Cinamomos

Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021
Eu compreendo os cinamomos:
Colunas hirtas de um império que não houve
Pendendo copadas sombras sobre casas velhas de musgo.

É quando a brisa quente do tempo
Espalha o gosto verde pelos cheiros das sestas,
Quando as pequenas flores brancas
Enleiam-se nos cachos das meninas de trança
E as surpresas estão todas de chinelos,
Que os machados sangram sua inveja
Pela quentura dos fios.

Atrapalham o progresso dos concretos
Suas grandes raízes com firmezas que nem os homens temos.

Eles morrem sem chorar.
Gemem sem sangrar.
Não honram os metais com nenhuma gota de seiva.

Seguem mudos.

Ossatura pendurada
De alguém insepulto.

Deixa eles, cinamomo!
Não sabem da primavera…

Teus brotos pequenos
Vingando verdes das amputações violentas
Dirão aos que estavam certos da tua morte:
Vassalos do útil, vocês não podem arrancar a vida!

Quantas vezes te mataram, cinamomo?
Quantas vezes morri também?
Os olhos dos verdugos são de gelo
Como a ausência da Justiça....

Mas os sabres de fogo do tempo
Logo ceifarão os cínicos da hora.
Em breve, cinamomo, nossa copa solene
Estará pronta para a simplicidade dos ninhos,
Para o carinho dos ventos
E para o sono dos ébrios...

A Coisa

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Praia da Pinvest. Tapes/RS. Fevereiro/2021
Há quem veja na Coisa
A que pusemos o nome de Vida
O aleatório.

O acaso regulando ordenadamente
Estações, bichos e gentes
Num compasso onde não há
Quem dê o ritmo.

Eu, por minha conta,
Peguei Deus e a Vida
Um em cada mão;

Fui até o pátio
E despejei-os fora
De tudo que haviam posto neles dentro.

Levei-os de novo para casa
Como dois baldes vazios
Para neles por o que me aprouvesse bem.

Não fiz conta do jogado fora:
Tagarelices sobre eles.

O que importa do balde é a borda
E não que se ponha um nome
Para enchê-los dentro.

18.02.2021

Ao Reinado da Escócia

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Dezembro, 2020.
Que pensar dessas almas de hoje,
Coitadas, nunca cravaram espinho no pé.
Seres esbranquiçados pelo calcário moderno
Verdejam competências 
Para a importância das coisas inúteis.

Posso eu esperar o que
Desses meninos de olheiras pretas?
Piedade destes que não conhecem o sentido
De uma bola velha murcha, alguns amigos e a rua.
Eles não sabem sujar a roupa...

Pranto compassivo por estas crianças
Guardadas nas gavetas devidas;
Estorvos de um tempo
Em que a imaginação é inútil;
Bonecos velhos de pano
Guardados em baús – só que de pedra.

Quem valerá por essas almas infantes
E tomará para elas a alforria
Destes homens sisudos que lhes dão compromissos
Quando deveriam lhes dar goiabas?

Querem, meu Deus, que seus filhos tenham sucesso...
Ah, o sucesso para uma criança...
Um chapéu de jornal velho e uma espada de pau;
Isto tudo e um quintal de quinquilharias bastam
Para que, em uma tarde,
Conquiste-se o reinado da Escócia,
A tempo ainda de tomar banho e jantar.

O melhor da classe?
Adultos doentes sempre estão às voltas com isso,
E por que não podem, forçam os filhos a podê-lo.

Deixemos em paz nossos pequenos.
Que a imaginação de criança
É a experiência mais próxima
Que, nesta vida, teremos de Deus.

Verão

Foto: Paula Steil Machado. Tapes/RS. Brasil. Janeiro, 2021.
Havia no sol, ontem, uma insistência nova
Na maneira de aquecer dos raios.
Prenúncio de outra estação
No movimento das harmonias.
E um sabor de mil verões,
Que o gosto das memórias traz à alma.

Enrubescem-se as vontades,
Com sangue novo que verte
Dos instintos despertos.
As paixões têm mais sentido,
O sentido mais essência.
Mais vigor, cada alvorada.

Noites vagam incautas
Pelas ruelas das vilas
Deixando o rastro, descuidadas,
Destas brisas pequeninas,
Que vez em quando, travessas,
Perdem-se nalguma folhagem.

Retine a prata da lua cheia
Em cada pupila que sonha
Novos dias siderais escondidos
Sob o escuro manto
Das distâncias do infinito.

04.11.2011

Normal

“Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me

Quando quis tirar a máscara, 

Estava pegada à cara” *

*Tabacaria. Álvaro de Campos.
Letargo
Onde a dor já não doía
E o medo era triste.

O sangue,
Vazio de calor,
Corria por correr.

Beijos
Eram protocolares.

E os abraços
Não havia abraços…

O corpo
Uma fisiologia austera.
E o dono,
Um morador louco
Com pretensões de ser a casa.

Para onde foi o teatro?
O que foi feito da plateia?
Pergunto eu,
Já perplexo,
Com a máscara na mão...

Eu,
Para quem as horas escoavam
Por entre os dedos
Das mãos aflitas,
Ouço agora o relógio correr.

E cada sua batida
Escorre pelos ponteiros
O sem sentido das eras.

Viver é para sempre.

O que há
É que não suportamos.

Antes faltava tempo.
Agora nos sobra vida.

Ocorre que com o tempo,
Não há outra coisa,
Senão gastá-lo.

Com a vida,
Não há jeito,
Só vivendo.

O tempo é ânsia.

A vida sonho.
Rubor da face.
Calor do sangue.
Paixão do beijo.
Aperto do abraço.

O tempo, tão somente, urge.

A vida é medo.
Confusão.
Frio na espinha
À beira do precipício.
Incerteza e dor.

O tempo, um cigarro
Aceso ao final do outro.

Onde pus a máscara?
Coloco-a, mas a plateia não vem…

Medo da alma.

Fico eu aqui
Ridículo e só.
Herói bobo
De um pastiche
Esperando que um dia
A vida volte ao normal.

29.05.2020

Carta a Narciso

*Foto: Maurício da Rosa Ávila. Janeiro, 2021.
Nunca foi tão necessário ao humano pôr-se de acordo consigo como agora.
Narciso, hoje, está só.
Sequer lhe resta o consolo de afogar-se nas águas de sua imagem. 
Foi-lhe retirada a possibilidade do espelho.

O que diz a humanidade de si 
Quando as aparências estão ao cabide
Com os ternos e as roupas de grife? 
Como faz para suportar a si mesmo
Aquele para quem os títulos são inócuos ante a angústia iminente?

Aquele que por palavras convenceu tantos, mas nunca a si mesmo; 
Como responde às suas insônias? 
Ele, posto diante da morte em hora inoportuna, 
Como irá se haver com ela?

A morte, agora, espreitando seus sonhos; 
E ele, tão prolífico em ciência, só responde com ódio, medo e desespero…

Ronda os silêncios de sua habitação, 
Como fantasmagoria, a pergunta: 
O que fez até aqui?

Mas não há resposta.

Luta para agarrar-se ao concebido como realidade, 
Mas o pensamento o traga em uma onda invencível para o caos de dentro.

O personagem vive em suspenso.

O que sobra?
Como ser?
O que é ser?
Ser para quê?
É possível não ser?

Narciso descobre hoje um mundo novo para além do espelho.
Tudo era imagem.
Imagem de si. 
Suposto. 
Suposto de si. 

A realidade era um eu torto.

Por um instante, dirige o olhar à ninfa que o chama,
Mas não sabe amá-la.

Narciso olha ao redor, 
Mas não sabe reconhecer o que vê. 
O impossível.
O inominável.

A angústia.

Olha para si, não mais no espelho, 
Mas a partir de si. 
De que és feito, Narciso? 
De que prazer e medo partiram teus anseios?
 Qual foi a estrada do teu caminho?

Não há como retroceder.
Aquel’outra realidade era delírio. 
Ilusão.

Este nada que hoje és tu, 
É a matéria disponível para seguir. 
Esse oco que hoje é a alma, 
É o único lugar que te sobrou por casa.

A palavra está contigo, Narciso! 
O significado também é teu.
E o mundo é feito daquilo que não disseste.
 
Tua fala é do, até hoje, não dito.
Não serve o idioma de antes.
Não há quem ouça.
Como farás para te pores de acordo contigo?

Quem és tu, Narciso?

21.07.2020

O que sobra…

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*Foto: Maurício da Rosa Ávila/Colônia, Uy. 2017

Passamos a vida nos havendo com sobras. Nossas sobras. Sobras de nós. Sobra-nós. Hoje somos o resto de ontem. Aquilo não consumido por este implacável Sempre do Agora. Osso sobrado das carnes dos segundos. Isto que deu ao ontem boa parte de si, e já não sabe o que fazer com resto. É o que somos. Nós em nossa mais absurda realidade.

Estarrecedor. Estarrecido, pergunto: O que sobra depois do ódio comido com fome? O que sobra depois de todas as hipocrisias mentidas para si mesmo? O que sobra para consciência depois dos crimes todos? O que sobra de todas as teimosias ao pé de portas fechadas por dentro? O que sobra depois de todas as desistências de planos supostos? O que sobra das fantasias ? O que sobra dos sucessos vencidos? Dos títulos pendurados em paredes de casas vazias? Dos inimigos derrotados com cinismo? O que sobra dos gozos da esperteza? O que sobra de crer com muita fé, para descrer com mais força? O que sobra dos moralismos das religiões não-Deus inventadas? O que sobra dos gritos, das discussões? O que sobra depois do bater de braços do afogado? O que sobra do amargo das poucas vitórias e do corriqueiro das derrotas; derrotas-gente-de-casa?

O que sobra de tentar, tentar e tentar? O sonho sonhado é um, posto em prática é já outro, e gozado é péssimo. O que sobra dele? Coisa deselegante e vil isto de colocar sonhos em prática…

O que sobra depois de todos os cansaços cansados, senão um cansaço metafísico. Um espaldar na cadeira da alma, e um suspirar de alívio de nada. Um estirar de músculos nas carnes do ser, e um dar de ombros às obrigações expectantes de nós, que as esquecemos.

O que sobra depois de tudo?

Tento provar, neste lugar, e desde este lugar, que sobra o inusitado. Sobra aquilo feito de linguagem, investido aqui de palavras: sonho íntegro em seu caráter de sonho, por ser contado, apenas; e nunca posto em prática.

Sobra o inesperado. Sobra o buscado e nunca encontrado, porque não se encontrava buscando. Compassivo expectador dessa busca, assistia-nos em nossa carreira, que era inútil, esperando uma fenda por onde mostrar o rosto, mas não dava. Não dávamos.

Eu, de mim, e por mim, estou convicto: o amor é o que sobra depois de tudo.

Bem vindos!