Borboletas

A meus filhos Martín e Santiago

Desenho: Maurício da Rosa Ávila, 2023.
Andam todos com pressa
Pressa de andar em frente
Pressa de não chegar
Angústia de permanecer.

Já tive pressa também.

Hoje ando lento
Olhando para trás a cada passo.

Eu hoje ando lento.

Preciso esperar um menino
Que vem sereno
Admirando as flores
E perseguindo borboletas.

Vem ele
Distraído com as pedras
E desconhecidos insetos
Que povoam suas pequenas descobertas.

Não há urgência em seu andar.

Passem adiante
Todos que querem seguir.
Passem adiante.

Eu hoje ando lento
Olhando para trás a cada passo.
Preciso esperar um menino
De quem fugi muito cedo.

Preciso esperar um menino
E não posso apressá-lo.
É ele que traz em suas mãos
A frágil argila do meu coração.

Uma breve história do ódio

Foto por Kat Smith em Pexels.com
- Eu odeio essa gente! 
- Odeio eles!

E eles odeiam
Os que odeiam eles.

Quem tem
Odeia o que não tem.
E quem não tem também.

Aquele que é
Odeia quem não é.

Quem não sabe
Odeia o que sabe.
E quem sabe também.

E os odiados
Odeiam aqueles
Que vivem de odiá-los
Por só saberem odiar.

O filho não viu o pai.
Nunca.
E o buraco triste virou ódio
De tudo e nada
Mira sem alvo -

O filho odeia o pai
E o pai odeia o pai
Que espia de dentro do filho.

A mãe odeia o pai - partido.

- Odeio seu cabelo,
sua roupa,
seu olhar,
seu gesto,
seu jeito,
sua cor.

- Odeio o que você representa.

Um país odeia o outro.
Um bairro odeia o outro.
Um colega odeia o outro.

O sol odeia a noite.
A lua odeia o dia.
Uma mão odeia a outra.

O outro odeia o outro.

O menino odeia crianças.
Não existem mais as crianças,
Que não odiavam ninguém.

Quem as ensinou a amar?
Quem ama?
Quem não soube amar?

Onde deixamos cair a humanidade e não vimos?

Todos em fuga
Com medo do amor.

Inventar-se pai*

Tapes/RS, 2020. Foto: Maurício da Rosa Ávila

Um pai é sempre depois. Não existe pai em tese. O pai é algo que habita o agora de um eterno presente. Função.

Talvez alguém se suponha pai pelo fato de ter participado da concepção de um ser humano. Porém, descobrirá em breve tempo que esse ente suposto nada vale para o olhar de um filho quando esvaziado das significações da presença. Presença subjetiva.

A velha autoridade bancada pela hereditariedade dos genes diluiu-se. O pai é demandado desde outro lugar. Nasce, desenvolve-se, cresce e ganha autonomia junto a seus pequenos. Há aí algo de uma simbiose em que a criança do pai retorna e impõe um real enfrentamento de suas questões a partir das demandas atualizadas pela criança que é o filho.

E é imperioso ao pai se haver com essa sua criança. Ela traz em si fantasias de onipotência e se não for contida em seu furor autoritário poderá impor à criança do filho castrações moralistas a título de educação. Uma criança onipotente (do pai) não ama, exige. Não escuta, grita. Não propõe, obriga. E não há nada tão trágico para o desejo de um filho que um pai ditador do destino. Para sua desgraça, o filho está condenado a ter alguém que sabe sempre o melhor caminho.

Com essa postura, a escuta está perdida. A comunicação entre ambos não encontra mais repertório para se haver com suas impossibilidades. Sobra apenas uma saída: a revolta. Uma criança ferida foi imposta a outra e a relação especular fez seu trabalho: agora são duas crianças feridas.

No entanto, é possível a busca de outras vias para se haver com o real da paternidade sem que se tenha de passar necessariamente pelas estruturas imaginárias herdadas da historiografia familiar, reproduzidas, muitas vezes, tão somente pelo gozo que há em reproduzi-las, sem qualquer questionamento. 

Cabe ao pai a busca de um repertório simbólico próprio que o ajude na construção de um discurso a respeito do filho, fundado o mais próximo possível do seu desejo de ser pai e do desejo do filho, atento sempre às respectivas articulações com o núcleo familiar. Nesse ponto, a palavra da mãe acerca do pai também é decisiva para a construção da proposta discursiva em relação ao filho.

A partir dessa visão pode-se dizer que ser pai é dar a mão a uma pessoa e trilhar com ela um rumo desconhecido. Não há garantias de chegada, nem de como será essa chegada. É um estado de presença e atenção para os leves movimentos do desimportante. 

E como é preciso desvestir-se das importâncias para estar apto à solenidade das crianças! Um olhar. Um gesto. Uma frase. Uma brincadeira. Crianças falam o mais importante pelas brincadeiras. Ali mora uma mensagem grave, cujas tintas da fantasia podem fazer com que a deixemos passar despercebida.

Paternidade é um movimento em que o gesto de um implica e supõe o gesto do outro. Tempo de duas vidas escoando pelos dedos das demoras. Demoras necessárias. Demoras já obsoletas, em outros momentos, pelas urgências do mundo.

A carne de um pai é feita de minutos. Minutos em que temos de deixar ruir construções imaginárias de um suposto eu próprio para participarmos, em boa medida, da vida pulsional e fragmentária da criança. Isso custa. Se não custa ao pai, custa ao filho. E cada um arca com o custo que é o seu.

Não proibir a birra, mas questionar de onde ela vem. Talvez seja proveitoso estar atento ao porquê de um determinado ato. Uma pergunta correta a um filho pode nos trazer uma resposta inesperada, embora resolutiva. Crianças são palavras que andam. Posto o valor na palavra dita e sustentando-se esse valor, a criança estará apta a se reconhecer como sujeito de suas próprias palavras.

Não há regras. Aliás, há só uma: estar implicado. Responsabilizar-se. O resto, somos livres para inventar. A paternidade não deixa de ser uma invenção nossa a partir do desejo próprio de pai. Se o tenho e o sustento, melhor para meu filho que aprenderá a ter e a sustentar o seu desejo.

Isso não ocorre sem erros. Escorregões. Atritos. Falhas. Faltas. A falta, no entanto, é o que nos constitui como pessoas. Pessoas vivas, porque desejantes. O problema é quando nada falta e estamos satisfeitos de tédio. A vida torna-se uma insuportável indolência. Pais que erram estão a caminho.

Triste é esconder-se na justificativa de ausências de regras, de inexistência de fórmulas, para não precisar inventar as próprias, bancá-las e viver de acordo com elas. Alguém as inventará e seguiremos regras alheias, de modo que nunca nos responsabilizaremos pelos encontros e desencontros da paternidade que é a nossa.

Infelizmente, a subjetividade do filho é que paga a conta mais alta pela desistência de um pai. Melhor inventá-lo enquanto há tempo.

*Texto dedicado a todos aqueles que fazem função paterna, inclusive aos pais biológicos.

Sobre Kepler, blocos de montar e o amor.

Talvez Deus seja excêntrico. Sendo Deus, é melhor que seja excêntrico. Soa mais romântico. Excêntrico, Ele fica mais perto de nós. Em certa medida, deve ter sido essa constatação que levou Kepler a abrir mão de sua concepção própria de perfeição e harmonia para captar com mais precisão a (im)perfeição divina. Kepler, dito de outra maneira, parou de tentar dizer o que era Deus para poder vê-lo melhor. (1)

Feita a breve introdução, passemos à história.

Era um dia comum, em que fui até a escola de meu filho para buscá-lo. Antes de chegar à porta da sala, visualizei-o por uma janela sentado à mesa. Grave e compenetrado, brincava com blocos de montar. Ao me ver chegar, gritou:

– Olha, pai! Fiz uma cozinha espacial!

A professora me olha:

– Ele adora brincar com esses blocos, não?

Adora? – Pensei comigo.

A frase, então, caiu-me como uma revelação. Estava ali a chave há tanto buscada. Em um momento inusitado, através de alguém estranho, o oráculo foi proferido e um portal se abriu: um caminho de luz para o coração de meu filho – blocos de montar.

Não respondi à professora. Apenas lhe enderecei um sorriso de aprovação. Meu filho veio em minha direção correndo e abraçou-me. Voltamos para casa.

No caminho, no mesmo carro, seguimos. Não necessariamente para o mesmo lugar. Embora o filho queira, ou mesmo o pai faça questão, um pai e um filho não necessariamente vão para um mesmo lugar. Desencontros do amor. O amor, por vezes, está ali, mas não encontra a fresta por onde entrar. A casa para a qual eu ia não era a mesma para a qual meu filho estava indo. Qual era a dele? Só ele sabe dizer.

Tracei, como modelo cosmológico, uma órbita circular uniforme de amor: minha perfeição. Supus ser essa a forma justa e assim entregava um pai a meu filho. Geometria euclidiana. No entanto, quando o fenômeno se apresentava no mundo, a equação não fechava. A falta atravessava o caminho. Fazia furo. O teorema era perfeito, mas não se ajustava ao fato. Desentendimentos e cansaços do amor. Culpa da insuficiência.

Na hora do banho era a hora do brinquedo. A roupa não era aquela: “Não quero vestir a roupa! Quero ficar pelado!” Hora de comer: “Não quero comida! Não quero essa comida! Nunca mais vou escovar os dentes! Hora do banho: Nunca mais ninguém vai lavar a cabeça! Sabia, pai, que ninguém escova os dentes. Não quero dormir agora! Não quero!” 

Quero você! Quero só você! Quero todo o amor que eu puder ter com a sua cara no meio! Quero o amor com a sua cara! Não quero nada outro! Não quero banho, janta, cama! Quero, quero você!

O que quer uma criança? Afeto com nome próprio até transbordar o balde. Até o fim. Amor com nome de pai e mãe. Com carne, gosto e cheiro de pai e mãe. 

– Quem é sua família, meu filho?

– Você, a mãe, o mano e meus brinquedos.

Somos brinquedos. E o que faz uma criança com seus brinquedos senão criar. E o que faz um homem com o mundo, que já não tenha feito com seus brinquedos de criança? O amor dos filhos não tem lógica. Não tem perfeição. Não tem ajuste. É sempre demais. É sempre incabível, indizível, incontido, como deve ser o amor. Nós é que não sabemos amar. Somos nós que nos perdemos. Desencontramo-nos. Esse pastiche: os adultos.

No caminho de casa, ouço no carro uma música. Espero que meu filho goste dela quando crescer. Ele só quer ver desenho. Sou eu quem gosta da música, não ele. Talvez, no futuro, a música evoque a mim na sua lembrança, nada mais. Ele, no entanto, gosta mesmo de outra coisa. 

E a porta nunca se abre. E batemos. Queremos estar ali no coração deles, mas o amor é arisco como um gato. Às vezes, alguém espia de leve, por uma fresta entreaberta, em uma tarde de sol ameno de sábado, e um sorriso nos abraça. No entanto, logo ao sentir o abraço, abruptamente esse alguém bate a porta em nossa cara com a frieza implacável de uma noite de domingo – a face tétrica do real.

– Veja aqueles pássaros, meu filho! – Aponto um bando de pássaros voando juntos, fazendo desenhos no céu.

– Parece a nossa família, né, pai! – E a porta entreabriu-se novamente.

Só vê o desencontro, quem está buscando encontrar. Quem não o vê, já está perdido.

Chego em casa e paro o carro, esperando o portão abrir. Minha esposa parou à porta com meu outro filho no colo.

– Temos uma surpresa, papai!

Meu filho grita do carro:

– O que é mamãe? Animais marinhos?

Entramos na sala.

– Uma caixa de blocos de montar!

E a porta se escancarou. Arrancaram a porta. Não há mais porta. Meus filhos espalharam os blocos todos pelo chão. Bagunça. O amor é uma bagunça.

Abramos aqui um parêntese. Consta nos anais da história que Kepler, depois de muito insistir em uma geometria por ele suposta, depois de muitas frustrações, culpas, finalmente percebeu que seu olhar estava equivocado. Bastava tornar o sol excêntrico ao sistema e torcer um pouco em elipse a órbita dos planetas e a verdade se daria a olhos de ver. Kepler, depois de anos tentando encaixar a vida na sua geometria, torceu o olhar e viu melhor. Foi o primeiro a perceber que os planetas traçam órbitas elípticas ao redor do sol. Sigamos a história. (2)

Envolto, ainda, em teoremas, sento no sofá e pego algumas peças para montar. Meu filho interpela-me:

– Pai, senta aqui no chão!

Penso: verdade. Quem brinca sentado em um sofá? Só adultos. Mas adultos não brincam. Paradoxo. Sentei-me no chão. Algo demiúrgico se apossou de mim e comecei a ver as peças tomando formas diversas diante de meus olhos. Bastava montar. A cada peça encaixada eu desmontava o adulto em mim. A criança adormecida logo apareceu e eu era um amiguinho do meu filho.

– Tu é o meu melhor amigo, né, pai!

– Sou, meu filho! Sou seu melhor amigo.

Somos nós que não sabemos amar. 

Carro edifício. Zumbi elétrico. Cozinha voadora. Jaula de formiga. 

Eu esqueci de mim. Só via minha esposa, meus filhos e meus brinquedos. Minha família.  Para ver o amor talvez seja necessário torcer o olhar. Pode ser que Deus seja excêntrico, e precisemos olhá-lo como uma criança. Kepler sabe bem o que estou tentando dizer.

Notas:

(1) Johannes Kepler (Weil der Stadt, 27 de dezembro de 1571 — Ratisbona, 15 de novembro de 1630) foi um astrônomo, astrólogo[2] e matemático alemão. Como uma das suas grandes contribuições destaca-se a observação pioneira de que os planetas descrevem, em verdade, órbitas elípticas e não circulares ao redor do sol, sendo que este ocupa um dos focos da elipse, e não o centro. Com isso, abandonou-se a ideia vinda desde Aristóteles de que os corpos celestes possuíam órbitas circulares uniformes ao redor do sol.

(2) Mais surpreendente ainda é que, por ocasião da segunda edição do Mysterium, 25 anos depois, Kepler, já sabendo que esse modelo não tinha passado de um sonho e fazendo em notas ao texto uma autocrítica da sua obra de juventude, acrescentou, no entanto: “… é com prazer que eu lembro das muitas voltas que eu dei, das paredes sem fim ao longo das quais eu tateava na escuridão da minha ignorância, até encontrar a porta por onde entrava a luz da verdade. (SIGAUD, Geraldo Monteiro. Copérnico e Kepler: como a terra saiu do centro do universo in Cadernos IHU Ideias. ano 4 – nº 49 – 2006 – 1679-0316.