Nunca foi tão necessário ao humano pôr-se de acordo consigo como agora.
Narciso, hoje, está só.
Sequer lhe resta o consolo de afogar-se nas águas de sua imagem.
Foi-lhe retirada a possibilidade do espelho.
O que diz a humanidade de si
Quando as aparências estão ao cabide
Com os ternos e as roupas de grife?
Como faz para suportar a si mesmo
Aquele para quem os títulos são inócuos ante a angústia iminente?
Aquele que por palavras convenceu tantos, mas nunca a si mesmo;
Como responde às suas insônias?
Ele, posto diante da morte em hora inoportuna,
Como irá se haver com ela?
A morte, agora, espreitando seus sonhos;
E ele, tão prolífico em ciência, só responde com ódio, medo e desespero…
Ronda os silêncios de sua habitação,
Como fantasmagoria, a pergunta:
O que fez até aqui?
Mas não há resposta.
Luta para agarrar-se ao concebido como realidade,
Mas o pensamento o traga em uma onda invencível para o caos de dentro.
O personagem vive em suspenso.
O que sobra?
Como ser?
O que é ser?
Ser para quê?
É possível não ser?
Narciso descobre hoje um mundo novo para além do espelho.
Tudo era imagem.
Imagem de si.
Suposto.
Suposto de si.
A realidade era um eu torto.
Por um instante, dirige o olhar à ninfa que o chama,
Mas não sabe amá-la.
Narciso olha ao redor,
Mas não sabe reconhecer o que vê.
O impossível.
O inominável.
A angústia.
Olha para si, não mais no espelho,
Mas a partir de si.
De que és feito, Narciso?
De que prazer e medo partiram teus anseios?
Qual foi a estrada do teu caminho?
Não há como retroceder.
Aquel’outra realidade era delírio.
Ilusão.
Este nada que hoje és tu,
É a matéria disponível para seguir.
Esse oco que hoje é a alma,
É o único lugar que te sobrou por casa.
A palavra está contigo, Narciso!
O significado também é teu.
E o mundo é feito daquilo que não disseste.
Tua fala é do, até hoje, não dito.
Não serve o idioma de antes.
Não há quem ouça.
Como farás para te pores de acordo contigo?
Quem és tu, Narciso?
21.07.2020