Fico vagando pelo resto de tarde. Jeito manso de noite clara Nas maneiras do sol partindo. Uma copla bem floreada para a nova Que um grilo longe vai brandindo.
Nessas noites leves de setembro, Recém-nascidas no calendário do ano, Há um cheiro doce pela brisa. Qualquer coisa de primavera afaga O rosto grave de um inverno morto.
Viço nas folhagens e nas gentes.
Brotam perfumes e carícias No desdobrar dos botões de flores;
Chegam instantes lentos Nos dias que desconhecem pressa.
Já não fico onde me vejo. Perde-se o espírito, velho andejo, Por paisagens que sei ou adivinho. Não paro nas malhas do tempo Se o belo me fala de eternidades.
Que poderia dizer do frio que minhas carnes não saibam...
Mas não é a elas que falo, senão à alma que tenho.
O inverno traz outro gosto à cevadura das horas,
E os instantes aguardam estios às janelas das casas.
Em me recolhendo tanto chego a estar no espírito.
Olho de mim para o cenho franzido do dia
- O tempo parece mais taciturno.
Sol tímido espia tardes frias
Por entre o peso argênteo do céu invernal.
Luzes por dentro das casas vistas da rua
Dormem ao vento gelado que cala a vida.
Todos cultivam em sonos
Esperanças de manhãs mais trigueiras.
Translucidez negra desenha a abóboda de um céu
Que ao inverno deu em estrelado.
Lua minguante profusa em claridades mais tímidas
Traz do absoluto mais infinito
Para o sentido de infinito que já há na paisagem.
Horas mais eternas.
Harmonias azuis distribuem cantigas insuspeitas,
Ressoando o arpejo frondoso que há nas copas
Das árvores mais altas pintadas de manhã.
Saudades mais queridas falam ao peito
De verdades a tanto esperadas.
Ansiedades morrem ao toque dessas coisas
Cessando procuras que eram fermento de ilusão.
O ser percebe a Verdade no belo que vê.
E sentindo-se, então, parte também do concerto,
Sabe-se elemento essencial de verdade.
- Intimidade mais estreita no coração com aquilo que é Deus.
Lua espalhando claridades
Pelos remansos da noite.
Estrelas.
Não há vento
E o escuro é infinito.
Dessa vida sinto apenas o jasmim:
Cheiro lilás em doçuras delicadas.
Passeio distraído pela rua.
Deus vê a mim sem que eu o perceba.
Intuo sua presença nas coisas
E sou pleno.
Pequena brisa toca de leve os cinamomos
E leva do meu peito todas as culpas.
Lavadeiras atentas derramam baldes nas calçadas do meu ser.
Lavam de escovas as lajes de mim – água fresca sobre a alma limpa.
Não preciso ou devo, nem quero ou tenho.
Apenas sou como vida e isso me basta.
Nesse instante, a noite transpassa-me o ser
E não sinto meu corpo.
A casa, o cinamomo da frente,
As pequenas pedras da rua, as estrelas,
O jasmim e os odores,
Tudo isso que compõe o enredo de minha calma de agora
Desaparece da vista como coisa de pegar.
Abraço, enfim, Deus
Como quem abraça o pai.
- Paz daquelas de voltar para casa -
Meu vizinho sai à frente ter também com a noite
E me acena.
Largo-lhe um sorriso em despedida.
Volto
E tranco a porta.
Imagino sonhos.
Meu sono não é de dormir.