
Vemos Deus com a cor de nossos olhos, Mas ele é outro. Há os que o buscam em templos. Os que seguem liturgias. Os que reviram livros sagrados. Há também os que descreem. Eu Cato conchas na praia com meus filhos E sei o infinito. Pego a eternidade na mão Por um breve tempo E fico a admirar O acaso bonito e inesperado Das cores e formas. Deus me espia Por entre os buracos das pedras Arisco como os caranguejos. Voa, de repente, com as gaivotas Quando uma ânsia de liberdade Não cabe mais no chão. Atira-se com a força das marés Contra as falésias antigas Cobrindo meu rosto de brisa salgada. E deita suspiros mansos Nas maretas que me cobrem os pés De sossego e sal. Volta para casa com os pescadores Que dançam cansaços Em barcos humildes Vistos da margem. - Vamos embora, papai? - Vamos, filho. Deus me acena com as ondas E se joga do poente Com o sol. Fica para trás um cheiro de mar. Fica também o sono meu e de meus filhos Cheios de sonhos de criança; Daqueles que se contam pela manhã ao acordar. Há os que creem E os que descreem. Eu cato conchas com meus filhos na praia E sei o infinito.
