Um dia serei de novo aquela estrela sozinha Madrugando pelas ausências dos campos. Serei o espanto e a novidade do mistério Povoando o sonho dos amanhãs. Serei o vento pampeiro Buscando perdido o rastro ancestral da disparada, Em estouro e tropel, de algum centauro charrua.
Serei a pedra silente do lajedo pequeno Nas tardes de verão quente. O arrulho escondido num cinamomo de tapera. Serei para mim mesmo a quimera De ser um pedaço de meu próprio mundo – Uma braça de terra, um revoo na aguada... Estrada, tempo e caminho...
Posso não ser importante e até desconhecido, Mas não se importem comigo, Na solidão das lonjuras, Basta a mim ser horizonte; Ou qualquer elemento anônimo, Que faz a vida do meu rincão Uma mensagem de Deus para a alma.
Não me canso atrás do bastante Quando a mim mesmo me basto. O que posso querer da ilusão Se dela nunca terei verdade?
O que quero mesmo é ser flechilha e caraguatá; Porque nada falta ao que bebe silêncio: É só mate, fogão e a alma...
Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021.
Prédios lançam mil olhos Pelas janelas do meu apartamento.
Lua sobre o Bonfim Esgueira-se por entre as ruas: Porto Alegre vem me contar segredos Em meio aos silêncios da noite.
Longes barulhos de luzes Subindo e descendo No escuro de um céu de chumbo: Estrelas mecanizadas Suspirando turbinas Nos desvãos da madrugada.
Eu não fumo. Meu vizinho sim. E enquanto eu escrevo e ele fuma Percorre nosso ser O mesmo espanto metafísico Que eu tento dizer E ele tenta fumar.
Todos dormem. E enquanto dormem, Corro atrás do coelho branco Para chegar atrasado a um chá, Mas não do chapeleiro maluco: Suponho mais maravilhas que Alice…
O executivo dorme. O Senhor Diretor dorme. O cura dorme. O estivador dorme. E nisso todas as pretensões suas Ao cabide, com as roupas de ontem, Levemente balançando Com a brisa que entra pela fresta Da janela esquecida aberta.
O mundo é meu, não deles.
Amanhã, despertando cedo, Revisarão os deveres enquanto escovam os dentes. Vestirão roupas limpas, Repetindo as pretensões. Ou vestirão pretensões também limpas, Mandando as velhas para lavanderia Com as roupas de ontem.
E, então, o mundo será novamente deles...
Até que uma nova noite venha. Meu vizinho fume. E eu faça versos. O coelho branco apareça entre insônias. E a lua cheia derrame sua prata Sobre o sono de Porto Alegre.
Vida longa ao nosso rei: Ideologia! Altares são erguidos tacitamente em teu nome.
Senhor de tudo que sentimos, Jogas xadrez com nossas mentes. Brincamos de pensar, quando, em verdade, Prestamos reverência a tua odiosa coroa.
Oh, Grande Rei, que nos falas Por sob vestes de ideias sombrias, Do estrado cambiante da falácia! Na luta da vida, ovacionamos tuas palavras. Na guerra, irmãos, famílias E confrades travam contendas; E o sangue do amado na palma de nossas mãos É o triunfo do nosso monarca.
Oh, Rei Sol dos novos tempos! Quantos heróis vitoriosos, Privados do gozo da glória! Quantos inimigos vencidos, Eximidos da dor do fracasso! Quantos gênios relegados À miséria da heresia! Quantos energúmenos Jubilosos no poder! Para o único triunfo que é a força de tua coroa...
Enquanto o homem que nos habita, Exilou-se na caverna chamada mundo. Chora um pranto sincero de criança, Por isso a dor!
Chora seus confrades, Que caminham ingenuamente Ao abismo da subserviência Embalados pela flauta do seu déspota - Oh, Ideologia!
Chora a fortuna de não ser, Num mundo que não permite ser. Chora cada homem que tomba, Pois sabe que, depois da queda, Todos choram à procura Daquilo que há No ser igual a si mesmo.
Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021
Eu compreendo os cinamomos: Colunas hirtas de um império que não houve Pendendo copadas sombras sobre casas velhas de musgo.
É quando a brisa quente do tempo Espalha o gosto verde pelos cheiros das sestas, Quando as pequenas flores brancas Enleiam-se nos cachos das meninas de trança E as surpresas estão todas de chinelos, Que os machados sangram sua inveja Pela quentura dos fios.
Atrapalham o progresso dos concretos Suas grandes raízes com firmezas que nem os homens temos.
Eles morrem sem chorar. Gemem sem sangrar. Não honram os metais com nenhuma gota de seiva.
Seguem mudos.
Ossatura pendurada De alguém insepulto.
Deixa eles, cinamomo! Não sabem da primavera…
Teus brotos pequenos Vingando verdes das amputações violentas Dirão aos que estavam certos da tua morte: Vassalos do útil, vocês não podem arrancar a vida!
Quantas vezes te mataram, cinamomo? Quantas vezes morri também? Os olhos dos verdugos são de gelo Como a ausência da Justiça....
Mas os sabres de fogo do tempo Logo ceifarão os cínicos da hora. Em breve, cinamomo, nossa copa solene Estará pronta para a simplicidade dos ninhos, Para o carinho dos ventos E para o sono dos ébrios...
Que pensar dessas almas de hoje, Coitadas, nunca cravaram espinho no pé. Seres esbranquiçados pelo calcário moderno Verdejam competências Para a importância das coisas inúteis.
Posso eu esperar o que Desses meninos de olheiras pretas? Piedade destes que não conhecem o sentido De uma bola velha murcha, alguns amigos e a rua. Eles não sabem sujar a roupa...
Pranto compassivo por estas crianças Guardadas nas gavetas devidas; Estorvos de um tempo Em que a imaginação é inútil; Bonecos velhos de pano Guardados em baús – só que de pedra.
Quem valerá por essas almas infantes E tomará para elas a alforria Destes homens sisudos que lhes dão compromissos Quando deveriam lhes dar goiabas?
Querem, meu Deus, que seus filhos tenham sucesso... Ah, o sucesso para uma criança... Um chapéu de jornal velho e uma espada de pau; Isto tudo e um quintal de quinquilharias bastam Para que, em uma tarde, Conquiste-se o reinado da Escócia, A tempo ainda de tomar banho e jantar.
O melhor da classe? Adultos doentes sempre estão às voltas com isso, E por que não podem, forçam os filhos a podê-lo.
Deixemos em paz nossos pequenos. Que a imaginação de criança É a experiência mais próxima Que, nesta vida, teremos de Deus.
Nunca foi tão necessário ao humano pôr-se de acordo consigo como agora.
Narciso, hoje, está só.
Sequer lhe resta o consolo de afogar-se nas águas de sua imagem.
Foi-lhe retirada a possibilidade do espelho.
O que diz a humanidade de si
Quando as aparências estão ao cabide
Com os ternos e as roupas de grife?
Como faz para suportar a si mesmo
Aquele para quem os títulos são inócuos ante a angústia iminente?
Aquele que por palavras convenceu tantos, mas nunca a si mesmo;
Como responde às suas insônias?
Ele, posto diante da morte em hora inoportuna,
Como irá se haver com ela?
A morte, agora, espreitando seus sonhos;
E ele, tão prolífico em ciência, só responde com ódio, medo e desespero…
Ronda os silêncios de sua habitação,
Como fantasmagoria, a pergunta:
O que fez até aqui?
Mas não há resposta.
Luta para agarrar-se ao concebido como realidade,
Mas o pensamento o traga em uma onda invencível para o caos de dentro.
O personagem vive em suspenso.
O que sobra?
Como ser?
O que é ser?
Ser para quê?
É possível não ser?
Narciso descobre hoje um mundo novo para além do espelho.
Tudo era imagem.
Imagem de si.
Suposto.
Suposto de si.
A realidade era um eu torto.
Por um instante, dirige o olhar à ninfa que o chama,
Mas não sabe amá-la.
Narciso olha ao redor,
Mas não sabe reconhecer o que vê.
O impossível.
O inominável.
A angústia.
Olha para si, não mais no espelho,
Mas a partir de si.
De que és feito, Narciso?
De que prazer e medo partiram teus anseios?
Qual foi a estrada do teu caminho?
Não há como retroceder.
Aquel’outra realidade era delírio.
Ilusão.
Este nada que hoje és tu,
É a matéria disponível para seguir.
Esse oco que hoje é a alma,
É o único lugar que te sobrou por casa.
A palavra está contigo, Narciso!
O significado também é teu.
E o mundo é feito daquilo que não disseste.
Tua fala é do, até hoje, não dito.
Não serve o idioma de antes.
Não há quem ouça.
Como farás para te pores de acordo contigo?
Quem és tu, Narciso?
21.07.2020