Pampeiro... Velho fantasma gelado…
Assombras de pesadas solidões
Os invernos da campanha.
Tens o entono aragano
Dos índios nossos
Ancestrais americanos.
Dizem, não sei,
foi um boleador,
Desses de terras paisanas,
Que num tropel de disparada insana
Ergueu teu sopro bravio
No encalço das alçadas.
Ou, quem sabe, há quem conte,
Vieste da escarpa andina
Assoviando... Desgarrado... Gemendo...
Fugindo pela planura
Do agito da envergadura
Das asas de algum condor.
Chibeiro de alheias memórias…
Tens o nada do deserto nos vazios.
Aroma de patagônia em teu gelo,
E o agouro do abandono em assobios.
Vento de dias metálicos
Que há pelos frios de julho.
Milonga que o povo entoa
De tanto ouvir pelas noites
Os uivos que o pampa soa.
Não sei ao certo, pampeiro,
O rastro do teu caminho.
O certo é que és andarilho
Destas províncias platinas,
Trazendo o gosto amargo do inverno
À fria cor dessas coxilhas.
07.07.11
Um dia serei de novo aquela estrela sozinha Madrugando pelas ausências dos campos. Serei o espanto e a novidade do mistério Povoando o sonho dos amanhãs. Serei o vento pampeiro Buscando perdido o rastro ancestral da disparada, Em estouro e tropel, de algum centauro charrua.
Serei a pedra silente do lajedo pequeno Nas tardes de verão quente. O arrulho escondido num cinamomo de tapera. Serei para mim mesmo a quimera De ser um pedaço de meu próprio mundo – Uma braça de terra, um revoo na aguada... Estrada, tempo e caminho...
Posso não ser importante e até desconhecido, Mas não se importem comigo, Na solidão das lonjuras, Basta a mim ser horizonte; Ou qualquer elemento anônimo, Que faz a vida do meu rincão Uma mensagem de Deus para a alma.
Não me canso atrás do bastante Quando a mim mesmo me basto. O que posso querer da ilusão Se dela nunca terei verdade?
O que quero mesmo é ser flechilha e caraguatá; Porque nada falta ao que bebe silêncio: É só mate, fogão e a alma...
Foto: Maurício da Rosa Ávila. Março de 2021, Tapes/RS
Eu hoje descobri o silêncio.
Ele é claro como uma manhã de outono. Há nele árvores E uma lagoa serena.
Pequeno bando de garças Cruza o céu Na direção de seu trabalho diário De espiar e colher peixes.
Nele há vento, cheiro de mato E nada para fazer.
Hoje eu descobri o silêncio.
E, na hora mesma em que o descobri, Uma garoa veio insistir Causando em mim breve estranhamento.
Olhei o entorno.
No silêncio encontrei uma figueira. Sentei-me em um galho seu, Desses que parecem braços de gente.
O João-de-Barro catando pequenos ciscos pela grama Veio ter a meu lado. Olhou-me com breve espanto. Não acreditou que lhe fosse fazer algum mal E seguiu o curso de sua vida Como sempre.
Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021.
Prédios lançam mil olhos Pelas janelas do meu apartamento.
Lua sobre o Bonfim Esgueira-se por entre as ruas: Porto Alegre vem me contar segredos Em meio aos silêncios da noite.
Longes barulhos de luzes Subindo e descendo No escuro de um céu de chumbo: Estrelas mecanizadas Suspirando turbinas Nos desvãos da madrugada.
Eu não fumo. Meu vizinho sim. E enquanto eu escrevo e ele fuma Percorre nosso ser O mesmo espanto metafísico Que eu tento dizer E ele tenta fumar.
Todos dormem. E enquanto dormem, Corro atrás do coelho branco Para chegar atrasado a um chá, Mas não do chapeleiro maluco: Suponho mais maravilhas que Alice…
O executivo dorme. O Senhor Diretor dorme. O cura dorme. O estivador dorme. E nisso todas as pretensões suas Ao cabide, com as roupas de ontem, Levemente balançando Com a brisa que entra pela fresta Da janela esquecida aberta.
O mundo é meu, não deles.
Amanhã, despertando cedo, Revisarão os deveres enquanto escovam os dentes. Vestirão roupas limpas, Repetindo as pretensões. Ou vestirão pretensões também limpas, Mandando as velhas para lavanderia Com as roupas de ontem.
E, então, o mundo será novamente deles...
Até que uma nova noite venha. Meu vizinho fume. E eu faça versos. O coelho branco apareça entre insônias. E a lua cheia derrame sua prata Sobre o sono de Porto Alegre.
Vida longa ao nosso rei: Ideologia! Altares são erguidos tacitamente em teu nome.
Senhor de tudo que sentimos, Jogas xadrez com nossas mentes. Brincamos de pensar, quando, em verdade, Prestamos reverência a tua odiosa coroa.
Oh, Grande Rei, que nos falas Por sob vestes de ideias sombrias, Do estrado cambiante da falácia! Na luta da vida, ovacionamos tuas palavras. Na guerra, irmãos, famílias E confrades travam contendas; E o sangue do amado na palma de nossas mãos É o triunfo do nosso monarca.
Oh, Rei Sol dos novos tempos! Quantos heróis vitoriosos, Privados do gozo da glória! Quantos inimigos vencidos, Eximidos da dor do fracasso! Quantos gênios relegados À miséria da heresia! Quantos energúmenos Jubilosos no poder! Para o único triunfo que é a força de tua coroa...
Enquanto o homem que nos habita, Exilou-se na caverna chamada mundo. Chora um pranto sincero de criança, Por isso a dor!
Chora seus confrades, Que caminham ingenuamente Ao abismo da subserviência Embalados pela flauta do seu déspota - Oh, Ideologia!
Chora a fortuna de não ser, Num mundo que não permite ser. Chora cada homem que tomba, Pois sabe que, depois da queda, Todos choram à procura Daquilo que há No ser igual a si mesmo.
Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021
Eu compreendo os cinamomos: Colunas hirtas de um império que não houve Pendendo copadas sombras sobre casas velhas de musgo.
É quando a brisa quente do tempo Espalha o gosto verde pelos cheiros das sestas, Quando as pequenas flores brancas Enleiam-se nos cachos das meninas de trança E as surpresas estão todas de chinelos, Que os machados sangram sua inveja Pela quentura dos fios.
Atrapalham o progresso dos concretos Suas grandes raízes com firmezas que nem os homens temos.
Eles morrem sem chorar. Gemem sem sangrar. Não honram os metais com nenhuma gota de seiva.
Seguem mudos.
Ossatura pendurada De alguém insepulto.
Deixa eles, cinamomo! Não sabem da primavera…
Teus brotos pequenos Vingando verdes das amputações violentas Dirão aos que estavam certos da tua morte: Vassalos do útil, vocês não podem arrancar a vida!
Quantas vezes te mataram, cinamomo? Quantas vezes morri também? Os olhos dos verdugos são de gelo Como a ausência da Justiça....
Mas os sabres de fogo do tempo Logo ceifarão os cínicos da hora. Em breve, cinamomo, nossa copa solene Estará pronta para a simplicidade dos ninhos, Para o carinho dos ventos E para o sono dos ébrios...