Que poderia dizer do frio que minhas carnes não saibam... Mas não é a elas que falo, senão à alma que tenho. O inverno traz outro gosto à cevadura das horas, E os instantes aguardam estios às janelas das casas. Em me recolhendo tanto chego a estar no espírito. Olho de mim para o cenho franzido do dia - O tempo parece mais taciturno. Sol tímido espia tardes frias Por entre o peso argênteo do céu invernal. Luzes por dentro das casas vistas da rua Dormem ao vento gelado que cala a vida. Todos cultivam em sonos Esperanças de manhãs mais trigueiras. Translucidez negra desenha a abóboda de um céu Que ao inverno deu em estrelado. Lua minguante profusa em claridades mais tímidas Traz do absoluto mais infinito Para o sentido de infinito que já há na paisagem. Horas mais eternas. Harmonias azuis distribuem cantigas insuspeitas, Ressoando o arpejo frondoso que há nas copas Das árvores mais altas pintadas de manhã. Saudades mais queridas falam ao peito De verdades a tanto esperadas. Ansiedades morrem ao toque dessas coisas Cessando procuras que eram fermento de ilusão. O ser percebe a Verdade no belo que vê. E sentindo-se, então, parte também do concerto, Sabe-se elemento essencial de verdade. - Intimidade mais estreita no coração com aquilo que é Deus.
