Que poderia dizer do frio que minhas carnes não saibam...
Mas não é a elas que falo, senão à alma que tenho.
O inverno traz outro gosto à cevadura das horas,
E os instantes aguardam estios às janelas das casas.
Em me recolhendo tanto chego a estar no espírito.
Olho de mim para o cenho franzido do dia
- O tempo parece mais taciturno.
Sol tímido espia tardes frias
Por entre o peso argênteo do céu invernal.
Luzes por dentro das casas vistas da rua
Dormem ao vento gelado que cala a vida.
Todos cultivam em sonos
Esperanças de manhãs mais trigueiras.
Translucidez negra desenha a abóboda de um céu
Que ao inverno deu em estrelado.
Lua minguante profusa em claridades mais tímidas
Traz do absoluto mais infinito
Para o sentido de infinito que já há na paisagem.
Horas mais eternas.
Harmonias azuis distribuem cantigas insuspeitas,
Ressoando o arpejo frondoso que há nas copas
Das árvores mais altas pintadas de manhã.
Saudades mais queridas falam ao peito
De verdades a tanto esperadas.
Ansiedades morrem ao toque dessas coisas
Cessando procuras que eram fermento de ilusão.
O ser percebe a Verdade no belo que vê.
E sentindo-se, então, parte também do concerto,
Sabe-se elemento essencial de verdade.
- Intimidade mais estreita no coração com aquilo que é Deus.
Lastimo meu filho, coitado, Ele não é bilíngue. Anda, corre, fala, Mexe no que não deve, Mas, coitado, Ele não é bilíngue.
Que língua falas, meu filho? O que significam teus choros? Pedes o que com essa birra? Aquele risco na parede. O brinquedo arremessado. O que me dizes com tudo isso, meu filho?
Não sabes falar, Ou eu não sei te escutar? Ah, se fosses bilíngue, Tudo então estaria resolvido; Mas não falas como costumo entender.
Eu já sou bilíngue. Já tenho meus diplomas. Um dia serás bilíngue, meu filho. Então, saberemos conversar.
Tens esse mau hábito Das crianças muito pequenas De não falar por palavras. Acabo por não te saber, meu filho, Nem me fazer ouvir.
Resolveremos isso! Em breve serás bilíngue.
Terás duas professoras. Melhor, quatro ou cinco! Aprenderás piano, violino, sax. Aulas de natação à tarde, E muitos amigos tentando Também ser bilíngues Para falar com seus pais.
Logo, meu filho, Não terás tempo para perceber Que não há tempo para nós.
É preciso que saibas Que o tempo é curto, E há muitas coisas por fazer Antes que venha a morte.
Precisamos, rápido, Eu e tu sermos bilíngues!
Dará um certo trabalho. Mas, ao fim, ambos bilíngues, Por fim nos saberemos.
Não percebes, meu filho, Meus graves compromissos. Um dia te-los-á também. E lembrarás de teu velho pai Sem tempo para andar descalço, Ou tomar banho de chuva.
Por ora, não nos entendemos. Porém, quando fores bilíngue, Toda a verdade entre nós Será esclarecida.
Tem paciência, meu filho! Como é difícil… Não sei porque não escutas Quando te peço silêncio, Ou que não sujes a roupa.
Abres a porta do escritório Enquanto analiso gráficos...
Como é difícil te explicar… Espera, meu filho, pai já vai! Estou quase terminando. Agora não, pai está trabalhando. Depois, meu filho, estou falando Com um cliente importante.
Mas não me escutas… Como é difícil… Resolveremos a questão. Buscarei para você Uma escola bilíngue!
Só então, meu filho, Falaremos a mesma língua!
Quebraste a tela do meu computador, meu filho! Meu filho, por que o celular está no aquário?! É, bem, isto já chegou no limite. Farás aulas de alemão pela manhã. À tarde, aulas de inglês.
Quando chegares, então, Aos quatro anos de idade, Faremos um perfil no lattes, Meu filho, acho que isso Também te inquieta, não?
Pois bem, hoje mesmo Comprarei uma agenda, Daquelas bem grandes, Onde caibam bastantes coisas Durante todos os dias.
É imperioso, meu filho, Não haver nenhum tempo, De modo a não sentir Que não sabemos nos entender.