Foto: Maurício da Rosa Ávila. Março de 2021, Tapes/RS
Eu hoje descobri o silêncio.
Ele é claro como uma manhã de outono. Há nele árvores E uma lagoa serena.
Pequeno bando de garças Cruza o céu Na direção de seu trabalho diário De espiar e colher peixes.
Nele há vento, cheiro de mato E nada para fazer.
Hoje eu descobri o silêncio.
E, na hora mesma em que o descobri, Uma garoa veio insistir Causando em mim breve estranhamento.
Olhei o entorno.
No silêncio encontrei uma figueira. Sentei-me em um galho seu, Desses que parecem braços de gente.
O João-de-Barro catando pequenos ciscos pela grama Veio ter a meu lado. Olhou-me com breve espanto. Não acreditou que lhe fosse fazer algum mal E seguiu o curso de sua vida Como sempre.
Vida longa ao nosso rei: Ideologia! Altares são erguidos tacitamente em teu nome.
Senhor de tudo que sentimos, Jogas xadrez com nossas mentes. Brincamos de pensar, quando, em verdade, Prestamos reverência a tua odiosa coroa.
Oh, Grande Rei, que nos falas Por sob vestes de ideias sombrias, Do estrado cambiante da falácia! Na luta da vida, ovacionamos tuas palavras. Na guerra, irmãos, famílias E confrades travam contendas; E o sangue do amado na palma de nossas mãos É o triunfo do nosso monarca.
Oh, Rei Sol dos novos tempos! Quantos heróis vitoriosos, Privados do gozo da glória! Quantos inimigos vencidos, Eximidos da dor do fracasso! Quantos gênios relegados À miséria da heresia! Quantos energúmenos Jubilosos no poder! Para o único triunfo que é a força de tua coroa...
Enquanto o homem que nos habita, Exilou-se na caverna chamada mundo. Chora um pranto sincero de criança, Por isso a dor!
Chora seus confrades, Que caminham ingenuamente Ao abismo da subserviência Embalados pela flauta do seu déspota - Oh, Ideologia!
Chora a fortuna de não ser, Num mundo que não permite ser. Chora cada homem que tomba, Pois sabe que, depois da queda, Todos choram à procura Daquilo que há No ser igual a si mesmo.
Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021
Eu compreendo os cinamomos: Colunas hirtas de um império que não houve Pendendo copadas sombras sobre casas velhas de musgo.
É quando a brisa quente do tempo Espalha o gosto verde pelos cheiros das sestas, Quando as pequenas flores brancas Enleiam-se nos cachos das meninas de trança E as surpresas estão todas de chinelos, Que os machados sangram sua inveja Pela quentura dos fios.
Atrapalham o progresso dos concretos Suas grandes raízes com firmezas que nem os homens temos.
Eles morrem sem chorar. Gemem sem sangrar. Não honram os metais com nenhuma gota de seiva.
Seguem mudos.
Ossatura pendurada De alguém insepulto.
Deixa eles, cinamomo! Não sabem da primavera…
Teus brotos pequenos Vingando verdes das amputações violentas Dirão aos que estavam certos da tua morte: Vassalos do útil, vocês não podem arrancar a vida!
Quantas vezes te mataram, cinamomo? Quantas vezes morri também? Os olhos dos verdugos são de gelo Como a ausência da Justiça....
Mas os sabres de fogo do tempo Logo ceifarão os cínicos da hora. Em breve, cinamomo, nossa copa solene Estará pronta para a simplicidade dos ninhos, Para o carinho dos ventos E para o sono dos ébrios...
Que pensar dessas almas de hoje, Coitadas, nunca cravaram espinho no pé. Seres esbranquiçados pelo calcário moderno Verdejam competências Para a importância das coisas inúteis.
Posso eu esperar o que Desses meninos de olheiras pretas? Piedade destes que não conhecem o sentido De uma bola velha murcha, alguns amigos e a rua. Eles não sabem sujar a roupa...
Pranto compassivo por estas crianças Guardadas nas gavetas devidas; Estorvos de um tempo Em que a imaginação é inútil; Bonecos velhos de pano Guardados em baús – só que de pedra.
Quem valerá por essas almas infantes E tomará para elas a alforria Destes homens sisudos que lhes dão compromissos Quando deveriam lhes dar goiabas?
Querem, meu Deus, que seus filhos tenham sucesso... Ah, o sucesso para uma criança... Um chapéu de jornal velho e uma espada de pau; Isto tudo e um quintal de quinquilharias bastam Para que, em uma tarde, Conquiste-se o reinado da Escócia, A tempo ainda de tomar banho e jantar.
O melhor da classe? Adultos doentes sempre estão às voltas com isso, E por que não podem, forçam os filhos a podê-lo.
Deixemos em paz nossos pequenos. Que a imaginação de criança É a experiência mais próxima Que, nesta vida, teremos de Deus.
Nunca foi tão necessário ao humano pôr-se de acordo consigo como agora.
Narciso, hoje, está só.
Sequer lhe resta o consolo de afogar-se nas águas de sua imagem.
Foi-lhe retirada a possibilidade do espelho.
O que diz a humanidade de si
Quando as aparências estão ao cabide
Com os ternos e as roupas de grife?
Como faz para suportar a si mesmo
Aquele para quem os títulos são inócuos ante a angústia iminente?
Aquele que por palavras convenceu tantos, mas nunca a si mesmo;
Como responde às suas insônias?
Ele, posto diante da morte em hora inoportuna,
Como irá se haver com ela?
A morte, agora, espreitando seus sonhos;
E ele, tão prolífico em ciência, só responde com ódio, medo e desespero…
Ronda os silêncios de sua habitação,
Como fantasmagoria, a pergunta:
O que fez até aqui?
Mas não há resposta.
Luta para agarrar-se ao concebido como realidade,
Mas o pensamento o traga em uma onda invencível para o caos de dentro.
O personagem vive em suspenso.
O que sobra?
Como ser?
O que é ser?
Ser para quê?
É possível não ser?
Narciso descobre hoje um mundo novo para além do espelho.
Tudo era imagem.
Imagem de si.
Suposto.
Suposto de si.
A realidade era um eu torto.
Por um instante, dirige o olhar à ninfa que o chama,
Mas não sabe amá-la.
Narciso olha ao redor,
Mas não sabe reconhecer o que vê.
O impossível.
O inominável.
A angústia.
Olha para si, não mais no espelho,
Mas a partir de si.
De que és feito, Narciso?
De que prazer e medo partiram teus anseios?
Qual foi a estrada do teu caminho?
Não há como retroceder.
Aquel’outra realidade era delírio.
Ilusão.
Este nada que hoje és tu,
É a matéria disponível para seguir.
Esse oco que hoje é a alma,
É o único lugar que te sobrou por casa.
A palavra está contigo, Narciso!
O significado também é teu.
E o mundo é feito daquilo que não disseste.
Tua fala é do, até hoje, não dito.
Não serve o idioma de antes.
Não há quem ouça.
Como farás para te pores de acordo contigo?
Quem és tu, Narciso?
21.07.2020