Foto: Maurício da Rosa Ávila. Março de 2021, Tapes/RS
Eu hoje descobri o silêncio.
Ele é claro como uma manhã de outono. Há nele árvores E uma lagoa serena.
Pequeno bando de garças Cruza o céu Na direção de seu trabalho diário De espiar e colher peixes.
Nele há vento, cheiro de mato E nada para fazer.
Hoje eu descobri o silêncio.
E, na hora mesma em que o descobri, Uma garoa veio insistir Causando em mim breve estranhamento.
Olhei o entorno.
No silêncio encontrei uma figueira. Sentei-me em um galho seu, Desses que parecem braços de gente.
O João-de-Barro catando pequenos ciscos pela grama Veio ter a meu lado. Olhou-me com breve espanto. Não acreditou que lhe fosse fazer algum mal E seguiu o curso de sua vida Como sempre.
Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021.
Prédios lançam mil olhos Pelas janelas do meu apartamento.
Lua sobre o Bonfim Esgueira-se por entre as ruas: Porto Alegre vem me contar segredos Em meio aos silêncios da noite.
Longes barulhos de luzes Subindo e descendo No escuro de um céu de chumbo: Estrelas mecanizadas Suspirando turbinas Nos desvãos da madrugada.
Eu não fumo. Meu vizinho sim. E enquanto eu escrevo e ele fuma Percorre nosso ser O mesmo espanto metafísico Que eu tento dizer E ele tenta fumar.
Todos dormem. E enquanto dormem, Corro atrás do coelho branco Para chegar atrasado a um chá, Mas não do chapeleiro maluco: Suponho mais maravilhas que Alice…
O executivo dorme. O Senhor Diretor dorme. O cura dorme. O estivador dorme. E nisso todas as pretensões suas Ao cabide, com as roupas de ontem, Levemente balançando Com a brisa que entra pela fresta Da janela esquecida aberta.
O mundo é meu, não deles.
Amanhã, despertando cedo, Revisarão os deveres enquanto escovam os dentes. Vestirão roupas limpas, Repetindo as pretensões. Ou vestirão pretensões também limpas, Mandando as velhas para lavanderia Com as roupas de ontem.
E, então, o mundo será novamente deles...
Até que uma nova noite venha. Meu vizinho fume. E eu faça versos. O coelho branco apareça entre insônias. E a lua cheia derrame sua prata Sobre o sono de Porto Alegre.
Vida longa ao nosso rei: Ideologia! Altares são erguidos tacitamente em teu nome.
Senhor de tudo que sentimos, Jogas xadrez com nossas mentes. Brincamos de pensar, quando, em verdade, Prestamos reverência a tua odiosa coroa.
Oh, Grande Rei, que nos falas Por sob vestes de ideias sombrias, Do estrado cambiante da falácia! Na luta da vida, ovacionamos tuas palavras. Na guerra, irmãos, famílias E confrades travam contendas; E o sangue do amado na palma de nossas mãos É o triunfo do nosso monarca.
Oh, Rei Sol dos novos tempos! Quantos heróis vitoriosos, Privados do gozo da glória! Quantos inimigos vencidos, Eximidos da dor do fracasso! Quantos gênios relegados À miséria da heresia! Quantos energúmenos Jubilosos no poder! Para o único triunfo que é a força de tua coroa...
Enquanto o homem que nos habita, Exilou-se na caverna chamada mundo. Chora um pranto sincero de criança, Por isso a dor!
Chora seus confrades, Que caminham ingenuamente Ao abismo da subserviência Embalados pela flauta do seu déspota - Oh, Ideologia!
Chora a fortuna de não ser, Num mundo que não permite ser. Chora cada homem que tomba, Pois sabe que, depois da queda, Todos choram à procura Daquilo que há No ser igual a si mesmo.
Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021
Eu compreendo os cinamomos: Colunas hirtas de um império que não houve Pendendo copadas sombras sobre casas velhas de musgo.
É quando a brisa quente do tempo Espalha o gosto verde pelos cheiros das sestas, Quando as pequenas flores brancas Enleiam-se nos cachos das meninas de trança E as surpresas estão todas de chinelos, Que os machados sangram sua inveja Pela quentura dos fios.
Atrapalham o progresso dos concretos Suas grandes raízes com firmezas que nem os homens temos.
Eles morrem sem chorar. Gemem sem sangrar. Não honram os metais com nenhuma gota de seiva.
Seguem mudos.
Ossatura pendurada De alguém insepulto.
Deixa eles, cinamomo! Não sabem da primavera…
Teus brotos pequenos Vingando verdes das amputações violentas Dirão aos que estavam certos da tua morte: Vassalos do útil, vocês não podem arrancar a vida!
Quantas vezes te mataram, cinamomo? Quantas vezes morri também? Os olhos dos verdugos são de gelo Como a ausência da Justiça....
Mas os sabres de fogo do tempo Logo ceifarão os cínicos da hora. Em breve, cinamomo, nossa copa solene Estará pronta para a simplicidade dos ninhos, Para o carinho dos ventos E para o sono dos ébrios...
Que pensar dessas almas de hoje, Coitadas, nunca cravaram espinho no pé. Seres esbranquiçados pelo calcário moderno Verdejam competências Para a importância das coisas inúteis.
Posso eu esperar o que Desses meninos de olheiras pretas? Piedade destes que não conhecem o sentido De uma bola velha murcha, alguns amigos e a rua. Eles não sabem sujar a roupa...
Pranto compassivo por estas crianças Guardadas nas gavetas devidas; Estorvos de um tempo Em que a imaginação é inútil; Bonecos velhos de pano Guardados em baús – só que de pedra.
Quem valerá por essas almas infantes E tomará para elas a alforria Destes homens sisudos que lhes dão compromissos Quando deveriam lhes dar goiabas?
Querem, meu Deus, que seus filhos tenham sucesso... Ah, o sucesso para uma criança... Um chapéu de jornal velho e uma espada de pau; Isto tudo e um quintal de quinquilharias bastam Para que, em uma tarde, Conquiste-se o reinado da Escócia, A tempo ainda de tomar banho e jantar.
O melhor da classe? Adultos doentes sempre estão às voltas com isso, E por que não podem, forçam os filhos a podê-lo.
Deixemos em paz nossos pequenos. Que a imaginação de criança É a experiência mais próxima Que, nesta vida, teremos de Deus.
Foto: Paula Steil Machado. Tapes/RS. Brasil. Janeiro, 2021.
Havia no sol, ontem, uma insistência nova Na maneira de aquecer dos raios. Prenúncio de outra estação No movimento das harmonias. E um sabor de mil verões, Que o gosto das memórias traz à alma.
Enrubescem-se as vontades, Com sangue novo que verte Dos instintos despertos. As paixões têm mais sentido, O sentido mais essência. Mais vigor, cada alvorada.
Noites vagam incautas Pelas ruelas das vilas Deixando o rastro, descuidadas, Destas brisas pequeninas, Que vez em quando, travessas, Perdem-se nalguma folhagem.
Retine a prata da lua cheia Em cada pupila que sonha Novos dias siderais escondidos Sob o escuro manto Das distâncias do infinito.