos.
Os namoros, virtuais.
A vida, exangue
Para gente que foge do tempo
Estando sempre adiante dele.
O cansaço tem sido a alma do corpo.