Prainha

Foto: Praia de Itapeva, Torres/RS. Maurício da Rosa Ávila. Janeiro de 2022.
Vemos Deus com a cor de nossos olhos,
Mas ele é outro.

Há os que o buscam em templos.
Os que seguem liturgias.
Os que reviram livros sagrados.
Há também os que descreem.

Eu
Cato conchas na praia com meus filhos
E sei o infinito.
Pego a eternidade na mão
Por um breve tempo
E fico a admirar
O acaso bonito e inesperado
Das cores e formas.

Deus me espia
Por entre os buracos das pedras
Arisco como os caranguejos.
Voa, de repente, com as gaivotas
Quando uma ânsia de liberdade
Não cabe mais no chão.

Atira-se com a força das marés
Contra as falésias antigas
Cobrindo meu rosto de brisa salgada.
E deita suspiros mansos
Nas maretas que me cobrem os pés
De sossego e sal.

Volta para casa com os pescadores
Que dançam cansaços
Em barcos humildes
Vistos da margem.

- Vamos embora, papai?
- Vamos, filho.

Deus me acena com as ondas
E se joga do poente
Com o sol.

Fica para trás um cheiro de mar.
Fica também o sono meu e de meus filhos
Cheios de sonhos de criança;
Daqueles que se contam pela manhã ao acordar.

Há os que creem
E os que descreem.
Eu cato conchas com meus filhos na praia
E sei o infinito.

Eu acho…

Sinto saudade de um tempo
Em que o vento parecia ser a alma da gente.

Não...

Na verdade, não era bem a alma da gente.
Eu acho...

Atravessava ele
As minhas transparências.

Fazia pequenos redemoinhos em meu peito,
Espalhando os ciscos de mim,
E fugia para os arvoredos comigo.

Brincávamos entre os passarinhos.
Escondíamo-nos do sol entre as nuvens.
Chovíamos garoas,
Esparramando-as pelas tardes.

Revoávamos o poente de vermelho.

E, em seguida,
À noite,
Íamos juntos embora
Pelas estradas de lua.

23.04.2021

À flor d’água

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Tapes/RS, Janeiro, 2021
O peixe belisca a flor da água.
A garça o espia do galho.
O peixe sabe da garça
E a garça sabe voar.

Só eles.
Vento.

O peixe volta ao fundo.
Desliza a garça no ar.

Pouso elegante na margem.
Há silêncio em seu andar.
A garça sabe do peixe
O peixe não sabe do mar.

Segue um andar cuidadoso
Até o rio alcançar.
O peixe volta à flor d'água:
Garça não sabe nadar.

É um anseio antiquíssimo,
De um outro mundo alcançar.
Que traz o peixe de volta
E a garça, calma, esperar.

Ela já está dentro d'água
E o peixe a se insinuar.
Não sabe ele, coitado,
Que céu de peixe é mar.

Volta, então, ansioso,
A flor d'água beliscar.
Fome de garça é peixe,
Que sai com ele a voar.

Fazia troça, o peixe:
Garça não sabe nadar!
E ela, em sua espera,
Do outro escondia o voar.

Fazemos troça da vida,
Sonhando um além encontrar.
Distraímos que, como a garça,
Sabe a morte também voar.

15.01.2020