Tenho para mim que o amor, o amor mesmo em sua coisa real, é aquilo que não tem nome.
Chama incontida ardendo muda nos corações distraídos.
Passa rente a portas escancaradas e não adentra.
Chega em horas inusitadas sem ser convidado, rompendo correntes e cadeados que protegiam as almas herméticas.
O amor é calmo. Quando ouvido, pisa leve para não assustar os pombos.
É despeitado, insolente e altivo quando dele não fazem caso. Aí é barulhento, desordeiro, rasga a mobília, joga as roupas na rua, queima as fotos antigas.
Amado, o amor é um gato. Enrosca-se nas pernas do dono com a cauda em riste e ronrona sua súplica de afago.
O amor, quando esperado, chega em casa às seis da tarde, encostando lento a porta, largando as chaves sobre a mesa com seus tilintins de metal, procurando uma boca ávida para beijar a saudade.
E quando não chega, se devia, angustia. As luzes da casa não se acendem para a noite que avança. O peito arde em triste esperança, delira passos na calçada, demora-se no sofá conferindo o telefone. Ofega…
O amor vem, o amor vai, espera, tudo suporta e não aguenta.
O amor ama e odeia o olhar que o tomou pela mão e não o solta, e ainda assim quer, não quer…
O amor tomou em suas garras as mãos, o rosto e a pele de algum abandono. Não deixou que ele partisse sem cicatrizes.
O amor não tem nome e tem todos que quiser. O amor sabe exatamente como amar e não escolhe ninguém. O amor não escolhe: brota
e não há mão que o colha que não guarde nela a marca de seus espinhos e o perfume de suas pétalas.