Eu hoje descobri o silêncio

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Março de 2021, Tapes/RS
Eu hoje descobri o silêncio.

Ele é claro como uma manhã de outono.
Há nele árvores
E uma lagoa serena.

Pequeno bando de garças
Cruza o céu
Na direção de seu trabalho diário
De espiar e colher peixes.

Nele há vento, cheiro de mato
E nada para fazer.

Hoje eu descobri o silêncio.

E, na hora mesma em que o descobri,
Uma garoa veio insistir
Causando em mim breve estranhamento.

Olhei o entorno.

No silêncio encontrei uma figueira.
Sentei-me em um galho seu,
Desses que parecem braços de gente.

O João-de-Barro catando pequenos ciscos pela grama
Veio ter a meu lado.
Olhou-me com breve espanto.
Não acreditou que lhe fosse fazer algum mal
E seguiu o curso de sua vida
Como sempre.

Eu sentado.
Olhando o mundo.

Pensando...

Em nada.

Apenas que hoje eu descobri o silêncio.

30.03.2021

Réveillon

Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021.
Prédios lançam mil olhos
Pelas janelas do meu apartamento.

Lua sobre o Bonfim
Esgueira-se por entre as ruas:
Porto Alegre vem me contar segredos
Em meio aos silêncios da noite.

Longes barulhos de luzes
Subindo e descendo
No escuro de um céu de chumbo:
Estrelas mecanizadas
Suspirando turbinas
Nos desvãos da madrugada.

Eu não fumo.
Meu vizinho sim.
E enquanto eu escrevo e ele fuma
Percorre nosso ser
O mesmo espanto metafísico
Que eu tento dizer
E ele tenta fumar.

Todos dormem.
E enquanto dormem,
Corro atrás do coelho branco
Para chegar atrasado a um chá,
Mas não do chapeleiro maluco:
Suponho mais maravilhas que Alice…

O executivo dorme.
O Senhor Diretor dorme.
O cura dorme.
O estivador dorme.
E nisso todas as pretensões suas
Ao cabide, com as roupas de ontem,
Levemente balançando
Com a brisa que entra pela fresta
Da janela esquecida aberta.

O mundo é meu, não deles.

Amanhã, despertando cedo,
Revisarão os deveres enquanto escovam os dentes.
Vestirão roupas limpas,
Repetindo as pretensões.
Ou vestirão pretensões também limpas,
Mandando as velhas para lavanderia
Com as roupas de ontem.

E, então, o mundo será novamente deles...

Até que uma nova noite venha.
Meu vizinho fume.
E eu faça versos.
O coelho branco apareça entre insônias.
E a lua cheia derrame sua prata
Sobre o sono de Porto Alegre.

30.12.2017

Ideologia

Arte (?): Maurício da Rosa Ávila. 21.03.2021
Vida longa ao nosso rei: Ideologia!
Altares são erguidos tacitamente em teu nome.

Senhor de tudo que sentimos,
Jogas xadrez com nossas mentes.
Brincamos de pensar, quando, em verdade,
Prestamos reverência a tua odiosa coroa.

Oh, Grande Rei, que nos falas
Por sob vestes de ideias sombrias,
Do estrado cambiante da falácia!
Na luta da vida, ovacionamos tuas palavras.
Na guerra, irmãos, famílias
E confrades travam contendas;
E o sangue do amado na palma de nossas mãos
É o triunfo do nosso monarca.

Oh, Rei Sol dos novos tempos!
Quantos heróis vitoriosos,
Privados do gozo da glória!
Quantos inimigos vencidos,
Eximidos da dor do fracasso!
Quantos gênios relegados
À miséria da heresia!
Quantos energúmenos
Jubilosos no poder!
Para o único triunfo
que é a força de tua coroa...

Enquanto o homem que nos habita,
Exilou-se na caverna chamada mundo.
Chora um pranto sincero de criança,
Por isso a dor!

Chora seus confrades,
Que caminham ingenuamente
Ao abismo da subserviência
Embalados pela flauta do seu déspota - Oh, Ideologia!

Chora a fortuna de não ser,
Num mundo que não permite ser.
Chora cada homem que tomba,
Pois sabe que, depois da queda,
Todos choram à procura
Daquilo que há
No ser igual a si mesmo.


Outubro 2003

Cinamomos

Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021
Eu compreendo os cinamomos:
Colunas hirtas de um império que não houve
Pendendo copadas sombras sobre casas velhas de musgo.

É quando a brisa quente do tempo
Espalha o gosto verde pelos cheiros das sestas,
Quando as pequenas flores brancas
Enleiam-se nos cachos das meninas de trança
E as surpresas estão todas de chinelos,
Que os machados sangram sua inveja
Pela quentura dos fios.

Atrapalham o progresso dos concretos
Suas grandes raízes com firmezas que nem os homens temos.

Eles morrem sem chorar.
Gemem sem sangrar.
Não honram os metais com nenhuma gota de seiva.

Seguem mudos.

Ossatura pendurada
De alguém insepulto.

Deixa eles, cinamomo!
Não sabem da primavera…

Teus brotos pequenos
Vingando verdes das amputações violentas
Dirão aos que estavam certos da tua morte:
Vassalos do útil, vocês não podem arrancar a vida!

Quantas vezes te mataram, cinamomo?
Quantas vezes morri também?
Os olhos dos verdugos são de gelo
Como a ausência da Justiça....

Mas os sabres de fogo do tempo
Logo ceifarão os cínicos da hora.
Em breve, cinamomo, nossa copa solene
Estará pronta para a simplicidade dos ninhos,
Para o carinho dos ventos
E para o sono dos ébrios...

A Coisa

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Praia da Pinvest. Tapes/RS. Fevereiro/2021
Há quem veja na Coisa
A que pusemos o nome de Vida
O aleatório.

O acaso regulando ordenadamente
Estações, bichos e gentes
Num compasso onde não há
Quem dê o ritmo.

Eu, por minha conta,
Peguei Deus e a Vida
Um em cada mão;

Fui até o pátio
E despejei-os fora
De tudo que haviam posto neles dentro.

Levei-os de novo para casa
Como dois baldes vazios
Para neles por o que me aprouvesse bem.

Não fiz conta do jogado fora:
Tagarelices sobre eles.

O que importa do balde é a borda
E não que se ponha um nome
Para enchê-los dentro.

18.02.2021

Ao Reinado da Escócia

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Dezembro, 2020.
Que pensar dessas almas de hoje,
Coitadas, nunca cravaram espinho no pé.
Seres esbranquiçados pelo calcário moderno
Verdejam competências 
Para a importância das coisas inúteis.

Posso eu esperar o que
Desses meninos de olheiras pretas?
Piedade destes que não conhecem o sentido
De uma bola velha murcha, alguns amigos e a rua.
Eles não sabem sujar a roupa...

Pranto compassivo por estas crianças
Guardadas nas gavetas devidas;
Estorvos de um tempo
Em que a imaginação é inútil;
Bonecos velhos de pano
Guardados em baús – só que de pedra.

Quem valerá por essas almas infantes
E tomará para elas a alforria
Destes homens sisudos que lhes dão compromissos
Quando deveriam lhes dar goiabas?

Querem, meu Deus, que seus filhos tenham sucesso...
Ah, o sucesso para uma criança...
Um chapéu de jornal velho e uma espada de pau;
Isto tudo e um quintal de quinquilharias bastam
Para que, em uma tarde,
Conquiste-se o reinado da Escócia,
A tempo ainda de tomar banho e jantar.

O melhor da classe?
Adultos doentes sempre estão às voltas com isso,
E por que não podem, forçam os filhos a podê-lo.

Deixemos em paz nossos pequenos.
Que a imaginação de criança
É a experiência mais próxima
Que, nesta vida, teremos de Deus.

O mar

*A cidade de Torres – RS

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Torres/RS. Dezembro, 2014.
Tive, por algum tempo, o mar
Pelas ruas de minha casa,
Debruçado nas janelas.

Senti-o
No vento das tardes cálidas,
Visitando o absurdo dos sonhos.

Quantas vezes foi a misericórdia dos cansaços?
Nem lembro...

Agora...

Agora, hei de partir!
E ao meu destino chegarei,
Por culpa dele,
Aos poucos.

Aos pedaços.

Será penoso acostumar a alma
A não querê-lo nos olhos
Pelos largos fins de tarde.

Novembro de 2015

À flor d’água

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Tapes/RS, Janeiro, 2021
O peixe belisca a flor da água.
A garça o espia do galho.
O peixe sabe da garça
E a garça sabe voar.

Só eles.
Vento.

O peixe volta ao fundo.
Desliza a garça no ar.

Pouso elegante na margem.
Há silêncio em seu andar.
A garça sabe do peixe
O peixe não sabe do mar.

Segue um andar cuidadoso
Até o rio alcançar.
O peixe volta à flor d'água:
Garça não sabe nadar.

É um anseio antiquíssimo,
De um outro mundo alcançar.
Que traz o peixe de volta
E a garça, calma, esperar.

Ela já está dentro d'água
E o peixe a se insinuar.
Não sabe ele, coitado,
Que céu de peixe é mar.

Volta, então, ansioso,
A flor d'água beliscar.
Fome de garça é peixe,
Que sai com ele a voar.

Fazia troça, o peixe:
Garça não sabe nadar!
E ela, em sua espera,
Do outro escondia o voar.

Fazemos troça da vida,
Sonhando um além encontrar.
Distraímos que, como a garça,
Sabe a morte também voar.

15.01.2020

Verão

Foto: Paula Steil Machado. Tapes/RS. Brasil. Janeiro, 2021.
Havia no sol, ontem, uma insistência nova
Na maneira de aquecer dos raios.
Prenúncio de outra estação
No movimento das harmonias.
E um sabor de mil verões,
Que o gosto das memórias traz à alma.

Enrubescem-se as vontades,
Com sangue novo que verte
Dos instintos despertos.
As paixões têm mais sentido,
O sentido mais essência.
Mais vigor, cada alvorada.

Noites vagam incautas
Pelas ruelas das vilas
Deixando o rastro, descuidadas,
Destas brisas pequeninas,
Que vez em quando, travessas,
Perdem-se nalguma folhagem.

Retine a prata da lua cheia
Em cada pupila que sonha
Novos dias siderais escondidos
Sob o escuro manto
Das distâncias do infinito.

04.11.2011