Sensorium III

Que poderia dizer do frio que minhas carnes não saibam...

Mas não é a elas que falo, senão à alma que tenho.
O inverno traz outro gosto à cevadura das horas,
E os instantes aguardam estios às janelas das casas.

Em me recolhendo tanto chego a estar no espírito.
Olho de mim para o cenho franzido do dia
- O tempo parece mais taciturno.
Sol tímido espia tardes frias
Por entre o peso argênteo do céu invernal.

Luzes por dentro das casas vistas da rua
Dormem ao vento gelado que cala a vida.
Todos cultivam em sonos
Esperanças de manhãs mais trigueiras.

Translucidez negra desenha a abóboda de um céu
Que ao inverno deu em estrelado.
Lua minguante profusa em claridades mais tímidas
Traz do absoluto mais infinito
Para o sentido de infinito que já há na paisagem.

Horas mais eternas.

Harmonias azuis distribuem cantigas insuspeitas,
Ressoando o arpejo frondoso que há nas copas
Das árvores mais altas pintadas de manhã.

Saudades mais queridas falam ao peito
De verdades a tanto esperadas.
Ansiedades morrem ao toque dessas coisas
Cessando procuras que eram fermento de ilusão.

O ser percebe a Verdade no belo que vê.
E sentindo-se, então, parte também do concerto,
Sabe-se elemento essencial de verdade.

- Intimidade mais estreita no coração com aquilo que é Deus.

Meu filho bilíngue

Lastimo meu filho, coitado,
Ele não é bilíngue.
Anda, corre, fala,
Mexe no que não deve,
Mas, coitado,
Ele não é bilíngue.

Que língua falas, meu filho?
O que significam teus choros?
Pedes o que com essa birra?
Aquele risco na parede.
O brinquedo arremessado.
O que me dizes com tudo isso, meu filho?

Não sabes falar,
Ou eu não sei te escutar?
Ah, se fosses bilíngue,
Tudo então estaria resolvido;
Mas não falas como costumo entender.

Eu já sou bilíngue.
Já tenho meus diplomas.
Um dia serás bilíngue, meu filho.
Então, saberemos conversar.

Tens esse mau hábito
Das crianças muito pequenas
De não falar por palavras.
Acabo por não te saber, meu filho,
Nem me fazer ouvir.

Resolveremos isso!
Em breve serás bilíngue.

Terás duas professoras.
Melhor, quatro ou cinco!
Aprenderás piano, violino, sax.
Aulas de natação à tarde,
E muitos amigos tentando
Também ser bilíngues
Para falar com seus pais.

Logo, meu filho,
Não terás tempo para perceber
Que não há tempo para nós.

É preciso que saibas
Que o tempo é curto,
E há muitas coisas por fazer
Antes que venha a morte.

Precisamos, rápido,
Eu e tu sermos bilíngues!

Dará um certo trabalho.
Mas, ao fim, ambos bilíngues,
Por fim nos saberemos.

Não percebes, meu filho,
Meus graves compromissos.
Um dia te-los-á também.
E lembrarás de teu velho pai
Sem tempo para andar descalço,
Ou tomar banho de chuva.

Por ora, não nos entendemos.
Porém, quando fores bilíngue,
Toda a verdade entre nós
Será esclarecida.

Tem paciência, meu filho!
Como é difícil…
Não sei porque não escutas
Quando te peço silêncio,
Ou que não sujes a roupa.

Abres a porta do escritório
Enquanto analiso gráficos...

Como é difícil te explicar…
Espera, meu filho, pai já vai!
Estou quase terminando.
Agora não, pai está trabalhando.
Depois, meu filho, estou falando
Com um cliente importante.

Mas não me escutas…
Como é difícil…
Resolveremos a questão.
Buscarei para você
Uma escola bilíngue!

Só então, meu filho,
Falaremos a mesma língua!

Quebraste a tela do meu computador, meu filho!
Meu filho, por que o celular está no aquário?!
É, bem, isto já chegou no limite.
Farás aulas de alemão pela manhã.
À tarde, aulas de inglês.

Quando chegares, então,
Aos quatro anos de idade,
Faremos um perfil no lattes,
Meu filho, acho que isso
Também te inquieta, não?

Pois bem, hoje mesmo
Comprarei uma agenda,
Daquelas bem grandes,
Onde caibam bastantes coisas
Durante todos os dias.

É imperioso, meu filho,
Não haver nenhum tempo,
De modo a não sentir
Que não sabemos nos entender.

- Revoltas da adolescência -

08.05.2020

Outra coisa

Ontem eu nasci.
Não de novo.

Minha velha criança
Abriu os olhos pela primeira vez
Em outro mundo.

Nele o sol tinha um jeito
De correria na rua.
E a chuva
Cheirava à pipoca doce
Dentro de casa.

Os passarinhos cantavam igual,
Mas dentro de mim.
Não estavam mais presos
Nas gaiolas tristes das desatenções.

O vento corria nu
Pelos jardins das casas.

Lá era proibido importunar as tardes;
Elas eram das lebres
Dormindo suas sestas
Pelos arbustos do prado.

Os verões
Pareciam arrulhos de pombas
E trinados de cigarra,
Por vezes, na mesma árvore.

Meu trabalho,
Quando não brincava,
Era pescar minhocas
Para dar aos peixes,
Atrapalhando a solidão das garças.

Os homens sérios eram fantasmas
Quase invisíveis.

Aqueles que estavam mortos
Olhavam-me com sisudez
Pelo despeito de eu estar ali
Desmanchando suas arrumações.

Acusavam-me de ser muito pequeno
Para saber usar suas suposições.

Fazia pouco caso...

Os loucos, lá, não eram chatos
Em seus delírios inocentes.

E o povo era governado
Por um conselho de anciãos,
Todo eles
A jogar damas na praça.

Às vezes, cortavam-se as casas dos passarinhos
Para se fazer casas de gente.

Eu ficava triste,
Mas logo passava
Quando lembrava
Que eles sabiam voar.

Consola-me a paz de saber
Que dessa vida não morro.

Nessa minha outra coisa,
O mundo é todo o lugar.
O tempo sempre.

E não há Deus,
Porque ele já mora lá.

17.04.2021