Ideologia

Arte (?): Maurício da Rosa Ávila. 21.03.2021
Vida longa ao nosso rei: Ideologia!
Altares são ornados em seu nome.
Senhor de tudo que sentimos,
joga xadrez com nossas mentes.
Brincamos de pensar, quando, em verdade,
prestamos reverência a sua odiosa coroa.
Oh, Grande Rei, que nos fala
por sob vestes de ideias sombrias
do estrado cambiante da falácia!
Na luta da vida, ovacionamos suas palavras.
Na guerra, irmãos, famílias
e confrades travam contendas;
o sangue do amado na palma de nossas mãos
é o triunfo do nosso monarca.
Oh, Rei Sol dos novos tempos!
Quantos heróis vitoriosos,
privados do gozo da glória!
Quantos inimigos vencidos,
eximidos da dor do fracasso!
Quantos gênios relegados
à miséria da heresia!
Quantos energúmenos
jubilosos no poder!
Para o único triunfo
que é a força de sua coroa...
O humano que nos habita,
Exilou-se na caverna-mundo
e chora um pranto sincero de criança,
por isso a dor.
Chora seus confrades,
que caminham ingenuamente
até o abismo da subserviência
embalados pela flauta do seu déspota - Oh, Ideologia!
Chora de não ser,
num mundo que não permite ser.
Chora cada homem que tomba,
pois sabe que, depois da queda,
todos choram também à procura
sedentos de uma verdade esquecida
E a alma, na embriaguez dos delírios,
em troca de uma bandeira,
ficou largada ao chão
de uma estrada perdida.
Outubro 2003

Cinamomos

Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021
Eu compreendo os cinamomos:
Colunas hirtas de um império que não houve
Pendendo copadas sombras sobre casas velhas de musgo.

É quando a brisa quente do tempo
Espalha o gosto verde pelos cheiros das sestas,
Quando as pequenas flores brancas
Enleiam-se nos cachos das meninas de trança
E as surpresas estão todas de chinelos,
Que os machados sangram sua inveja
Pela quentura dos fios.

Atrapalham o progresso dos concretos
Suas grandes raízes com firmezas que nem os homens temos.

Eles morrem sem chorar.
Gemem sem sangrar.
Não honram os metais com nenhuma gota de seiva.

Seguem mudos.

Ossatura pendurada
De alguém insepulto.

Deixa eles, cinamomo!
Não sabem da primavera…

Teus brotos pequenos
Vingando verdes das amputações violentas
Dirão aos que estavam certos da tua morte:
Vassalos do útil, vocês não podem arrancar a vida!

Quantas vezes te mataram, cinamomo?
Quantas vezes morri também?
Os olhos dos verdugos são de gelo
Como a ausência da Justiça....

Mas os sabres de fogo do tempo
Logo ceifarão os cínicos da hora.
Em breve, cinamomo, nossa copa solene
Estará pronta para a simplicidade dos ninhos,
Para o carinho dos ventos
E para o sono dos ébrios...