Que pensar dessas almas de hoje, Coitadas, nunca cravaram espinho no pé. Seres esbranquiçados pelo calcário moderno Verdejam competências Para a importância das coisas inúteis.
Posso eu esperar o que Desses meninos de olheiras pretas? Piedade destes que não conhecem o sentido De uma bola velha murcha, alguns amigos e a rua. Eles não sabem sujar a roupa...
Pranto compassivo por estas crianças Guardadas nas gavetas devidas; Estorvos de um tempo Em que a imaginação é inútil; Bonecos velhos de pano Guardados em baús – só que de pedra.
Quem valerá por essas almas infantes E tomará para elas a alforria Destes homens sisudos que lhes dão compromissos Quando deveriam lhes dar goiabas?
Querem, meu Deus, que seus filhos tenham sucesso... Ah, o sucesso para uma criança... Um chapéu de jornal velho e uma espada de pau; Isto tudo e um quintal de quinquilharias bastam Para que, em uma tarde, Conquiste-se o reinado da Escócia, A tempo ainda de tomar banho e jantar.
O melhor da classe? Adultos doentes sempre estão às voltas com isso, E por que não podem, forçam os filhos a podê-lo.
Deixemos em paz nossos pequenos. Que a imaginação de criança É a experiência mais próxima Que, nesta vida, teremos de Deus.
Foto: Paula Steil Machado. Tapes/RS. Brasil. Janeiro, 2021.
Havia no sol, ontem, uma insistência nova Na maneira de aquecer dos raios. Prenúncio de outra estação No movimento das harmonias. E um sabor de mil verões, Que o gosto das memórias traz à alma.
Enrubescem-se as vontades, Com sangue novo que verte Dos instintos despertos. As paixões têm mais sentido, O sentido mais essência. Mais vigor, cada alvorada.
Noites vagam incautas Pelas ruelas das vilas Deixando o rastro, descuidadas, Destas brisas pequeninas, Que vez em quando, travessas, Perdem-se nalguma folhagem.
Retine a prata da lua cheia Em cada pupila que sonha Novos dias siderais escondidos Sob o escuro manto Das distâncias do infinito.