Foto: Maurício da Rosa Ávila. Santiago/RS. Nov.2023
Se interessa a todos, A mim já não interessa. Se todos gostam, A mim repugna O fato de todos gostarem.
O normal é uma desgraça.
A mim interessa o que passou. O esquecido. Os cacos. O bagaço da vida.
A mim interessa a fachada velha Dessas casas antigas Sustentando, No canto esquecido de um bairro, Trepadeiras E flores insuspeitas Colhidas por ninguém.
O que vejo ali em meu filho?
Um sonho fugidio
Outrora menino em mim?
Vejo um rosto
Para além do seu
Interpelando-me pelo que fiz da vida?
Vejo-me em meu filho?
Quero para ele
Todos os desejos esquecidos
Cobertos pela areia das horas?
Quero para ele
Tudo que quero?
Quero para ele
Tudo que quis e não pude?
Meu filho olha em meus olhos
E há ali,
Por detrás,
Um olhar estrangeiro.
Irreconhecível.
Não reconhecido.
Algo atravessando nosso amor
Com um nó na garganta:
O inesperado.
Fantasia.
Fantasma caído
De tudo que em mim não deu
Assombra nossos abraços.
Alguém me olha
Pelo olhar de meu filho
E se nega.
Não quer.
Não me quer.
Entre encontros inusitados,
Inesperados sorrisos,
Há uma fenda insolúvel:
Dois estranhos buscando abrigo.
Por trás do olhar de meu filho
Há alguém
Pedindo outra coisa,
Alheio ao meu próprio querer.
Por trás do olhar de meu filho
Há o radicalmente,
O insuperavelmente,
O infamiliarmente diverso.
Aquilo que, um dia,
Inevitavelmente marcará entre nós
A diferença.
O desencaixe.
Entre mim e meu filho
Há ele.
Impossivelmente ele.
Feito de tudo que não sou.
Tudo que não quero.
Tudo que não sei,
Nem posso saber.
Por trás do olhar de meu filho
Há ele.
Com pressa, tenho de deixar meus filhos na escola.
Com pressa, tenho de ir trabalhar.
É tarde.
Com pressa, trabalho
Para, com pressa, buscá-los na escola.
Com pressa, preciso entregar no prazo.
Com pressa, preciso que durmam.
Com pressa, tomo um banho rápido.
Com pressa, janto
Para, em seguida, dormir com pressa.
Com pressa, preparo um café
Para tomar em pé.
Leio manchetes.
Com pressa tomo uma ducha.
Há reunião de trabalho logo cedo.
Leio com pressa as mensagens
De quem nem espera a resposta.
As mensagens para mim, respondo-as rápido.
Rapidinho, até dou uma passada lá.
Só se for rápido,
Sem risco de haver prazer.
Aí, vou.
Para me demorar, não me esperem.
Estou com pressa.
Não tenho tempo
Para essas coisas que demoram tempo.
Filmes, livros, romance, lágrimas
Não habitam mais estes tempos.
Abraços, visitas, bobeira,
Nada para fazer, conversa fiada,
Gente nas calçadas até mais tarde rindo,
Namoros de portão, baralho nas tardes,
Chuva assistida da poltrona,
Pensamento solto
Com as fantasias de crianças
A invadir sonhos de gente grande,
Adivinhar formas nas nuvens,
Desperdiçar amenidades com um desconhecido
Enquanto se aguarda o ônibus.
Essas coisas que costumavam fazer em nós
Nossa humanidade,
Tudo nada mais vale.
Se eu parar para pensar... Não!
Melhor não pensar, senão terei de parar.
Não temos tempo a perder.
Nossa moeda é o tempo.
Temos de ser avaros.
Não desperdiçá-lo.
Muitas coisas
No menor tempo possível.
A emoção distrai.
Faz perdermos tempo.
Demora demais. É incerta no resultado.
Melhor é fazer no menor tempo
Sem sentir.
Rende mais.
À distância é mais seguro.
Virtualmente, melhor.
Não se perde tempo com perguntas tolas:
- "Vejo pelo seu rosto que algo não está bem.
Gostaria de falar?"
Melhor evitar.
Perde-se tempo.
Diria mesmo,
Melhor não olhar no olho.
Melhor ainda não olhar no rosto.
Sem rosto, a gente rende mais.
Sem gosto, a gente come menos.
Sem vida, a gente vive menos
E não perde tempo.
Porteira fechada. Vim ser homem da cidade. Dobradiça de ferro antiga Rangendo ao peso da saudade.
Cantiga triste de campo Trazendo à memória Retratos queridos De gente que não vive mais.
Silêncios da campanha…
O silêncio do pampa É um silêncio diverso. Silêncio na voz do vento Cantando no arame da trama.
Mamangava vigiando o buraco do oitão.
Silêncio alegre do alarido das caturritas Pelas bergamoteiras carregadas de fruto. Silêncio mais doce não há.
Silêncio da água nas pedras Denunciando o rastro da sanga Num fundo de mato.
Silêncio da pedra ancestral Nas tardes de verão morno Embalando as sestas dos lagartos.
Tapera antiga. Madeirame curtido da intempérie. Ganchos cobertos de ferrugem Para arreios gastos de campeiros que se foram.
No pampa, O silêncio fala E o tempo é saudade.
Chapéu de aba larga Com marcas de temporal. Poncho baeta Carregando o carnal por dentro.
Botas de lida Com suor de mil potros.
Insistência da memória. Aperos de meu avô.
Vim ser homem da cidade…
Espera! Espera por mim saudade! Leva o tempo por munício*. Mandei avisar no rádio: Chego 'inda pr'amanhã Enforquilhado num verso!
26.04.2022
*Munício: s. Gado de corte que segue as forças para a alimentação dos soldados. Rês, quase sempre terneira ou novilha, que é incorporada à tropa de gado vacum para ser abatida, durante a viagem, para a alimentação dos tropeiros. Gênero alimentício que o tropeiro conduz consigo para as necessidades da viagem. (Minidicionário Guasca. Zeno Cardoso Nunes e Rui Cardoso Nunes. Martins Livreiro. 4ª edição).
Lastimo meu filho, coitado, Ele não é bilíngue. Anda, corre, fala, Mexe no que não deve, Mas, coitado, Ele não é bilíngue.
Que língua falas, meu filho? O que significam teus choros? Pedes o que com essa birra? Aquele risco na parede. O brinquedo arremessado. O que me dizes com tudo isso, meu filho?
Não sabes falar, Ou eu não sei te escutar? Ah, se fosses bilíngue, Tudo então estaria resolvido; Mas não falas como costumo entender.
Eu já sou bilíngue. Já tenho meus diplomas. Um dia serás bilíngue, meu filho. Então, saberemos conversar.
Tens esse mau hábito Das crianças muito pequenas De não falar por palavras. Acabo por não te saber, meu filho, Nem me fazer ouvir.
Resolveremos isso! Em breve serás bilíngue.
Terás duas professoras. Melhor, quatro ou cinco! Aprenderás piano, violino, sax. Aulas de natação à tarde, E muitos amigos tentando Também ser bilíngues Para falar com seus pais.
Logo, meu filho, Não terás tempo para perceber Que não há tempo para nós.
É preciso que saibas Que o tempo é curto, E há muitas coisas por fazer Antes que venha a morte.
Precisamos, rápido, Eu e tu sermos bilíngues!
Dará um certo trabalho. Mas, ao fim, ambos bilíngues, Por fim nos saberemos.
Não percebes, meu filho, Meus graves compromissos. Um dia te-los-á também. E lembrarás de teu velho pai Sem tempo para andar descalço, Ou tomar banho de chuva.
Por ora, não nos entendemos. Porém, quando fores bilíngue, Toda a verdade entre nós Será esclarecida.
Tem paciência, meu filho! Como é difícil… Não sei porque não escutas Quando te peço silêncio, Ou que não sujes a roupa.
Abres a porta do escritório Enquanto analiso gráficos...
Como é difícil te explicar… Espera, meu filho, pai já vai! Estou quase terminando. Agora não, pai está trabalhando. Depois, meu filho, estou falando Com um cliente importante.
Mas não me escutas… Como é difícil… Resolveremos a questão. Buscarei para você Uma escola bilíngue!
Só então, meu filho, Falaremos a mesma língua!
Quebraste a tela do meu computador, meu filho! Meu filho, por que o celular está no aquário?! É, bem, isto já chegou no limite. Farás aulas de alemão pela manhã. À tarde, aulas de inglês.
Quando chegares, então, Aos quatro anos de idade, Faremos um perfil no lattes, Meu filho, acho que isso Também te inquieta, não?
Pois bem, hoje mesmo Comprarei uma agenda, Daquelas bem grandes, Onde caibam bastantes coisas Durante todos os dias.
É imperioso, meu filho, Não haver nenhum tempo, De modo a não sentir Que não sabemos nos entender.
Arte digital desenvolvida em interpretação livre sobre o poema pela artista plástica Bianca Pretto. Passo Fundo/RS. Março de 2021.
Prédios lançam mil olhos Pelas janelas do meu apartamento.
Lua sobre o Bonfim Esgueira-se por entre as ruas: Porto Alegre vem me contar segredos Em meio aos silêncios da noite.
Longes barulhos de luzes Subindo e descendo No escuro de um céu de chumbo: Estrelas mecanizadas Suspirando turbinas Nos desvãos da madrugada.
Eu não fumo. Meu vizinho sim. E enquanto eu escrevo e ele fuma Percorre nosso ser O mesmo espanto metafísico Que eu tento dizer E ele tenta fumar.
Todos dormem. E enquanto dormem, Corro atrás do coelho branco Para chegar atrasado a um chá, Mas não do chapeleiro maluco: Suponho mais maravilhas que Alice…
O executivo dorme. O Senhor Diretor dorme. O cura dorme. O estivador dorme. E nisso todas as pretensões suas Ao cabide, com as roupas de ontem, Levemente balançando Com a brisa que entra pela fresta Da janela esquecida aberta.
O mundo é meu, não deles.
Amanhã, despertando cedo, Revisarão os deveres enquanto escovam os dentes. Vestirão roupas limpas, Repetindo as pretensões. Ou vestirão pretensões também limpas, Mandando as velhas para lavanderia Com as roupas de ontem.
E, então, o mundo será novamente deles...
Até que uma nova noite venha. Meu vizinho fume. E eu faça versos. O coelho branco apareça entre insônias. E a lua cheia derrame sua prata Sobre o sono de Porto Alegre.