Sensorium III

Que poderia dizer do frio que minhas carnes não saibam...

Mas não é a elas que falo, senão à alma que tenho.
O inverno traz outro gosto à cevadura das horas,
E os instantes aguardam estios às janelas das casas.

Em me recolhendo tanto chego a estar no espírito.
Olho de mim para o cenho franzido do dia
- O tempo parece mais taciturno.
Sol tímido espia tardes frias
Por entre o peso argênteo do céu invernal.

Luzes por dentro das casas vistas da rua
Dormem ao vento gelado que cala a vida.
Todos cultivam em sonos
Esperanças de manhãs mais trigueiras.

Translucidez negra desenha a abóboda de um céu
Que ao inverno deu em estrelado.
Lua minguante profusa em claridades mais tímidas
Traz do absoluto mais infinito
Para o sentido de infinito que já há na paisagem.

Horas mais eternas.

Harmonias azuis distribuem cantigas insuspeitas,
Ressoando o arpejo frondoso que há nas copas
Das árvores mais altas pintadas de manhã.

Saudades mais queridas falam ao peito
De verdades a tanto esperadas.
Ansiedades morrem ao toque dessas coisas
Cessando procuras que eram fermento de ilusão.

O ser percebe a Verdade no belo que vê.
E sentindo-se, então, parte também do concerto,
Sabe-se elemento essencial de verdade.

- Intimidade mais estreita no coração com aquilo que é Deus.