Borboletas

A meus filhos Martín e Santiago

Desenho: Maurício da Rosa Ávila, 2023.
Andam todos com pressa
Pressa de andar em frente
Pressa de não chegar
Angústia de permanecer.

Já tive pressa também.

Hoje ando lento
Olhando para trás a cada passo.

Eu hoje ando lento.

Preciso esperar um menino
Que vem sereno
Admirando as flores
E perseguindo borboletas.

Vem ele
Distraído com as pedras
E desconhecidos insetos
Que povoam suas pequenas descobertas.

Não há urgência em seu andar.

Passem adiante
Todos que querem seguir.
Passem adiante.

Eu hoje ando lento
Olhando para trás a cada passo.
Preciso esperar um menino
De quem fugi muito cedo.

Preciso esperar um menino
E não posso apressá-lo.
É ele que traz em suas mãos
A frágil argila do meu coração.

Distraído

Lua espalhando claridades
Pelos remansos da noite.

Estrelas.

Não há vento
E o escuro é infinito.
Dessa vida sinto apenas o jasmim:
Cheiro lilás em doçuras delicadas.

Passeio distraído pela rua.
Deus vê a mim sem que eu o perceba.
Intuo sua presença nas coisas
E sou pleno.

Pequena brisa toca de leve os cinamomos
E leva do meu peito todas as culpas.
Lavadeiras atentas derramam baldes nas calçadas do meu ser.
Lavam de escovas as lajes de mim – água fresca sobre a alma limpa.

Não preciso ou devo, nem quero ou tenho.
Apenas sou como vida e isso me basta.
Nesse instante, a noite transpassa-me o ser
E não sinto meu corpo.

A casa, o cinamomo da frente,
As pequenas pedras da rua, as estrelas,
O jasmim e os odores,
Tudo isso que compõe o enredo de minha calma de agora
Desaparece da vista como coisa de pegar.

Abraço, enfim, Deus
Como quem abraça o pai.
- Paz daquelas de voltar para casa -

Meu vizinho sai à frente ter também com a noite
E me acena.
Largo-lhe um sorriso em despedida.
Volto
E tranco a porta.


Imagino sonhos.
Meu sono não é de dormir.