Um breve ensaio para pessoas normais

Por que a angústia que acomete o comportamento humano, em todas as épocas, e ainda mais nesta em que vivemos, em querer ser normal? Em querer parecer adequado e justo para o meio? Em pensar igual, viver igual? Seria uma busca pela aceitação do outro talvez? Bem provável. E o critério que dita o que é normal ou anormal seria essa aceitação do outro, então? O normal seria a opinião do outro sobre mim? Quantas opiniões sobre mim fazem um normal? Só a dos médicos conta? Por quantas? A opinião do saber médico sobre os comportamentos humanos substitui a opinião dos outros leigos sobre a conduta de um homem em termos de ajustamento? Questões…

É interessante observarmos a forma como as pessoas, em suas vidas privadas, demandam um ideal de normalidade para serem aceitas pelo maior grupo possível de pessoas. Um ideal que, invariavelmente, buscam no olhar do outro. Porque, para quem idealiza uma normalidade, ela sempre está localizada no olhar do outro.

Acontece que esse outro, em si, não existe. Ele é, tão somente, suposto. Ele é composto, na verdade, de vários outrinhos, cada um com a sua ideia do que seria essa normalidade. E para atender às demandas desse suposto outro, são feitas diversas pequenas concessões a esses vários outrinhos que passam pelo nosso caminho, de modo a atingirmos o ideal de normalidade projetado por nós.

Dessa forma, um gosto pessoal apontado como esquisito por um determinado grupo de indivíduos, embora importante para nós, é deixado de lado para sermos melhor aceitos. Homens não praticam pilates, beach tênis, porque desmasculiniza o sujeito. Mulheres socorrem-se de intervenções estéticas de variada ordem, para que seu corpo esteja conforme a economia dos olhares. Não frequentamos mais uma religião, por exemplo, pois o nosso grupo de amigos não encara bem essa prática. Ou passamos a frequentar uma apenas porque todos frequentam. Escondemos as tatuagens, pois elas falam muitas coisas mal vistas pelas pessoas do nosso meio. O cabelo que usamos é mal falado entre os da escola. Nosso gerente não autoriza determinado tipo de roupa ou acessório no corpo.

No entanto, meu cabelo, minha tatuagem, meu acessório, minha religião, minha filosofia, falam de algo que é só meu e de mais ninguém. Fala de coisas que marcam minha passagem pela vida de uma maneira única. Só que, como o pessoal zoa muito disso, então, preciso esconder ou me desfazer dessas marcas que me diferenciam do grupo para ser melhor aceito - essas coisas, que já existiam entre os animais, e que nossa moralidade aprendeu a usar de forma habilmente perversa.

O cara dito esquisitinho que não gosta de jogar futebol, não acompanha o campeonato brasileiro, e só fala de RPG. Os garotos que não gostam de meninas. As meninas que não gostam de garotos. Os do cabelo muito comprido. Os do cabelo muito curto. A criança que aprende lentamente. A outra que não aprende. A que aprende rápido. O que não para sentado. O que levanta quando não deve. O que não fala quando deve. O que fala quando não deve. Aquele que fala. O que não fala. O que fala palavrão. O que fala palavrinha, etc. Não há escapatória. Todos vão fazendo concessões a esse olhar que nos demanda uma normalidade impraticável.

E nessa voracidade por normalização, silenciam-se bons talentos para as artes, perdem-se profissionais que seriam bons em uma área, mas optaram por outro caminho, porque assim os pais, os professores, o pastor, o guru, etc., disseram que era o melhor. Todos correndo atrás desse olhar de aprovação irreal que tem como única garantia final a fragmentação de personalidades que já estavam de posse de todas as ferramentas com as quais poderiam construir suas subjetividades a partir de suas próprias peculiaridades.

Hoje está proibido deixar uma marca no mundo.

É claro que algumas concessões sempre fazemos a esse olhar-outro, inevitavelmente. Isso é da constituição humana. Construímo-nos a partir do outro. Mas é bom lembrar que isso ocorre a partir do outro, e não exclusivamente pelo olhar do outro. Quando a opinião que outrem tem a nosso respeito passa a constituir o ideal de nossas vidas, isso sim se faz problemático. Perdemo-nos dos nossos orientadores pessoais.

Que se performe - para quem vive em uma sociedade da performance -, trata-se de estar no jogo. Não é essa a questão. A questão é: que se performe aquilo que nos orienta em termos de subjetividade e pertencimento. Nesse sentido, não seria legítimo questionar se o que performamos pertence a nós ou pertence somente ao lugar em que estamos tentando nos inserir? Qual o custo de abrir mão de um pensamento, hábito ou mania para pertencer a um determinado lugar? Vale o custo - subjetivo - de abrir mão do que é mais nosso para pertencer? É justo ter de abrir mão daquilo que faz a diferença em nós em nome de um ideal social que se mostra, em diversas oportunidades, extremamente questionável e problemático?

Essa é a nossa conta diária, e ela não tem fechado. Corremos atrás de um ideal de normalidade na ordinariedade de nossas vidas diárias, exigimos a mesma normalidade dos filhos, parceiros e conviventes mais próximos, e, ao mesmo tempo, admiramos a intrepidez pública daqueles que se destacam pela diferença. No silêncio de nossas alcovas digitais - que ninguém nos ouça - aplaudimos os que tiveram coragem de assumir o custo social de suas próprias diferenças.

Ou seja, vivemos uma vida inteira correndo atrás de aprovação e, no silêncio dos dedos correndo o feed, admiramos aqueles que se destacaram a partir do que neles fez a diferença.

Interessante isso…

Na vida ordinária de relação, nessa comensalidade nossa de bons burgueses, medicamos, diagnosticamos, laudamos, condenamos, absolvemos, educamos, pedagogizamos, enquadramos a diferença que aparece nos humanos ao nosso redor para que ela esteja sempre dentro da normalidade. Para que ela seja segura para todos. Cuidamos para que nenhuma diferença apareça para causar transtorno em nosso caro ideal de normalidade, construído à custa de muitas concessões pessoais, algumas delas perdas muito caras a nós. Para tanto, não nos enganemos, nossos ressentimentos trabalham sempre em alerta.

Não sabemos mais conviver com a diferença. Fomos acometidos socialmente da pior doença de todas: a normalidade. Só sabemos nos dirigir à diferença através das pérfidas palavras adocicadas pelos matizes da cientificidade e da pedagogia.

Somos belos covardes, isso sim, cuidando para que ninguém ao nosso redor se meta a besta de querer ser diferente de nós, os ditos normais.

Normal

“Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me

Quando quis tirar a máscara, 

Estava pegada à cara” *

*Tabacaria. Álvaro de Campos.
Letargo
Onde a dor já não doía
E o medo era triste.

O sangue,
Vazio de calor,
Corria por correr.

Beijos
Eram protocolares.

E os abraços
Não havia abraços…

O corpo
Uma fisiologia austera.
E o dono,
Um morador louco
Com pretensões de ser a casa.

Para onde foi o teatro?
O que foi feito da plateia?
Pergunto eu,
Já perplexo,
Com a máscara na mão...

Eu,
Para quem as horas escoavam
Por entre os dedos
Das mãos aflitas,
Ouço agora o relógio correr.

E cada sua batida
Escorre pelos ponteiros
O sem sentido das eras.

Viver é para sempre.

O que há
É que não suportamos.

Antes faltava tempo.
Agora nos sobra vida.

Ocorre que com o tempo,
Não há outra coisa,
Senão gastá-lo.

Com a vida,
Não há jeito,
Só vivendo.

O tempo é ânsia.

A vida sonho.
Rubor da face.
Calor do sangue.
Paixão do beijo.
Aperto do abraço.

O tempo, tão somente, urge.

A vida é medo.
Confusão.
Frio na espinha
À beira do precipício.
Incerteza e dor.

O tempo, um cigarro
Aceso ao final do outro.

Onde pus a máscara?
Coloco-a, mas a plateia não vem…

Medo da alma.

Fico eu aqui
Ridículo e só.
Herói bobo
De um pastiche
Esperando que um dia
A vida volte ao normal.

29.05.2020