O texto tem de ser curto.
Não há tempo para ler.
O trabalho, objetivo.
Linha de produção.
Criatividade morta
Em tempos de eficiência.
O ócio é crime
De lesa-majestade.
Meu avô, com sua sesta
E seu chimarrão demorado
Nas tardes mornas de primavera
Deve arder, agora,
Em algum inferno de eficientes.
Coitado, ele que tinha tempo
Para me perguntar como anda a escola
E fazer cavacos à tardinha
Antes de acender o fogão a lenha
Deve lamentar
Não fazer parte do mundo moderno.
E minha avó, então!
Para ela a novela das oito
E o programa de rádio do meio-dia
Eram momentos litúrgicos
Tal como a missa das seis;
Hoje, certamente, pena por aí
Em algum purgatório
De gestores de tempo.
A espera foi embora.
Os abraços são rápidos.
Os beijos, pragmáticos.
Os namoros, virtuais.
A vida, exangue
Para gente que foge do tempo
Estando sempre adiante dele.
O cansaço tem sido a alma do corpo.
Que poderia dizer do frio que minhas carnes não saibam...
Mas não é a elas que falo, senão à alma que tenho.
O inverno traz outro gosto à cevadura das horas,
E os instantes aguardam estios às janelas das casas.
Em me recolhendo tanto chego a estar no espírito.
Olho de mim para o cenho franzido do dia
- O tempo parece mais taciturno.
Sol tímido espia tardes frias
Por entre o peso argênteo do céu invernal.
Luzes por dentro das casas vistas da rua
Dormem ao vento gelado que cala a vida.
Todos cultivam em sonos
Esperanças de manhãs mais trigueiras.
Translucidez negra desenha a abóboda de um céu
Que ao inverno deu em estrelado.
Lua minguante profusa em claridades mais tímidas
Traz do absoluto mais infinito
Para o sentido de infinito que já há na paisagem.
Horas mais eternas.
Harmonias azuis distribuem cantigas insuspeitas,
Ressoando o arpejo frondoso que há nas copas
Das árvores mais altas pintadas de manhã.
Saudades mais queridas falam ao peito
De verdades a tanto esperadas.
Ansiedades morrem ao toque dessas coisas
Cessando procuras que eram fermento de ilusão.
O ser percebe a Verdade no belo que vê.
E sentindo-se, então, parte também do concerto,
Sabe-se elemento essencial de verdade.
- Intimidade mais estreita no coração com aquilo que é Deus.