Resenhas sem sentido II

Série “Resenhas sem sentido”.

Brancura

Jon Fosse

Quem nunca se perguntou como veio parar no lugar onde está? Dificilmente nossas escolhas obedecem a uma linearidade. Ou melhor, obedecem a uma linearidade apenas suposta por nós. Quando, então,  nos deparamos com o inesperado, com o que não estava nos cálculos, aí vemos o quanto essa linearidade era suposta. Chegamos a um determinado ponto com a sensação de que fomos trazidos até ali por alguém distinto de nós. Algo como um mandado que se cumpre, mesmo sendo desconhecido mandante. 

O fato é que chegamos e temos de lidar com a realidade disso. 

Desamparo. Escuro e solidão de uma floresta. A neve e o frio dão o colorido da cena construída pelo texto: o desamparo da condição humana. O sem sentido de nossas escolhas que nos levam, muitas vezes, por caminhos enviesados e resultados sempre insatisfatórios, quando comparados aos nossos desejos. 

Sentimo-nos, então, impelidos ao movimento, desde onde estamos, para encontrarmos alguma saída. Mesmo deparando-nos com a constatação angustiante de que, talvez, não exista um sentido predeterminado ser encontrado; mesmo deparando-nos com isso, precisamos nos movimentar. E mesmo que não pareça haver saída, é preciso se manter movimento. 

Vozes dos pais surgindo (ou evocadas) em meio ao desamparo. Imperativos familiares brotando da floresta. Presença-ausência se insinuando na escuridão gelada. Perguntas sem resposta. Respostas sem perguntas. Desencontro e mal-entendido. Onde estão,  quando chamo por eles? Aí está, mas não quando preciso. Quem bom que estão, mas para onde foram agora? Justo agora? 

Relação que é, em si mesma, um desencontro. Voz dos pais como tentativa de saída desse sem sentido dos caminhos, como resposta ao desamparo, mas que falha. 

Falha, porque o desamparo é nosso. Muito nosso. 

A voz da brancura também ensaia respostas desde um lugar que é plácido, apenas metafisicamente. Plenitude branca, distante, em outro lugar. A brancura, no entanto, traz respostas vagas, que aparecem e somem em ritmo distinto ao aparecimento das perguntas.Ao fim, os pais também estão desamparados e já não têm respostas. Todos caminham de mãos dadas com alguém sem rosto, que parece saber algum caminho. No entanto, o desamparo também está ali, pois a criatura é sem rosto. Não ampara tanto assim. Não há saída, o desamparo está sempre ali. Até que todos imergem na brancura. E só eles sabem o que se esconde dentro desse vazio. A partir desse ponto, não há mais texto possível. Há só um nada que respira. Agora, o desamparo está com o leitor. Ele que se movimente

Outra coisa

Ontem eu nasci.
Não de novo.

Minha velha criança
Abriu os olhos pela primeira vez
Em outro mundo.

Nele o sol tinha um jeito
De correria na rua.
E a chuva
Cheirava à pipoca doce
Dentro de casa.

Os passarinhos cantavam igual,
Mas dentro de mim.
Não estavam mais presos
Nas gaiolas tristes das desatenções.

O vento corria nu
Pelos jardins das casas.

Lá era proibido importunar as tardes;
Elas eram das lebres
Dormindo suas sestas
Pelos arbustos do prado.

Os verões
Pareciam arrulhos de pombas
E trinados de cigarra,
Por vezes, na mesma árvore.

Meu trabalho,
Quando não brincava,
Era pescar minhocas
Para dar aos peixes,
Atrapalhando a solidão das garças.

Os homens sérios eram fantasmas
Quase invisíveis.

Aqueles que estavam mortos
Olhavam-me com sisudez
Pelo despeito de eu estar ali
Desmanchando suas arrumações.

Acusavam-me de ser muito pequeno
Para saber usar suas suposições.

Fazia pouco caso...

Os loucos, lá, não eram chatos
Em seus delírios inocentes.

E o povo era governado
Por um conselho de anciãos,
Todo eles
A jogar damas na praça.

Às vezes, cortavam-se as casas dos passarinhos
Para se fazer casas de gente.

Eu ficava triste,
Mas logo passava
Quando lembrava
Que eles sabiam voar.

Consola-me a paz de saber
Que dessa vida não morro.

Nessa minha outra coisa,
O mundo é todo o lugar.
O tempo sempre.

E não há Deus,
Porque ele já mora lá.

17.04.2021

A Coisa

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Praia da Pinvest. Tapes/RS. Fevereiro/2021
Há quem veja na Coisa
A que pusemos o nome de Vida
O aleatório.

O acaso regulando ordenadamente
Estações, bichos e gentes
Num compasso onde não há
Quem dê o ritmo.

Eu, por minha conta,
Peguei Deus e a Vida
Um em cada mão;

Fui até o pátio
E despejei-os fora
De tudo que haviam posto neles dentro.

Levei-os de novo para casa
Como dois baldes vazios
Para neles por o que me aprouvesse bem.

Não fiz conta do jogado fora:
Tagarelices sobre eles.

O que importa do balde é a borda
E não que se ponha um nome
Para enchê-los dentro.

18.02.2021