Resto esmaecido de paisagens velhas. O tempo d’antes é agora amarelecido. Sempre o aconchego da casa da avó No macio das lembranças em tecido.
Colcha colorida sobre o sofá antiquado. Janelas pequenas de madeira Feitas por quem mora na casa. - Assimetrias elegantes no labor silencioso que há nelas.
Tudo simples como a vida. Tudo sempre como Deus.
Foto do Papa à parede E a do casamento em seguida Falam de transcendências incabíveis em qualquer livro santo.
O essencial das lembranças é o amor que causam para hoje. Por isso, o amor insuspeito que há nas casas de avó. Tudo lá aguarda nossa chegada Nas maneiras carinhosas dos biscoitos que ela faz.
Há sempre o pão novo de forma para frugalidade de todos E o pequeno, com olhos de feijão, feito só para nós. Depois, passamos a vida buscando esse pão. Nunca encontramos o amor que havia Naquele de nossa avó.
Portanto, não estranho se, Nessas tardes de tristeza, Em que me cansei de ter altura, Tenho saudades de avó; E ânsia de me desfazer do que se apegou em meu ser Como pega-pega de capoeira Pelos caminhos tortos da vida.
Nesses dias, lembro da casa de minha avó E sento com ela na varanda de mim. Ela ainda me conta histórias Cobertas com a doçura Que uma bondade toda sua Sabia por às cantilenas.
Porteira fechada. Vim ser homem da cidade. Dobradiça de ferro antiga Rangendo ao peso da saudade.
Cantiga triste de campo Trazendo à memória Retratos queridos De gente que não vive mais.
Silêncios da campanha…
O silêncio do pampa É um silêncio diverso. Silêncio na voz do vento Cantando no arame da trama.
Mamangava vigiando o buraco do oitão.
Silêncio alegre do alarido das caturritas Pelas bergamoteiras carregadas de fruto. Silêncio mais doce não há.
Silêncio da água nas pedras Denunciando o rastro da sanga Num fundo de mato.
Silêncio da pedra ancestral Nas tardes de verão morno Embalando as sestas dos lagartos.
Tapera antiga. Madeirame curtido da intempérie. Ganchos cobertos de ferrugem Para arreios gastos de campeiros que se foram.
No pampa, O silêncio fala E o tempo é saudade.
Chapéu de aba larga Com marcas de temporal. Poncho baeta Carregando o carnal por dentro.
Botas de lida Com suor de mil potros.
Insistência da memória. Aperos de meu avô.
Vim ser homem da cidade…
Espera! Espera por mim saudade! Leva o tempo por munício*. Mandei avisar no rádio: Chego 'inda pr'amanhã Enforquilhado num verso!
26.04.2022
*Munício: s. Gado de corte que segue as forças para a alimentação dos soldados. Rês, quase sempre terneira ou novilha, que é incorporada à tropa de gado vacum para ser abatida, durante a viagem, para a alimentação dos tropeiros. Gênero alimentício que o tropeiro conduz consigo para as necessidades da viagem. (Minidicionário Guasca. Zeno Cardoso Nunes e Rui Cardoso Nunes. Martins Livreiro. 4ª edição).
O texto tem de ser curto.
Não há tempo para ler.
O trabalho, objetivo.
Linha de produção.
Criatividade morta
Em tempos de eficiência.
O ócio é crime
De lesa-majestade.
Meu avô, com sua sesta
E seu chimarrão demorado
Nas tardes mornas de primavera
Deve arder, agora,
Em algum inferno de eficientes.
Coitado, ele que tinha tempo
Para me perguntar como anda a escola
E fazer cavacos à tardinha
Antes de acender o fogão a lenha
Deve lamentar
Não fazer parte do mundo moderno.
E minha avó, então!
Para ela a novela das oito
E o programa de rádio do meio-dia
Eram momentos litúrgicos
Tal como a missa das seis;
Hoje, certamente, pena por aí
Em algum purgatório
De gestores de tempo.
A espera foi embora.
Os abraços são rápidos.
Os beijos, pragmáticos.
Os namoros, virtuais.
A vida, exangue
Para gente que foge do tempo
Estando sempre adiante dele.
O cansaço tem sido a alma do corpo.