Relva*

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Tapes/RS

Via somente meus pés andando e distribuindo passos pela trilha. Parecia ser uma trilha em uma campina ou no sopé de um monte, não recordo bem. Eu era algo sobre esses pés. Eu era o que via esses pés andarem e era carregado por eles. O vento soprava da cor do sol leve. As folhas das árvores dançavam com as nuvens num chão que era céu. Ao lado de meus pés caminhava minha gata que atendia pelo nome de Madalena. Ladeava o caminho de relva uma mata de onde nascia cantiga de rio. Meu amor estava comigo. Ela passeava despreocupada observando as flores desconhecidas, as borboletas e as aves que cruzavam em seus bandos rumo ao horizonte. Em largos suspiros, flutuavamos na ausência do passado. Não que estivéssemos redimidos. Nada havia de que se redimir – a culpa não era uma palavra naquele lugar. O silêncio era onipresente. Silêncio tecendo de veludo o mistério. Silêncio sem gente que me trouxe uma paz parecida com Deus. Caminhávamos. Somente caminhávamos entre céu, árvores, chão, agreste cheiro de todas as coisas que, ao fim, acaba um só: carqueja. Aquele gosto de vida nas narinas tornando o demais dispensável. Caminhávamos. Chegar não nos interessava. Palavras mesmo não trocamos entre nós. Nem sei se naquele lugar havia palavras. Só cheiro, cores, cores de uma luz branda que não se encontra em outro lugar de tão intensa brandura. Naquele lugar, não era preciso falar. A palavra logo sufocaria em suas vasilhas a imensidão daquele instante – talvez por isso os anjos não falam. Li em algum lugar que eles não falam. Enfim, compreendo. Minha gata roçou minhas pernas e logo foi ao encontro de meu amor. Deitaram-se na relva. Ficaram a olhar o céu e a brincar com nuvens. Um gafanhoto apareceu de repente na grama. Madalena rastejou até ele lentamente como um felino em meio à savana e pulou sedenta sobre a suposta caça que escapou para um arbusto ali perto. Madalena seguiu seu intento obstinada e saltou novamente sobre a presa que então fugiu em minha direção. Com o reflexo e a rapidez dos gatos, Madalena avançou violentamente saltando sobre mim para apanhar seu gafanhoto. Eu me desequilibrei e caí. Acordei. No chão do quarto, um pouco assustado, demorei a perceber que caí. Vi as costas nuas e alvas de meu amor respirando leve, dormindo em seu lado da cama, talvez ainda passeando naquela relva. Minha gata, também sobre a cama, rolava com um brinquedo que meus filhos esqueceram por ali na noite anterior. Segurava-o com suas patas dianteiras atirando-o para cima para deixá-lo novamente cair sob seu jugo. Pobrezinha, tinha dificuldades para ficar em pé depois que uma das patas traseiras foi totalmente amputada para retirada de um tumor repentino. Até que se saía bem com as três que lhe restaram. De tanto saltar e se debater acabou por me derrubar da cama provavelmente. Olhei rápido para o relógio na cabeceira e vi que era tarde. Já estava atrasado para não ir. O real me esperava sem relva. E à Madalena, sem uma pata.

* O texto está escrito em bloco por opção de estilo.