Borboletas

A meus filhos Martín e Santiago

Desenho: Maurício da Rosa Ávila, 2023.
Andam todos com pressa
Pressa de andar em frente
Pressa de não chegar
Angústia de permanecer.

Já tive pressa também.

Hoje ando lento
Olhando para trás a cada passo.

Eu hoje ando lento.

Preciso esperar um menino
Que vem sereno
Admirando as flores
E perseguindo borboletas.

Vem ele
Distraído com as pedras
E desconhecidos insetos
Que povoam suas pequenas descobertas.

Não há urgência em seu andar.

Passem adiante
Todos que querem seguir.
Passem adiante.

Eu hoje ando lento
Olhando para trás a cada passo.
Preciso esperar um menino
De quem fugi muito cedo.

Preciso esperar um menino
E não posso apressá-lo.
É ele que traz em suas mãos
A frágil argila do meu coração.

Meu filho bilíngue

Lastimo meu filho, coitado,
Ele não é bilíngue.
Anda, corre, fala,
Mexe no que não deve,
Mas, coitado,
Ele não é bilíngue.

Que língua falas, meu filho?
O que significam teus choros?
Pedes o que com essa birra?
Aquele risco na parede.
O brinquedo arremessado.
O que me dizes com tudo isso, meu filho?

Não sabes falar,
Ou eu não sei te escutar?
Ah, se fosses bilíngue,
Tudo então estaria resolvido;
Mas não falas como costumo entender.

Eu já sou bilíngue.
Já tenho meus diplomas.
Um dia serás bilíngue, meu filho.
Então, saberemos conversar.

Tens esse mau hábito
Das crianças muito pequenas
De não falar por palavras.
Acabo por não te saber, meu filho,
Nem me fazer ouvir.

Resolveremos isso!
Em breve serás bilíngue.

Terás duas professoras.
Melhor, quatro ou cinco!
Aprenderás piano, violino, sax.
Aulas de natação à tarde,
E muitos amigos tentando
Também ser bilíngues
Para falar com seus pais.

Logo, meu filho,
Não terás tempo para perceber
Que não há tempo para nós.

É preciso que saibas
Que o tempo é curto,
E há muitas coisas por fazer
Antes que venha a morte.

Precisamos, rápido,
Eu e tu sermos bilíngues!

Dará um certo trabalho.
Mas, ao fim, ambos bilíngues,
Por fim nos saberemos.

Não percebes, meu filho,
Meus graves compromissos.
Um dia te-los-á também.
E lembrarás de teu velho pai
Sem tempo para andar descalço,
Ou tomar banho de chuva.

Por ora, não nos entendemos.
Porém, quando fores bilíngue,
Toda a verdade entre nós
Será esclarecida.

Tem paciência, meu filho!
Como é difícil…
Não sei porque não escutas
Quando te peço silêncio,
Ou que não sujes a roupa.

Abres a porta do escritório
Enquanto analiso gráficos...

Como é difícil te explicar…
Espera, meu filho, pai já vai!
Estou quase terminando.
Agora não, pai está trabalhando.
Depois, meu filho, estou falando
Com um cliente importante.

Mas não me escutas…
Como é difícil…
Resolveremos a questão.
Buscarei para você
Uma escola bilíngue!

Só então, meu filho,
Falaremos a mesma língua!

Quebraste a tela do meu computador, meu filho!
Meu filho, por que o celular está no aquário?!
É, bem, isto já chegou no limite.
Farás aulas de alemão pela manhã.
À tarde, aulas de inglês.

Quando chegares, então,
Aos quatro anos de idade,
Faremos um perfil no lattes,
Meu filho, acho que isso
Também te inquieta, não?

Pois bem, hoje mesmo
Comprarei uma agenda,
Daquelas bem grandes,
Onde caibam bastantes coisas
Durante todos os dias.

É imperioso, meu filho,
Não haver nenhum tempo,
De modo a não sentir
Que não sabemos nos entender.

- Revoltas da adolescência -

08.05.2020