Ao Reinado da Escócia

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Dezembro, 2020.
Que pensar dessas almas de hoje,
Coitadas, nunca cravaram espinho no pé.
Seres esbranquiçados pelo calcário moderno
Verdejam competências 
Para a importância das coisas inúteis.

Posso eu esperar o que
Desses meninos de olheiras pretas?
Piedade destes que não conhecem o sentido
De uma bola velha murcha, alguns amigos e a rua.
Eles não sabem sujar a roupa...

Pranto compassivo por estas crianças
Guardadas nas gavetas devidas;
Estorvos de um tempo
Em que a imaginação é inútil;
Bonecos velhos de pano
Guardados em baús – só que de pedra.

Quem valerá por essas almas infantes
E tomará para elas a alforria
Destes homens sisudos que lhes dão compromissos
Quando deveriam lhes dar goiabas?

Querem, meu Deus, que seus filhos tenham sucesso...
Ah, o sucesso para uma criança...
Um chapéu de jornal velho e uma espada de pau;
Isto tudo e um quintal de quinquilharias bastam
Para que, em uma tarde,
Conquiste-se o reinado da Escócia,
A tempo ainda de tomar banho e jantar.

O melhor da classe?
Adultos doentes sempre estão às voltas com isso,
E por que não podem, forçam os filhos a podê-lo.

Deixemos em paz nossos pequenos.
Que a imaginação de criança
É a experiência mais próxima
Que, nesta vida, teremos de Deus.

2 comentários em “Ao Reinado da Escócia

  1. É o sentimento de valor pela simplicidade que nos formou. Onde ser feliz era estar ali, brincando com bolinho de barro, de pé no chão. Era bom mesmo.

    Curtir

Deixar mensagem para Maria Cláudia Cancelar resposta