Foto: Maurício da Rosa Ávila. Tapes/RS.
Ontem eu nasci.
Não de novo.
Minha velha criança
Abriu os olhos pela primeira vez
Em outro mundo.
Nele o sol tinha um jeito
De correria na rua.
E a chuva
Cheirava à pipoca doce
Dentro de casa.
Os passarinhos cantavam igual,
Mas dentro de mim.
Não estavam mais presos
Nas gaiolas tristes das desatenções.
O vento corria nu
Pelos jardins das casas.
Lá era proibido importunar as tardes;
Elas eram das lebres
Dormindo suas sestas
Pelos arbustos do prado.
Os verões
Pareciam arrulhos de pombas
E trinados de cigarra,
Por vezes, na mesma árvore.
Meu trabalho,
Quando não brincava,
Era pescar minhocas
Para dar aos peixes,
Atrapalhando a solidão das garças.
Os homens sérios eram fantasmas
Quase invisíveis.
Aqueles que estavam mortos
Olhavam-me com sisudez
Pelo despeito de eu estar ali
Desmanchando suas arrumações.
Acusavam-me de ser muito pequeno
Para saber usar suas suposições.
Fazia pouco caso...
Os loucos, lá, não eram chatos
Em seus delírios inocentes.
E o povo era governado
Por um conselho de anciãos,
Todo eles
A jogar damas na praça.
Às vezes, cortavam-se as casas dos passarinhos
Para se fazer casas de gente.
Eu ficava triste,
Mas logo passava
Quando lembrava
Que eles sabiam voar.
Consola-me a paz de saber
Que dessa vida não morro.
Nessa minha outra coisa,
O mundo é todo o lugar.
O tempo sempre.
E não há Deus,
Porque ele já mora lá.
17.04.2021