Foto: Maurício da Rosa Ávila. Tapes/RS, Janeiro, 2021
O peixe belisca a flor da água.
A garça o espia do galho.
O peixe sabe da garça
E a garça sabe voar.
Só eles.
Vento.
O peixe volta ao fundo.
Desliza a garça no ar.
Pouso elegante na margem.
Há silêncio em seu andar.
A garça sabe do peixe
O peixe não sabe do mar.
Segue um andar cuidadoso
Até o rio alcançar.
O peixe volta à flor d'água:
Garça não sabe nadar.
É um anseio antiquíssimo,
De um outro mundo alcançar.
Que traz o peixe de volta
E a garça, calma, esperar.
Ela já está dentro d'água
E o peixe a se insinuar.
Não sabe ele, coitado,
Que céu de peixe é mar.
Volta, então, ansioso,
A flor d'água beliscar.
Fome de garça é peixe,
Que sai com ele a voar.
Fazia troça, o peixe:
Garça não sabe nadar!
E ela, em sua espera,
Do outro escondia o voar.
Fazemos troça da vida,
Sonhando um além encontrar.
Distraímos que, como a garça,
Sabe a morte também voar.
15.01.2020