Pequena elegia aos inibidores seletivos de recaptação de serotonina

Onde larguei a serotonina? 
Fui pegá-la de volta
E não estava mais lá.

Em verdade, nem mesmo sei
Porque a deixava ir
Para ter de buscá-la novamente.

Por que não a retinha comigo
Desde sempre?

Enfim, de qualquer maneira,
Fomos postos como Sísifo,
Ao pé da montanha,
Tendo de rolar a pedra
Eternamente.

Houve um momento, porém,
Em que alguém ficou triste com isso.
Triste, de não haver remédio.
E um outro sabichão bradou:
- Este recapturou seratonina demais.
Quem ceifa onde não semeou
Paga em dobro a conta! - sentenciou.

Inventaram, então, os inibidores
Para que não se colhesse felicidade
Em campos de prazeres inoportunos.

Interessante que o remédio deste tempo
Para os males da infelicidade
Seja um inibidor.

O que se inibe na inibição?
Sempre me ocorreu
Que a tristeza
Fosse a constatação captatória da falta.

Parece que não.
Ou é, e isso é o que se inibe na inibição.

De qualquer modo,
Ficamos melancólicos
Como o malabarista no sinal:
Jogando os malabares para cima
Impedidos de pegá-los na outra mão.

Inibidos da vida
Com a alegria baça dos produtivos.

Inventar-se pai*

Tapes/RS, 2020. Foto: Maurício da Rosa Ávila

Um pai é sempre depois. Não existe pai em tese. O pai é algo que habita o agora de um eterno presente. Função.

Talvez alguém se suponha pai pelo fato de ter participado da concepção de um ser humano. Porém, descobrirá em breve tempo que esse ente suposto nada vale para o olhar de um filho quando esvaziado das significações da presença. Presença subjetiva.

A velha autoridade bancada pela hereditariedade dos genes diluiu-se. O pai é demandado desde outro lugar. Nasce, desenvolve-se, cresce e ganha autonomia junto a seus pequenos. Há aí algo de uma simbiose em que a criança do pai retorna e impõe um real enfrentamento de suas questões a partir das demandas atualizadas pela criança que é o filho.

E é imperioso ao pai se haver com essa sua criança. Ela traz em si fantasias de onipotência e se não for contida em seu furor autoritário poderá impor à criança do filho castrações moralistas a título de educação. Uma criança onipotente (do pai) não ama, exige. Não escuta, grita. Não propõe, obriga. E não há nada tão trágico para o desejo de um filho que um pai ditador do destino. Para sua desgraça, o filho está condenado a ter alguém que sabe sempre o melhor caminho.

Com essa postura, a escuta está perdida. A comunicação entre ambos não encontra mais repertório para se haver com suas impossibilidades. Sobra apenas uma saída: a revolta. Uma criança ferida foi imposta a outra e a relação especular fez seu trabalho: agora são duas crianças feridas.

No entanto, é possível a busca de outras vias para se haver com o real da paternidade sem que se tenha de passar necessariamente pelas estruturas imaginárias herdadas da historiografia familiar, reproduzidas, muitas vezes, tão somente pelo gozo que há em reproduzi-las, sem qualquer questionamento. 

Cabe ao pai a busca de um repertório simbólico próprio que o ajude na construção de um discurso a respeito do filho, fundado o mais próximo possível do seu desejo de ser pai e do desejo do filho, atento sempre às respectivas articulações com o núcleo familiar. Nesse ponto, a palavra da mãe acerca do pai também é decisiva para a construção da proposta discursiva em relação ao filho.

A partir dessa visão pode-se dizer que ser pai é dar a mão a uma pessoa e trilhar com ela um rumo desconhecido. Não há garantias de chegada, nem de como será essa chegada. É um estado de presença e atenção para os leves movimentos do desimportante. 

E como é preciso desvestir-se das importâncias para estar apto à solenidade das crianças! Um olhar. Um gesto. Uma frase. Uma brincadeira. Crianças falam o mais importante pelas brincadeiras. Ali mora uma mensagem grave, cujas tintas da fantasia podem fazer com que a deixemos passar despercebida.

Paternidade é um movimento em que o gesto de um implica e supõe o gesto do outro. Tempo de duas vidas escoando pelos dedos das demoras. Demoras necessárias. Demoras já obsoletas, em outros momentos, pelas urgências do mundo.

A carne de um pai é feita de minutos. Minutos em que temos de deixar ruir construções imaginárias de um suposto eu próprio para participarmos, em boa medida, da vida pulsional e fragmentária da criança. Isso custa. Se não custa ao pai, custa ao filho. E cada um arca com o custo que é o seu.

Não proibir a birra, mas questionar de onde ela vem. Talvez seja proveitoso estar atento ao porquê de um determinado ato. Uma pergunta correta a um filho pode nos trazer uma resposta inesperada, embora resolutiva. Crianças são palavras que andam. Posto o valor na palavra dita e sustentando-se esse valor, a criança estará apta a se reconhecer como sujeito de suas próprias palavras.

Não há regras. Aliás, há só uma: estar implicado. Responsabilizar-se. O resto, somos livres para inventar. A paternidade não deixa de ser uma invenção nossa a partir do desejo próprio de pai. Se o tenho e o sustento, melhor para meu filho que aprenderá a ter e a sustentar o seu desejo.

Isso não ocorre sem erros. Escorregões. Atritos. Falhas. Faltas. A falta, no entanto, é o que nos constitui como pessoas. Pessoas vivas, porque desejantes. O problema é quando nada falta e estamos satisfeitos de tédio. A vida torna-se uma insuportável indolência. Pais que erram estão a caminho.

Triste é esconder-se na justificativa de ausências de regras, de inexistência de fórmulas, para não precisar inventar as próprias, bancá-las e viver de acordo com elas. Alguém as inventará e seguiremos regras alheias, de modo que nunca nos responsabilizaremos pelos encontros e desencontros da paternidade que é a nossa.

Infelizmente, a subjetividade do filho é que paga a conta mais alta pela desistência de um pai. Melhor inventá-lo enquanto há tempo.

*Texto dedicado a todos aqueles que fazem função paterna, inclusive aos pais biológicos.

Prainha

Foto: Praia de Itapeva, Torres/RS. Maurício da Rosa Ávila. Janeiro de 2022.
Vemos Deus com a cor de nossos olhos,
Mas ele é outro.

Há os que o buscam em templos.
Os que seguem liturgias.
Os que reviram livros sagrados.
Há também os que descreem.

Eu
Cato conchas na praia com meus filhos
E sei o infinito.
Pego a eternidade na mão
Por um breve tempo
E fico a admirar
O acaso bonito e inesperado
Das cores e formas.

Deus me espia
Por entre os buracos das pedras
Arisco como os caranguejos.
Voa, de repente, com as gaivotas
Quando uma ânsia de liberdade
Não cabe mais no chão.

Atira-se com a força das marés
Contra as falésias antigas
Cobrindo meu rosto de brisa salgada.
E deita suspiros mansos
Nas maretas que me cobrem os pés
De sossego e sal.

Volta para casa com os pescadores
Que dançam cansaços
Em barcos humildes
Vistos da margem.

- Vamos embora, papai?
- Vamos, filho.

Deus me acena com as ondas
E se joga do poente
Com o sol.

Fica para trás um cheiro de mar.
Fica também o sono meu e de meus filhos
Cheios de sonhos de criança;
Daqueles que se contam pela manhã ao acordar.

Há os que creem
E os que descreem.
Eu cato conchas com meus filhos na praia
E sei o infinito.

Gente da cidade

Porteira fechada. 
Vim ser homem da cidade.
Dobradiça de ferro antiga
Rangendo ao peso da saudade.

Cantiga triste de campo
Trazendo à memória
Retratos queridos
De gente que não vive mais.

Silêncios da campanha…

O silêncio do pampa
É um silêncio diverso.
Silêncio na voz do vento
Cantando no arame da trama.

Mamangava vigiando o buraco do oitão.

Silêncio alegre do alarido das caturritas
Pelas bergamoteiras carregadas de fruto.
Silêncio mais doce não há.

Silêncio da água nas pedras
Denunciando o rastro da sanga
Num fundo de mato.

Silêncio da pedra ancestral
Nas tardes de verão morno
Embalando as sestas dos lagartos.

Tapera antiga.
Madeirame curtido da intempérie.
Ganchos cobertos de ferrugem
Para arreios gastos de campeiros que se foram.

No pampa,
O silêncio fala
E o tempo é saudade.

Chapéu de aba larga
Com marcas de temporal.
Poncho baeta
Carregando o carnal por dentro.

Botas de lida
Com suor de mil potros.

Insistência da memória.
Aperos de meu avô.

Vim ser homem da cidade…

Espera!
Espera por mim saudade!
Leva o tempo por munício*.
Mandei avisar no rádio:
Chego 'inda pr'amanhã
Enforquilhado num verso!

26.04.2022




*Munício: s. Gado de corte que segue as forças para a alimentação dos soldados. Rês, quase sempre terneira ou novilha, que é incorporada à tropa de gado vacum para ser abatida, durante a viagem, para a alimentação dos tropeiros. Gênero alimentício que o tropeiro conduz consigo para as necessidades da viagem. (Minidicionário Guasca. Zeno Cardoso Nunes e Rui Cardoso Nunes. Martins Livreiro. 4ª edição).

Inebriâncias do vazio

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Segue trecho do livro:

(…)

“Extrodução

Isto deveria ser uma introdução. Não é. Não vejo sentido em introduções para livros de poemas. As palavras necessárias já estão todas por aí em algum lugar. As necessárias, as inconvenientes, atravessadas, mal colocadas, em desordem, de uma maneira ou de outra elas já estão todas aí.


Tentar explicar algo a mais com uma introdução seria até mesmo deselegante de minha parte. Uma concessão indevida a minha verve obsessiva. Porque até na obsessão deve haver uma ética. Um limite a partir do qual não se pode avançar, sob pena de se infringir o bom gosto e o valor da palavra. E a palavra nunca invade o vazio impunemente. O que ele não nos quer dar, o que nos furta do sentido, jamais será alcançado. Se insistirmos na busca, o valor da palavra é capturado. Ela própria é capturada pelo vazio. O vazio na palavra.


É preciso muito esforço para não dizer. Desbastar a gramática para poder visualizar os interstícios do dito: o suor do poeta. A palavra deve ser apenas um fio. Corda pendendo entre dois eus de que se vale o leitor para ir de mim até ele. Entrego-o ao seu vazio. Se não o faço é por inépcia minha. Se eu não o puser diante do seu próprio vazio em espelho, terei falhado em minha tarefa. Arrisco dizer, com sinceridade, apenas terei dito algumas coisas. Nada mais.


Este livro é de estranhamentos. Que o leitor torça o nariz, resista, faça pouco caso, desdenhe, aprecie, indique, não recomende, faça o que entender bem, desde que seja honesto de sua parte. De minha parte, espero apenas que entenda aquilo que não está dito. Possa, aqui, ver o escondido.


Não ofereço sentidos. Ofereço fragmentos. Fragmentos honestos cuja letra constitui a borda do meu vazio, que é nosso. Tenho o mau hábito das crianças: sofro de curiosidades pelos perigos. Arrisco olhadelas para o outro lado de mim.


Em parte, somos feios. Em boa parte, inaceitáveis. Inaceitáveis a nós mesmos, inclusive. Por isso, há sempre um custo em ser honesto. Para mim a angústia.


Teço de palavras meus absurdos. E não temo reconhecê-los. Uma boa parte das vezes, pelo menos. Digo ao meu vazio: esta é a linha. Daqui não passarás! Ao passo que ele me diz: a partir daqui, apenas olhe! É um justo acordo de cavalheiros, porque eu sei de sua tirania.


Sei também que, quanto mais palavras invento, na luta por lhe arrancar o sentido, mais palavras ele parece querer, e mais incógnito permanece. Interpelação esfíngica. Encantamento sombrio que me traz em licores inebriâncias do vazio.”


06.04.2021

Sobre Kepler, blocos de montar e o amor.

Talvez Deus seja excêntrico. Sendo Deus, é melhor que seja excêntrico. Soa mais romântico. Excêntrico, Ele fica mais perto de nós. Em certa medida, deve ter sido essa constatação que levou Kepler a abrir mão de sua concepção própria de perfeição e harmonia para captar com mais precisão a (im)perfeição divina. Kepler, dito de outra maneira, parou de tentar dizer o que era Deus para poder vê-lo melhor. (1)

Feita a breve introdução, passemos à história.

Era um dia comum, em que fui até a escola de meu filho para buscá-lo. Antes de chegar à porta da sala, visualizei-o por uma janela sentado à mesa. Grave e compenetrado, brincava com blocos de montar. Ao me ver chegar, gritou:

– Olha, pai! Fiz uma cozinha espacial!

A professora me olha:

– Ele adora brincar com esses blocos, não?

Adora? – Pensei comigo.

A frase, então, caiu-me como uma revelação. Estava ali a chave há tanto buscada. Em um momento inusitado, através de alguém estranho, o oráculo foi proferido e um portal se abriu: um caminho de luz para o coração de meu filho – blocos de montar.

Não respondi à professora. Apenas lhe enderecei um sorriso de aprovação. Meu filho veio em minha direção correndo e abraçou-me. Voltamos para casa.

No caminho, no mesmo carro, seguimos. Não necessariamente para o mesmo lugar. Embora o filho queira, ou mesmo o pai faça questão, um pai e um filho não necessariamente vão para um mesmo lugar. Desencontros do amor. O amor, por vezes, está ali, mas não encontra a fresta por onde entrar. A casa para a qual eu ia não era a mesma para a qual meu filho estava indo. Qual era a dele? Só ele sabe dizer.

Tracei, como modelo cosmológico, uma órbita circular uniforme de amor: minha perfeição. Supus ser essa a forma justa e assim entregava um pai a meu filho. Geometria euclidiana. No entanto, quando o fenômeno se apresentava no mundo, a equação não fechava. A falta atravessava o caminho. Fazia furo. O teorema era perfeito, mas não se ajustava ao fato. Desentendimentos e cansaços do amor. Culpa da insuficiência.

Na hora do banho era a hora do brinquedo. A roupa não era aquela: “Não quero vestir a roupa! Quero ficar pelado!” Hora de comer: “Não quero comida! Não quero essa comida! Nunca mais vou escovar os dentes! Hora do banho: Nunca mais ninguém vai lavar a cabeça! Sabia, pai, que ninguém escova os dentes. Não quero dormir agora! Não quero!” 

Quero você! Quero só você! Quero todo o amor que eu puder ter com a sua cara no meio! Quero o amor com a sua cara! Não quero nada outro! Não quero banho, janta, cama! Quero, quero você!

O que quer uma criança? Afeto com nome próprio até transbordar o balde. Até o fim. Amor com nome de pai e mãe. Com carne, gosto e cheiro de pai e mãe. 

– Quem é sua família, meu filho?

– Você, a mãe, o mano e meus brinquedos.

Somos brinquedos. E o que faz uma criança com seus brinquedos senão criar. E o que faz um homem com o mundo, que já não tenha feito com seus brinquedos de criança? O amor dos filhos não tem lógica. Não tem perfeição. Não tem ajuste. É sempre demais. É sempre incabível, indizível, incontido, como deve ser o amor. Nós é que não sabemos amar. Somos nós que nos perdemos. Desencontramo-nos. Esse pastiche: os adultos.

No caminho de casa, ouço no carro uma música. Espero que meu filho goste dela quando crescer. Ele só quer ver desenho. Sou eu quem gosta da música, não ele. Talvez, no futuro, a música evoque a mim na sua lembrança, nada mais. Ele, no entanto, gosta mesmo de outra coisa. 

E a porta nunca se abre. E batemos. Queremos estar ali no coração deles, mas o amor é arisco como um gato. Às vezes, alguém espia de leve, por uma fresta entreaberta, em uma tarde de sol ameno de sábado, e um sorriso nos abraça. No entanto, logo ao sentir o abraço, abruptamente esse alguém bate a porta em nossa cara com a frieza implacável de uma noite de domingo – a face tétrica do real.

– Veja aqueles pássaros, meu filho! – Aponto um bando de pássaros voando juntos, fazendo desenhos no céu.

– Parece a nossa família, né, pai! – E a porta entreabriu-se novamente.

Só vê o desencontro, quem está buscando encontrar. Quem não o vê, já está perdido.

Chego em casa e paro o carro, esperando o portão abrir. Minha esposa parou à porta com meu outro filho no colo.

– Temos uma surpresa, papai!

Meu filho grita do carro:

– O que é mamãe? Animais marinhos?

Entramos na sala.

– Uma caixa de blocos de montar!

E a porta se escancarou. Arrancaram a porta. Não há mais porta. Meus filhos espalharam os blocos todos pelo chão. Bagunça. O amor é uma bagunça.

Abramos aqui um parêntese. Consta nos anais da história que Kepler, depois de muito insistir em uma geometria por ele suposta, depois de muitas frustrações, culpas, finalmente percebeu que seu olhar estava equivocado. Bastava tornar o sol excêntrico ao sistema e torcer um pouco em elipse a órbita dos planetas e a verdade se daria a olhos de ver. Kepler, depois de anos tentando encaixar a vida na sua geometria, torceu o olhar e viu melhor. Foi o primeiro a perceber que os planetas traçam órbitas elípticas ao redor do sol. Sigamos a história. (2)

Envolto, ainda, em teoremas, sento no sofá e pego algumas peças para montar. Meu filho interpela-me:

– Pai, senta aqui no chão!

Penso: verdade. Quem brinca sentado em um sofá? Só adultos. Mas adultos não brincam. Paradoxo. Sentei-me no chão. Algo demiúrgico se apossou de mim e comecei a ver as peças tomando formas diversas diante de meus olhos. Bastava montar. A cada peça encaixada eu desmontava o adulto em mim. A criança adormecida logo apareceu e eu era um amiguinho do meu filho.

– Tu é o meu melhor amigo, né, pai!

– Sou, meu filho! Sou seu melhor amigo.

Somos nós que não sabemos amar. 

Carro edifício. Zumbi elétrico. Cozinha voadora. Jaula de formiga. 

Eu esqueci de mim. Só via minha esposa, meus filhos e meus brinquedos. Minha família.  Para ver o amor talvez seja necessário torcer o olhar. Pode ser que Deus seja excêntrico, e precisemos olhá-lo como uma criança. Kepler sabe bem o que estou tentando dizer.

Notas:

(1) Johannes Kepler (Weil der Stadt, 27 de dezembro de 1571 — Ratisbona, 15 de novembro de 1630) foi um astrônomo, astrólogo[2] e matemático alemão. Como uma das suas grandes contribuições destaca-se a observação pioneira de que os planetas descrevem, em verdade, órbitas elípticas e não circulares ao redor do sol, sendo que este ocupa um dos focos da elipse, e não o centro. Com isso, abandonou-se a ideia vinda desde Aristóteles de que os corpos celestes possuíam órbitas circulares uniformes ao redor do sol.

(2) Mais surpreendente ainda é que, por ocasião da segunda edição do Mysterium, 25 anos depois, Kepler, já sabendo que esse modelo não tinha passado de um sonho e fazendo em notas ao texto uma autocrítica da sua obra de juventude, acrescentou, no entanto: “… é com prazer que eu lembro das muitas voltas que eu dei, das paredes sem fim ao longo das quais eu tateava na escuridão da minha ignorância, até encontrar a porta por onde entrava a luz da verdade. (SIGAUD, Geraldo Monteiro. Copérnico e Kepler: como a terra saiu do centro do universo in Cadernos IHU Ideias. ano 4 – nº 49 – 2006 – 1679-0316.

Um moço

Era costume do rapaz, em algumas tardes, caminhar até um outeiro próximo à humilde gleba de terras onde morava.

Ia a pé tranquilamente. Meneava a cabeça em respeitoso cumprimento aos pastores que passavam por ele com seus rebanhos de cabras na estrada empoeirada de Nazaré.

Gostava dos fins de tarde. Sorvia não sei que sabor misterioso dos arrebóis.

Era um moço discreto. Silencioso nas maneiras. Falava pouco. Talvez, por isso, quando falava, sua palavra vibrava com magnetismo especial, causando reverberações desconhecidas na alma de quem o ouvia.

Seu passo era curto. Sem pressa. Chegava-se à pedra onde tinha por hábito acomodar-se e ficava ali vendo o sol ir embora.

A roupa era humilde e encardida à moda dos camponeses de sua localidade. Sandálias em couro cru com algumas das tiras quase arrebentadas. Nas mãos, pequenos calos nas juntas nascidos do esforço repetitivo no manuseio das ferramentas de trabalho.

Olhos de menino ainda. Era como se houvesse por trás de seu rosto um garoto, embora fosse já um homem nos seus quase trinta anos.

O que pensava, é-nos impossível saber. O fato é que se entregava à contemplação com todo o seu espírito.

Chorava. E seu pranto não era de tristeza, nem de dor. Era um choro diferente. Brincava com as pedrinhas do chão. Lançava algumas ao longe para as ver rolarem ladeira abaixo.

Tirava os pés descalços. Sentia o odor da erva que a brisa dos fins de dia fazia passear pelo ar.

Nunca depositou o peso de sua dor em nenhum ouvido de amigo ou parente – não compreenderiam. Ainda que compreendessem, seria inútil. Antevia o seu destino. E sempre que o coração pesava, vinha ao outeiro chorar sua angústia.

Já no primeiro sopro gelado do vento da noite, olhava uma última vez para o rastro deixado pelo sol. Suspirava um alívio vindo do infinito. Calçava as sandálias e retornava para casa.

Seguia só, ouvindo os primeiros grilos. O canto agudo e solitário de uma coruja voando de um canto a outro da estrada, durante a passagem do rapaz, era como a saudação a um amigo querido.

Chegava à casa que era a sua batendo a poeira dos pés à porta. Antes de entrar, já havia conferido se os animais estavam bem fechados na encerra. Verificava, também, o ferrolho da porta da oficina. 

Em silêncio, beijava carinhosamente o rosto da mãe. Pedia a benção ao pai e sentava-se para cear.

Partia o pão ázimo, que pegava de uma humilde tigela posta no meio da mesa de madeira rude, e mergulhava-o no caldo pobre que o trabalho da família podia pagar. Sorria. Falavam sobre qualquer assunto sem muita importância.

Enfim, quando a gordura do lampião já havia queimado o suficiente, a luz era apagada, de modo que sobrasse combustível para a noite seguinte. Todos iam deitar.

Em uma esteira, ele depositava o corpo cansado. Orava uma prece pequena e sentida – era homem de fé. Mais duas lágrimas rolavam na face e caíam no tecido esbranquiçado onde deitava.

Adormecia sentindo no rosto o frio que transpassava as frestas das portas.

Com o que sonhava? Nunca saberemos.

O que se comentava, tempos depois, era sobre as flores desconhecidas encontradas pelos pastores de cabras no cume de um outeiro ali perto nos arredores de Nazaré. Nunca se soube da existência de outras iguais naquela região.

De passagem, um dos pastores até comentou: 


Era costume, em dias incertos, ver por ali o Galileu aquele, crucificado alguns meses atrás, e que hoje afirmam ser o Cristo Jesus.

A-Nota

Virei número. Nesta semana, fui agraciado com a maior honraria que pode alcançar um sujeito pós-moderno: virei número. Não um número qualquer: uma nota. Não uma nota qualquer: a pior.

Não são todos que têm o privilégio de ver as circunstancialidades da sua existência, os minutos de cansaço, os mal-estares, as pequenas vitórias do dia-a-dia, as conquistas anônimas, as insônias, as preocupações, os desafios emocionais condensados em quatro abstrações que a humanidade convencionou chamar de número.

Como dizia, não são todos que têm esse privilégio. Apenas um sujeito pós-moderno como eu o tem.

A nota não é imerecida, entendam-me bem. Não é disso que se trata. Foi muito justa. Segundo o referencial proposto, foi justa. É outra coisa. É o impacto trazido pelo resumo de uma vida em fragmentos decimais, a síntese levianamente pragmática de um percurso dada em um número real, inescapavelmente real, injustificadamente real; é tudo isso que, em mim, não deixa de trazer um desconforto de alma.

Os enleios do novelo da vida resolvidos no traço de uma reta real: encontro impossível.

O número, como coisa dada, não se discute. Paradoxo de uma coisa que se faz indizível, porque sua existência em si já diz o que há para dizer de si mesma.

O número é surdo para o que falam dele.

Virei número. E não importa o que eu diga. Hoje eu sou ele. Amanhã, não sei. Hoje, no entanto, sou ele. Para um outro, sou ele.

Em certa medida, os números são, para o homem, uma tentativa desesperada de segurança. Promessa de ordem. Dias de paz. Se as coisas saem do controle, se algo escapa, se as sobras de nossos atos começam a compor um estranho, que com o tempo começa a ganhar vida e a nos ameaçar como um “outro-intruso”, é nessas horas que o número aparece para dourar a pílula.

Simplificação do não-saber.

E esse, que aí está a me olhar como um número, não é honesto. O número limita-se ao próprio ser de si. Aquele que olha o número, no entanto, põe dentro dele os significados que lhe aprazem, em desacordo com a lógica própria do número. Enche de conteúdo uma coisa que existe em si pelo fato de não comportar conteúdo de significado: desonestidade.

Esse olhar estrangeiro preenche o “número-eu” de ideias suas, não minhas. Aquilo posto no número é seu, não meu. Não é nem do número. 

Talvez eu cause estranheza a esse que olha. Talvez a minha existência (sem número) seja para ele incontrolável, inclassificável, inconcebível: a sombra de um estranho começando a tomar forma, e que ele mantém distante fazendo de mim um número.

Como número, estou sob controle. Em número, estou concebido. Do número, não me escapo.

No número, sou qualquer outra coisa para um outro, menos eu.

Setembro

Fico vagando pelo resto de tarde.
Jeito manso de noite clara
Nas maneiras do sol partindo.
Uma copla bem floreada para
a nova
Que um grilo longe vai brandindo.

Nessas noites leves de setembro,
Recém-nascidas no calendário do ano,
Há um cheiro doce pela brisa.
Qualquer coisa de primavera afaga
O rosto grave de um inverno morto.

Viço nas folhagens e nas gentes.

Brotam perfumes e carícias
No desdobrar dos botões de flores;

Chegam instantes lentos
Nos dias que desconhecem pressa.

Já não fico onde me vejo.
Perde-se o espírito, velho andejo,
Por paisagens que sei ou adivinho.
Não paro nas malhas do tempo
Se o belo me fala de eternidades.

Meu filho bilíngue

Lastimo meu filho, coitado,
Ele não é bilíngue.
Anda, corre, fala,
Mexe no que não deve,
Mas, coitado,
Ele não é bilíngue.

Que língua falas, meu filho?
O que significam teus choros?
Pedes o que com essa birra?
Aquele risco na parede.
O brinquedo arremessado.
O que me dizes com tudo isso, meu filho?

Não sabes falar,
Ou eu não sei te escutar?
Ah, se fosses bilíngue,
Tudo então estaria resolvido;
Mas não falas como costumo entender.

Eu já sou bilíngue.
Já tenho meus diplomas.
Um dia serás bilíngue, meu filho.
Então, saberemos conversar.

Tens esse mau hábito
Das crianças muito pequenas
De não falar por palavras.
Acabo por não te saber, meu filho,
Nem me fazer ouvir.

Resolveremos isso!
Em breve serás bilíngue.

Terás duas professoras.
Melhor, quatro ou cinco!
Aprenderás piano, violino, sax.
Aulas de natação à tarde,
E muitos amigos tentando
Também ser bilíngues
Para falar com seus pais.

Logo, meu filho,
Não terás tempo para perceber
Que não há tempo para nós.

É preciso que saibas
Que o tempo é curto,
E há muitas coisas por fazer
Antes que venha a morte.

Precisamos, rápido,
Eu e tu sermos bilíngues!

Dará um certo trabalho.
Mas, ao fim, ambos bilíngues,
Por fim nos saberemos.

Não percebes, meu filho,
Meus graves compromissos.
Um dia te-los-á também.
E lembrarás de teu velho pai
Sem tempo para andar descalço,
Ou tomar banho de chuva.

Por ora, não nos entendemos.
Porém, quando fores bilíngue,
Toda a verdade entre nós
Será esclarecida.

Tem paciência, meu filho!
Como é difícil…
Não sei porque não escutas
Quando te peço silêncio,
Ou que não sujes a roupa.

Abres a porta do escritório
Enquanto analiso gráficos...

Como é difícil te explicar…
Espera, meu filho, pai já vai!
Estou quase terminando.
Agora não, pai está trabalhando.
Depois, meu filho, estou falando
Com um cliente importante.

Mas não me escutas…
Como é difícil…
Resolveremos a questão.
Buscarei para você
Uma escola bilíngue!

Só então, meu filho,
Falaremos a mesma língua!

Quebraste a tela do meu computador, meu filho!
Meu filho, por que o celular está no aquário?!
É, bem, isto já chegou no limite.
Farás aulas de alemão pela manhã.
À tarde, aulas de inglês.

Quando chegares, então,
Aos quatro anos de idade,
Faremos um perfil no lattes,
Meu filho, acho que isso
Também te inquieta, não?

Pois bem, hoje mesmo
Comprarei uma agenda,
Daquelas bem grandes,
Onde caibam bastantes coisas
Durante todos os dias.

É imperioso, meu filho,
Não haver nenhum tempo,
De modo a não sentir
Que não sabemos nos entender.

- Revoltas da adolescência -

08.05.2020