Um moço

Era costume do rapaz, em algumas tardes, caminhar até um outeiro próximo à humilde gleba de terras onde morava.

Ia a pé tranquilamente. Meneava a cabeça em respeitoso cumprimento aos pastores que passavam por ele com seus rebanhos de cabras na estrada empoeirada de Nazaré.

Gostava dos fins de tarde. Sorvia não sei que sabor misterioso dos arrebóis.

Era um moço discreto. Silencioso nas maneiras. Falava pouco. Talvez, por isso, quando falava, sua palavra vibrava com magnetismo especial, causando reverberações desconhecidas na alma de quem o ouvia.

Seu passo era curto. Sem pressa. Chegava-se à pedra onde tinha por hábito acomodar-se e ficava ali vendo o sol ir embora.

A roupa era humilde e encardida à moda dos camponeses de sua localidade. Sandálias em couro cru com algumas das tiras quase arrebentadas. Nas mãos, pequenos calos nas juntas nascidos do esforço repetitivo no manuseio das ferramentas de trabalho.

Olhos de menino ainda. Era como se houvesse por trás de seu rosto um garoto, embora fosse já um homem nos seus quase trinta anos.

O que pensava, é-nos impossível saber. O fato é que se entregava à contemplação com todo o seu espírito.

Chorava. E seu pranto não era de tristeza, nem de dor. Era um choro diferente. Brincava com as pedrinhas do chão. Lançava algumas ao longe para as ver rolarem ladeira abaixo.

Tirava os pés descalços. Sentia o odor da erva que a brisa dos fins de dia fazia passear pelo ar.

Nunca depositou o peso de sua dor em nenhum ouvido de amigo ou parente – não compreenderiam. Ainda que compreendessem, seria inútil. Antevia o seu destino. E sempre que o coração pesava, vinha ao outeiro chorar sua angústia.

Já no primeiro sopro gelado do vento da noite, olhava uma última vez para o rastro deixado pelo sol. Suspirava um alívio vindo do infinito. Calçava as sandálias e retornava para casa.

Seguia só, ouvindo os primeiros grilos. O canto agudo e solitário de uma coruja voando de um canto a outro da estrada, durante a passagem do rapaz, era como a saudação a um amigo querido.

Chegava à casa que era a sua batendo a poeira dos pés à porta. Antes de entrar, já havia conferido se os animais estavam bem fechados na encerra. Verificava, também, o ferrolho da porta da oficina. 

Em silêncio, beijava carinhosamente o rosto da mãe. Pedia a benção ao pai e sentava-se para cear.

Partia o pão ázimo, que pegava de uma humilde tigela posta no meio da mesa de madeira rude, e mergulhava-o no caldo pobre que o trabalho da família podia pagar. Sorria. Falavam sobre qualquer assunto sem muita importância.

Enfim, quando a gordura do lampião já havia queimado o suficiente, a luz era apagada, de modo que sobrasse combustível para a noite seguinte. Todos iam deitar.

Em uma esteira, ele depositava o corpo cansado. Orava uma prece pequena e sentida – era homem de fé. Mais duas lágrimas rolavam na face e caíam no tecido esbranquiçado onde deitava.

Adormecia sentindo no rosto o frio que transpassava as frestas das portas.

Com o que sonhava? Nunca saberemos.

O que se comentava, tempos depois, era sobre as flores desconhecidas encontradas pelos pastores de cabras no cume de um outeiro ali perto nos arredores de Nazaré. Nunca se soube da existência de outras iguais naquela região.

De passagem, um dos pastores até comentou: 


Era costume, em dias incertos, ver por ali o Galileu aquele, crucificado alguns meses atrás, e que hoje afirmam ser o Cristo Jesus.

A-Nota

Virei número. Nesta semana, fui agraciado com a maior honraria que pode alcançar um sujeito pós-moderno: virei número. Não um número qualquer: uma nota. Não uma nota qualquer: a pior.

Não são todos que têm o privilégio de ver as circunstancialidades da sua existência, os minutos de cansaço, os mal-estares, as pequenas vitórias do dia-a-dia, as conquistas anônimas, as insônias, as preocupações, os desafios emocionais condensados em quatro abstrações que a humanidade convencionou chamar de número.

Como dizia, não são todos que têm esse privilégio. Apenas um sujeito pós-moderno como eu o tem.

A nota não é imerecida, entendam-me bem. Não é disso que se trata. Foi muito justa. Segundo o referencial proposto, foi justa. É outra coisa. É o impacto trazido pelo resumo de uma vida em fragmentos decimais, a síntese levianamente pragmática de um percurso dada em um número real, inescapavelmente real, injustificadamente real; é tudo isso que, em mim, não deixa de trazer um desconforto de alma.

Os enleios do novelo da vida resolvidos no traço de uma reta real: encontro impossível.

O número, como coisa dada, não se discute. Paradoxo de uma coisa que se faz indizível, porque sua existência em si já diz o que há para dizer de si mesma.

O número é surdo para o que falam dele.

Virei número. E não importa o que eu diga. Hoje eu sou ele. Amanhã, não sei. Hoje, no entanto, sou ele. Para um outro, sou ele.

Em certa medida, os números são, para o homem, uma tentativa desesperada de segurança. Promessa de ordem. Dias de paz. Se as coisas saem do controle, se algo escapa, se as sobras de nossos atos começam a compor um estranho, que com o tempo começa a ganhar vida e a nos ameaçar como um “outro-intruso”, é nessas horas que o número aparece para dourar a pílula.

Simplificação do não-saber.

E esse, que aí está a me olhar como um número, não é honesto. O número limita-se ao próprio ser de si. Aquele que olha o número, no entanto, põe dentro dele os significados que lhe aprazem, em desacordo com a lógica própria do número. Enche de conteúdo uma coisa que existe em si pelo fato de não comportar conteúdo de significado: desonestidade.

Esse olhar estrangeiro preenche o “número-eu” de ideias suas, não minhas. Aquilo posto no número é seu, não meu. Não é nem do número. 

Talvez eu cause estranheza a esse que olha. Talvez a minha existência (sem número) seja para ele incontrolável, inclassificável, inconcebível: a sombra de um estranho começando a tomar forma, e que ele mantém distante fazendo de mim um número.

Como número, estou sob controle. Em número, estou concebido. Do número, não me escapo.

No número, sou qualquer outra coisa para um outro, menos eu.

Cinamomos

Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021
Eu compreendo os cinamomos:
Colunas hirtas de um império que não houve
Pendendo copadas sombras sobre casas velhas de musgo.

É quando a brisa quente do tempo
Espalha o gosto verde pelos cheiros das sestas,
Quando as pequenas flores brancas
Enleiam-se nos cachos das meninas de trança
E as surpresas estão todas de chinelos,
Que os machados sangram sua inveja
Pela quentura dos fios.

Atrapalham o progresso dos concretos
Suas grandes raízes com firmezas que nem os homens temos.

Eles morrem sem chorar.
Gemem sem sangrar.
Não honram os metais com nenhuma gota de seiva.

Seguem mudos.

Ossatura pendurada
De alguém insepulto.

Deixa eles, cinamomo!
Não sabem da primavera…

Teus brotos pequenos
Vingando verdes das amputações violentas
Dirão aos que estavam certos da tua morte:
Vassalos do útil, vocês não podem arrancar a vida!

Quantas vezes te mataram, cinamomo?
Quantas vezes morri também?
Os olhos dos verdugos são de gelo
Como a ausência da Justiça....

Mas os sabres de fogo do tempo
Logo ceifarão os cínicos da hora.
Em breve, cinamomo, nossa copa solene
Estará pronta para a simplicidade dos ninhos,
Para o carinho dos ventos
E para o sono dos ébrios...

Verão

Foto: Paula Steil Machado. Tapes/RS. Brasil. Janeiro, 2021.
Havia no sol, ontem, uma insistência nova
Na maneira de aquecer dos raios.
Prenúncio de outra estação
No movimento das harmonias.
E um sabor de mil verões,
Que o gosto das memórias traz à alma.

Enrubescem-se as vontades,
Com sangue novo que verte
Dos instintos despertos.
As paixões têm mais sentido,
O sentido mais essência.
Mais vigor, cada alvorada.

Noites vagam incautas
Pelas ruelas das vilas
Deixando o rastro, descuidadas,
Destas brisas pequeninas,
Que vez em quando, travessas,
Perdem-se nalguma folhagem.

Retine a prata da lua cheia
Em cada pupila que sonha
Novos dias siderais escondidos
Sob o escuro manto
Das distâncias do infinito.

04.11.2011
Destaque

O que sobra…

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*Foto: Maurício da Rosa Ávila/Colônia, Uy. 2017

Passamos a vida nos havendo com sobras. Nossas sobras. Sobras de nós. Sobra-nós. Hoje somos o resto de ontem. Aquilo não consumido por este implacável Sempre do Agora. Osso sobrado das carnes dos segundos. Isto que deu ao ontem boa parte de si, e já não sabe o que fazer com resto. É o que somos. Nós em nossa mais absurda realidade.

Estarrecedor. Estarrecido, pergunto: O que sobra depois do ódio comido com fome? O que sobra depois de todas as hipocrisias mentidas para si mesmo? O que sobra para consciência depois dos crimes todos? O que sobra de todas as teimosias ao pé de portas fechadas por dentro? O que sobra depois de todas as desistências de planos supostos? O que sobra das fantasias ? O que sobra dos sucessos vencidos? Dos títulos pendurados em paredes de casas vazias? Dos inimigos derrotados com cinismo? O que sobra dos gozos da esperteza? O que sobra de crer com muita fé, para descrer com mais força? O que sobra dos moralismos das religiões não-Deus inventadas? O que sobra dos gritos, das discussões? O que sobra depois do bater de braços do afogado? O que sobra do amargo das poucas vitórias e do corriqueiro das derrotas; derrotas-gente-de-casa?

O que sobra de tentar, tentar e tentar? O sonho sonhado é um, posto em prática é já outro, e gozado é péssimo. O que sobra dele? Coisa deselegante e vil isto de colocar sonhos em prática…

O que sobra depois de todos os cansaços cansados, senão um cansaço metafísico. Um espaldar na cadeira da alma, e um suspirar de alívio de nada. Um estirar de músculos nas carnes do ser, e um dar de ombros às obrigações expectantes de nós, que as esquecemos.

O que sobra depois de tudo?

Tento provar, neste lugar, e desde este lugar, que sobra o inusitado. Sobra aquilo feito de linguagem, investido aqui de palavras: sonho íntegro em seu caráter de sonho, por ser contado, apenas; e nunca posto em prática.

Sobra o inesperado. Sobra o buscado e nunca encontrado, porque não se encontrava buscando. Compassivo expectador dessa busca, assistia-nos em nossa carreira, que era inútil, esperando uma fenda por onde mostrar o rosto, mas não dava. Não dávamos.

Eu, de mim, e por mim, estou convicto: o amor é o que sobra depois de tudo.

Bem vindos!