A-Nota

Virei número. Nesta semana, fui agraciado com a maior honraria que pode alcançar um sujeito pós-moderno: virei número. Não um número qualquer: uma nota. Não uma nota qualquer: a pior.

Não são todos que têm o privilégio de ver as circunstancialidades da sua existência, os minutos de cansaço, os mal-estares, as pequenas vitórias do dia-a-dia, as conquistas anônimas, as insônias, as preocupações, os desafios emocionais condensados em quatro abstrações que a humanidade convencionou chamar de número.

Como dizia, não são todos que têm esse privilégio. Apenas um sujeito pós-moderno como eu o tem.

A nota não é imerecida, entendam-me bem. Não é disso que se trata. Foi muito justa. Segundo o referencial proposto, foi justa. É outra coisa. É o impacto trazido pelo resumo de uma vida em fragmentos decimais, a síntese levianamente pragmática de um percurso dada em um número real, inescapavelmente real, injustificadamente real; é tudo isso que, em mim, não deixa de trazer um desconforto de alma.

Os enleios do novelo da vida resolvidos no traço de uma reta real: encontro impossível.

O número, como coisa dada, não se discute. Paradoxo de uma coisa que se faz indizível, porque sua existência em si já diz o que há para dizer de si mesma.

O número é surdo para o que falam dele.

Virei número. E não importa o que eu diga. Hoje eu sou ele. Amanhã, não sei. Hoje, no entanto, sou ele. Para um outro, sou ele.

Em certa medida, os números são, para o homem, uma tentativa desesperada de segurança. Promessa de ordem. Dias de paz. Se as coisas saem do controle, se algo escapa, se as sobras de nossos atos começam a compor um estranho, que com o tempo começa a ganhar vida e a nos ameaçar como um “outro-intruso”, é nessas horas que o número aparece para dourar a pílula.

Simplificação do não-saber.

E esse, que aí está a me olhar como um número, não é honesto. O número limita-se ao próprio ser de si. Aquele que olha o número, no entanto, põe dentro dele os significados que lhe aprazem, em desacordo com a lógica própria do número. Enche de conteúdo uma coisa que existe em si pelo fato de não comportar conteúdo de significado: desonestidade.

Esse olhar estrangeiro preenche o “número-eu” de ideias suas, não minhas. Aquilo posto no número é seu, não meu. Não é nem do número. 

Talvez eu cause estranheza a esse que olha. Talvez a minha existência (sem número) seja para ele incontrolável, inclassificável, inconcebível: a sombra de um estranho começando a tomar forma, e que ele mantém distante fazendo de mim um número.

Como número, estou sob controle. Em número, estou concebido. Do número, não me escapo.

No número, sou qualquer outra coisa para um outro, menos eu.

Pragmático

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Canela/RS. 2021.
O texto tem de ser curto.
Não há tempo para ler.

O trabalho, objetivo.
Linha de produção.

Criatividade morta
Em tempos de eficiência.

O ócio é crime
De lesa-majestade.

Meu avô, com sua sesta
E seu chimarrão demorado
Nas tardes mornas de primavera
Deve arder, agora,
Em algum inferno de eficientes.

Coitado, ele que tinha tempo
Para me perguntar como anda a escola
E fazer cavacos à tardinha
Antes de acender o fogão a lenha
Deve lamentar
Não fazer parte do mundo moderno.

E minha avó, então!
Para ela a novela das oito
E o programa de rádio do meio-dia
Eram momentos litúrgicos
Tal como a missa das seis;
Hoje, certamente, pena por aí
Em algum purgatório
De gestores de tempo.

A espera foi embora.
Os abraços são rápidos.
Os beijos, pragmáticos.
Os namoros, virtuais.
A vida, exangue
Para gente que foge do tempo
Estando sempre adiante dele.

O cansaço tem sido a alma do corpo.

Setembro

Fico vagando pelo resto de tarde.
Jeito manso de noite clara
Nas maneiras do sol partindo.
Uma copla bem floreada para
a nova
Que um grilo longe vai brandindo.

Nessas noites leves de setembro,
Recém-nascidas no calendário do ano,
Há um cheiro doce pela brisa.
Qualquer coisa de primavera afaga
O rosto grave de um inverno morto.

Viço nas folhagens e nas gentes.

Brotam perfumes e carícias
No desdobrar dos botões de flores;

Chegam instantes lentos
Nos dias que desconhecem pressa.

Já não fico onde me vejo.
Perde-se o espírito, velho andejo,
Por paisagens que sei ou adivinho.
Não paro nas malhas do tempo
Se o belo me fala de eternidades.

Sensorium III

Que poderia dizer do frio que minhas carnes não saibam...

Mas não é a elas que falo, senão à alma que tenho.
O inverno traz outro gosto à cevadura das horas,
E os instantes aguardam estios às janelas das casas.

Em me recolhendo tanto chego a estar no espírito.
Olho de mim para o cenho franzido do dia
- O tempo parece mais taciturno.
Sol tímido espia tardes frias
Por entre o peso argênteo do céu invernal.

Luzes por dentro das casas vistas da rua
Dormem ao vento gelado que cala a vida.
Todos cultivam em sonos
Esperanças de manhãs mais trigueiras.

Translucidez negra desenha a abóboda de um céu
Que ao inverno deu em estrelado.
Lua minguante profusa em claridades mais tímidas
Traz do absoluto mais infinito
Para o sentido de infinito que já há na paisagem.

Horas mais eternas.

Harmonias azuis distribuem cantigas insuspeitas,
Ressoando o arpejo frondoso que há nas copas
Das árvores mais altas pintadas de manhã.

Saudades mais queridas falam ao peito
De verdades a tanto esperadas.
Ansiedades morrem ao toque dessas coisas
Cessando procuras que eram fermento de ilusão.

O ser percebe a Verdade no belo que vê.
E sentindo-se, então, parte também do concerto,
Sabe-se elemento essencial de verdade.

- Intimidade mais estreita no coração com aquilo que é Deus.

Distraído

Lua espalhando claridades
Pelos remansos da noite.

Estrelas.

Não há vento
E o escuro é infinito.
Dessa vida sinto apenas o jasmim:
Cheiro lilás em doçuras delicadas.

Passeio distraído pela rua.
Deus vê a mim sem que eu o perceba.
Intuo sua presença nas coisas
E sou pleno.

Pequena brisa toca de leve os cinamomos
E leva do meu peito todas as culpas.
Lavadeiras atentas derramam baldes nas calçadas do meu ser.
Lavam de escovas as lajes de mim – água fresca sobre a alma limpa.

Não preciso ou devo, nem quero ou tenho.
Apenas sou como vida e isso me basta.
Nesse instante, a noite transpassa-me o ser
E não sinto meu corpo.

A casa, o cinamomo da frente,
As pequenas pedras da rua, as estrelas,
O jasmim e os odores,
Tudo isso que compõe o enredo de minha calma de agora
Desaparece da vista como coisa de pegar.

Abraço, enfim, Deus
Como quem abraça o pai.
- Paz daquelas de voltar para casa -

Meu vizinho sai à frente ter também com a noite
E me acena.
Largo-lhe um sorriso em despedida.
Volto
E tranco a porta.


Imagino sonhos.
Meu sono não é de dormir.

Meu filho bilíngue

Lastimo meu filho, coitado,
Ele não é bilíngue.
Anda, corre, fala,
Mexe no que não deve,
Mas, coitado,
Ele não é bilíngue.

Que língua falas, meu filho?
O que significam teus choros?
Pedes o que com essa birra?
Aquele risco na parede.
O brinquedo arremessado.
O que me dizes com tudo isso, meu filho?

Não sabes falar,
Ou eu não sei te escutar?
Ah, se fosses bilíngue,
Tudo então estaria resolvido;
Mas não falas como costumo entender.

Eu já sou bilíngue.
Já tenho meus diplomas.
Um dia serás bilíngue, meu filho.
Então, saberemos conversar.

Tens esse mau hábito
Das crianças muito pequenas
De não falar por palavras.
Acabo por não te saber, meu filho,
Nem me fazer ouvir.

Resolveremos isso!
Em breve serás bilíngue.

Terás duas professoras.
Melhor, quatro ou cinco!
Aprenderás piano, violino, sax.
Aulas de natação à tarde,
E muitos amigos tentando
Também ser bilíngues
Para falar com seus pais.

Logo, meu filho,
Não terás tempo para perceber
Que não há tempo para nós.

É preciso que saibas
Que o tempo é curto,
E há muitas coisas por fazer
Antes que venha a morte.

Precisamos, rápido,
Eu e tu sermos bilíngues!

Dará um certo trabalho.
Mas, ao fim, ambos bilíngues,
Por fim nos saberemos.

Não percebes, meu filho,
Meus graves compromissos.
Um dia te-los-á também.
E lembrarás de teu velho pai
Sem tempo para andar descalço,
Ou tomar banho de chuva.

Por ora, não nos entendemos.
Porém, quando fores bilíngue,
Toda a verdade entre nós
Será esclarecida.

Tem paciência, meu filho!
Como é difícil…
Não sei porque não escutas
Quando te peço silêncio,
Ou que não sujes a roupa.

Abres a porta do escritório
Enquanto analiso gráficos...

Como é difícil te explicar…
Espera, meu filho, pai já vai!
Estou quase terminando.
Agora não, pai está trabalhando.
Depois, meu filho, estou falando
Com um cliente importante.

Mas não me escutas…
Como é difícil…
Resolveremos a questão.
Buscarei para você
Uma escola bilíngue!

Só então, meu filho,
Falaremos a mesma língua!

Quebraste a tela do meu computador, meu filho!
Meu filho, por que o celular está no aquário?!
É, bem, isto já chegou no limite.
Farás aulas de alemão pela manhã.
À tarde, aulas de inglês.

Quando chegares, então,
Aos quatro anos de idade,
Faremos um perfil no lattes,
Meu filho, acho que isso
Também te inquieta, não?

Pois bem, hoje mesmo
Comprarei uma agenda,
Daquelas bem grandes,
Onde caibam bastantes coisas
Durante todos os dias.

É imperioso, meu filho,
Não haver nenhum tempo,
De modo a não sentir
Que não sabemos nos entender.

- Revoltas da adolescência -

08.05.2020

Pampeiro

Pampeiro... Velho fantasma gelado…

Assombras de pesadas solidões 
Os invernos da campanha.

Tens o entono aragano
Dos índios nossos
Ancestrais americanos.

Dizem, não sei,
foi um boleador,
Desses de terras paisanas,
Que num tropel de disparada insana
Ergueu teu sopro bravio
No encalço das alçadas.

Ou, quem sabe, há quem conte,
Vieste da escarpa andina
Assoviando... Desgarrado... Gemendo...
Fugindo pela planura
Do agito da envergadura
Das asas de algum condor.

Chibeiro de alheias memórias…

Tens o nada do deserto nos vazios.
Aroma de patagônia em teu gelo,
E o agouro do abandono em assobios.

Vento de dias metálicos
Que há pelos frios de julho.
Milonga que o povo entoa
De tanto ouvir pelas noites
Os uivos que o pampa soa.

Não sei ao certo, pampeiro,
O rastro do teu caminho.

O certo é que és andarilho
Destas províncias platinas,
Trazendo o gosto amargo do inverno
À fria cor dessas coxilhas.


07.07.11

Mateando

Um dia serei de novo aquela estrela sozinha
Madrugando pelas ausências dos campos.
Serei o espanto e a novidade do mistério
Povoando o sonho dos amanhãs.
Serei o vento pampeiro
Buscando perdido o rastro ancestral da disparada,
Em estouro e tropel, de algum centauro charrua.

Serei a pedra silente do lajedo pequeno
Nas tardes de verão quente.
O arrulho escondido num cinamomo de tapera.
Serei para mim mesmo a quimera
De ser um pedaço de meu próprio mundo –
Uma braça de terra, um revoo na aguada...
Estrada, tempo e caminho...

Posso não ser importante e até desconhecido,
Mas não se importem comigo,
Na solidão das lonjuras,
Basta a mim ser horizonte;
Ou qualquer elemento anônimo,
Que faz a vida do meu rincão
Uma mensagem de Deus para a alma.

Não me canso atrás do bastante
Quando a mim mesmo me basto.
O que posso querer da ilusão
Se dela nunca terei verdade?

O que quero mesmo é ser flechilha e caraguatá;
Porque nada falta ao que bebe silêncio:
É só mate, fogão e a alma...



16.01.12

Eu acho…

Sinto saudade de um tempo
Em que o vento parecia ser a alma da gente.

Não...

Na verdade, não era bem a alma da gente.
Eu acho...

Atravessava ele
As minhas transparências.

Fazia pequenos redemoinhos em meu peito,
Espalhando os ciscos de mim,
E fugia para os arvoredos comigo.

Brincávamos entre os passarinhos.
Escondíamo-nos do sol entre as nuvens.
Chovíamos garoas,
Esparramando-as pelas tardes.

Revoávamos o poente de vermelho.

E, em seguida,
À noite,
Íamos juntos embora
Pelas estradas de lua.

23.04.2021

Outra coisa

Ontem eu nasci.
Não de novo.

Minha velha criança
Abriu os olhos pela primeira vez
Em outro mundo.

Nele o sol tinha um jeito
De correria na rua.
E a chuva
Cheirava à pipoca doce
Dentro de casa.

Os passarinhos cantavam igual,
Mas dentro de mim.
Não estavam mais presos
Nas gaiolas tristes das desatenções.

O vento corria nu
Pelos jardins das casas.

Lá era proibido importunar as tardes;
Elas eram das lebres
Dormindo suas sestas
Pelos arbustos do prado.

Os verões
Pareciam arrulhos de pombas
E trinados de cigarra,
Por vezes, na mesma árvore.

Meu trabalho,
Quando não brincava,
Era pescar minhocas
Para dar aos peixes,
Atrapalhando a solidão das garças.

Os homens sérios eram fantasmas
Quase invisíveis.

Aqueles que estavam mortos
Olhavam-me com sisudez
Pelo despeito de eu estar ali
Desmanchando suas arrumações.

Acusavam-me de ser muito pequeno
Para saber usar suas suposições.

Fazia pouco caso...

Os loucos, lá, não eram chatos
Em seus delírios inocentes.

E o povo era governado
Por um conselho de anciãos,
Todo eles
A jogar damas na praça.

Às vezes, cortavam-se as casas dos passarinhos
Para se fazer casas de gente.

Eu ficava triste,
Mas logo passava
Quando lembrava
Que eles sabiam voar.

Consola-me a paz de saber
Que dessa vida não morro.

Nessa minha outra coisa,
O mundo é todo o lugar.
O tempo sempre.

E não há Deus,
Porque ele já mora lá.

17.04.2021