Saudade

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Herval/RS. julho/2016.
Saudade...
Sombra na madrugada.

Rendas e sedas claras
Perfilam a geada
Sobre o espelho do açude.

Quero-quero entanguido
Nem alerta o movimento
Dos que vem a cavalo.

Ponchos grandes vestindo auroras
Sobre os ombros
Dos que acordam antes do sol.

Pasto branco.

Uma sede de caminho
Bebida no bojo da cuia.

Cambona perto do fogo.

Frio trazendo infinito
Para dentro do galpão.
Estrelas que invadem os olhos
E vêm se aninhar na alma da gente.

Se eu pudesse,
Seria mesmo horizonte;
Seria sempre distância.

Noite.
Lua nova guardada
No embornal do universo.

Silêncio
Em que só o fogo é que estala.
Mistério
Onde só meu coração é quem bate.

Sensorium III

Que poderia dizer do frio que minhas carnes não saibam...

Mas não é a elas que falo, senão à alma que tenho.
O inverno traz outro gosto à cevadura das horas,
E os instantes aguardam estios às janelas das casas.

Em me recolhendo tanto chego a estar no espírito.
Olho de mim para o cenho franzido do dia
- O tempo parece mais taciturno.
Sol tímido espia tardes frias
Por entre o peso argênteo do céu invernal.

Luzes por dentro das casas vistas da rua
Dormem ao vento gelado que cala a vida.
Todos cultivam em sonos
Esperanças de manhãs mais trigueiras.

Translucidez negra desenha a abóboda de um céu
Que ao inverno deu em estrelado.
Lua minguante profusa em claridades mais tímidas
Traz do absoluto mais infinito
Para o sentido de infinito que já há na paisagem.

Horas mais eternas.

Harmonias azuis distribuem cantigas insuspeitas,
Ressoando o arpejo frondoso que há nas copas
Das árvores mais altas pintadas de manhã.

Saudades mais queridas falam ao peito
De verdades a tanto esperadas.
Ansiedades morrem ao toque dessas coisas
Cessando procuras que eram fermento de ilusão.

O ser percebe a Verdade no belo que vê.
E sentindo-se, então, parte também do concerto,
Sabe-se elemento essencial de verdade.

- Intimidade mais estreita no coração com aquilo que é Deus.

Pampeiro

Pampeiro... Velho fantasma gelado…

Assombras de pesadas solidões 
Os invernos da campanha.

Tens o entono aragano
Dos índios nossos
Ancestrais americanos.

Dizem, não sei,
foi um boleador,
Desses de terras paisanas,
Que num tropel de disparada insana
Ergueu teu sopro bravio
No encalço das alçadas.

Ou, quem sabe, há quem conte,
Vieste da escarpa andina
Assoviando... Desgarrado... Gemendo...
Fugindo pela planura
Do agito da envergadura
Das asas de algum condor.

Chibeiro de alheias memórias…

Tens o nada do deserto nos vazios.
Aroma de patagônia em teu gelo,
E o agouro do abandono em assobios.

Vento de dias metálicos
Que há pelos frios de julho.
Milonga que o povo entoa
De tanto ouvir pelas noites
Os uivos que o pampa soa.

Não sei ao certo, pampeiro,
O rastro do teu caminho.

O certo é que és andarilho
Destas províncias platinas,
Trazendo o gosto amargo do inverno
À fria cor dessas coxilhas.


07.07.11