“Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara” *
*Tabacaria. Álvaro de Campos.
Letargo
Onde a dor já não doía
E o medo era triste.
O sangue,
Vazio de calor,
Corria por correr.
Beijos
Eram protocolares.
E os abraços
Não havia abraços…
O corpo
Uma fisiologia austera.
E o dono,
Um morador louco
Com pretensões de ser a casa.
Para onde foi o teatro?
O que foi feito da plateia?
Pergunto eu,
Já perplexo,
Com a máscara na mão...
Eu,
Para quem as horas escoavam
Por entre os dedos
Das mãos aflitas,
Ouço agora o relógio correr.
E cada sua batida
Escorre pelos ponteiros
O sem sentido das eras.
Viver é para sempre.
O que há
É que não suportamos.
Antes faltava tempo.
Agora nos sobra vida.
Ocorre que com o tempo,
Não há outra coisa,
Senão gastá-lo.
Com a vida,
Não há jeito,
Só vivendo.
O tempo é ânsia.
A vida sonho.
Rubor da face.
Calor do sangue.
Paixão do beijo.
Aperto do abraço.
O tempo, tão somente, urge.
A vida é medo.
Confusão.
Frio na espinha
À beira do precipício.
Incerteza e dor.
O tempo, um cigarro
Aceso ao final do outro.
Onde pus a máscara?
Coloco-a, mas a plateia não vem…
Medo da alma.
Fico eu aqui
Ridículo e só.
Herói bobo
De um pastiche
Esperando que um dia
A vida volte ao normal.
29.05.2020

