Réveillon

Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021.
Prédios lançam mil olhos
Pelas janelas do meu apartamento.

Lua sobre o Bonfim
Esgueira-se por entre as ruas:
Porto Alegre vem me contar segredos
Em meio aos silêncios da noite.

Longes barulhos de luzes
Subindo e descendo
No escuro de um céu de chumbo:
Estrelas mecanizadas
Suspirando turbinas
Nos desvãos da madrugada.

Eu não fumo.
Meu vizinho sim.
E enquanto eu escrevo e ele fuma
Percorre nosso ser
O mesmo espanto metafísico
Que eu tento dizer
E ele tenta fumar.

Todos dormem.
E enquanto dormem,
Corro atrás do coelho branco
Para chegar atrasado a um chá,
Mas não do chapeleiro maluco:
Suponho mais maravilhas que Alice…

O executivo dorme.
O Senhor Diretor dorme.
O cura dorme.
O estivador dorme.
E nisso todas as pretensões suas
Ao cabide, com as roupas de ontem,
Levemente balançando
Com a brisa que entra pela fresta
Da janela esquecida aberta.

O mundo é meu, não deles.

Amanhã, despertando cedo,
Revisarão os deveres enquanto escovam os dentes.
Vestirão roupas limpas,
Repetindo as pretensões.
Ou vestirão pretensões também limpas,
Mandando as velhas para lavanderia
Com as roupas de ontem.

E, então, o mundo será novamente deles...

Até que uma nova noite venha.
Meu vizinho fume.
E eu faça versos.
O coelho branco apareça entre insônias.
E a lua cheia derrame sua prata
Sobre o sono de Porto Alegre.

30.12.2017

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