Ao Reinado da Escócia

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Dezembro, 2020.
Que pensar dessas almas de hoje,
Coitadas, nunca cravaram espinho no pé.
Seres esbranquiçados pelo calcário moderno
Verdejam competências 
Para a importância das coisas inúteis.

Posso eu esperar o que
Desses meninos de olheiras pretas?
Piedade destes que não conhecem o sentido
De uma bola velha murcha, alguns amigos e a rua.
Eles não sabem sujar a roupa...

Pranto compassivo por estas crianças
Guardadas nas gavetas devidas;
Estorvos de um tempo
Em que a imaginação é inútil;
Bonecos velhos de pano
Guardados em baús – só que de pedra.

Quem valerá por essas almas infantes
E tomará para elas a alforria
Destes homens sisudos que lhes dão compromissos
Quando deveriam lhes dar goiabas?

Querem, meu Deus, que seus filhos tenham sucesso...
Ah, o sucesso para uma criança...
Um chapéu de jornal velho e uma espada de pau;
Isto tudo e um quintal de quinquilharias bastam
Para que, em uma tarde,
Conquiste-se o reinado da Escócia,
A tempo ainda de tomar banho e jantar.

O melhor da classe?
Adultos doentes sempre estão às voltas com isso,
E por que não podem, forçam os filhos a podê-lo.

Deixemos em paz nossos pequenos.
Que a imaginação de criança
É a experiência mais próxima
Que, nesta vida, teremos de Deus.

O mar

*A cidade de Torres – RS

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Torres/RS. Dezembro, 2014.
Tive, por algum tempo, o mar
Pelas ruas de minha casa,
Debruçado nas janelas.

Senti-o
No vento das tardes cálidas,
Visitando o absurdo dos sonhos.

Quantas vezes foi a misericórdia dos cansaços?
Nem lembro...

Agora...

Agora, hei de partir!
E ao meu destino chegarei,
Por culpa dele,
Aos poucos.

Aos pedaços.

Será penoso acostumar a alma
A não querê-lo nos olhos
Pelos largos fins de tarde.

Novembro de 2015

À flor d’água

Foto: Maurício da Rosa Ávila. Tapes/RS, Janeiro, 2021
O peixe belisca a flor da água.
A garça o espia do galho.
O peixe sabe da garça
E a garça sabe voar.

Só eles.
Vento.

O peixe volta ao fundo.
Desliza a garça no ar.

Pouso elegante na margem.
Há silêncio em seu andar.
A garça sabe do peixe
O peixe não sabe do mar.

Segue um andar cuidadoso
Até o rio alcançar.
O peixe volta à flor d'água:
Garça não sabe nadar.

É um anseio antiquíssimo,
De um outro mundo alcançar.
Que traz o peixe de volta
E a garça, calma, esperar.

Ela já está dentro d'água
E o peixe a se insinuar.
Não sabe ele, coitado,
Que céu de peixe é mar.

Volta, então, ansioso,
A flor d'água beliscar.
Fome de garça é peixe,
Que sai com ele a voar.

Fazia troça, o peixe:
Garça não sabe nadar!
E ela, em sua espera,
Do outro escondia o voar.

Fazemos troça da vida,
Sonhando um além encontrar.
Distraímos que, como a garça,
Sabe a morte também voar.

15.01.2020

Verão

Foto: Paula Steil Machado. Tapes/RS. Brasil. Janeiro, 2021.
Havia no sol, ontem, uma insistência nova
Na maneira de aquecer dos raios.
Prenúncio de outra estação
No movimento das harmonias.
E um sabor de mil verões,
Que o gosto das memórias traz à alma.

Enrubescem-se as vontades,
Com sangue novo que verte
Dos instintos despertos.
As paixões têm mais sentido,
O sentido mais essência.
Mais vigor, cada alvorada.

Noites vagam incautas
Pelas ruelas das vilas
Deixando o rastro, descuidadas,
Destas brisas pequeninas,
Que vez em quando, travessas,
Perdem-se nalguma folhagem.

Retine a prata da lua cheia
Em cada pupila que sonha
Novos dias siderais escondidos
Sob o escuro manto
Das distâncias do infinito.

04.11.2011

Normal

“Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me

Quando quis tirar a máscara, 

Estava pegada à cara” *

*Tabacaria. Álvaro de Campos.
Letargo
Onde a dor já não doía
E o medo era triste.

O sangue,
Vazio de calor,
Corria por correr.

Beijos
Eram protocolares.

E os abraços
Não havia abraços…

O corpo
Uma fisiologia austera.
E o dono,
Um morador louco
Com pretensões de ser a casa.

Para onde foi o teatro?
O que foi feito da plateia?
Pergunto eu,
Já perplexo,
Com a máscara na mão...

Eu,
Para quem as horas escoavam
Por entre os dedos
Das mãos aflitas,
Ouço agora o relógio correr.

E cada sua batida
Escorre pelos ponteiros
O sem sentido das eras.

Viver é para sempre.

O que há
É que não suportamos.

Antes faltava tempo.
Agora nos sobra vida.

Ocorre que com o tempo,
Não há outra coisa,
Senão gastá-lo.

Com a vida,
Não há jeito,
Só vivendo.

O tempo é ânsia.

A vida sonho.
Rubor da face.
Calor do sangue.
Paixão do beijo.
Aperto do abraço.

O tempo, tão somente, urge.

A vida é medo.
Confusão.
Frio na espinha
À beira do precipício.
Incerteza e dor.

O tempo, um cigarro
Aceso ao final do outro.

Onde pus a máscara?
Coloco-a, mas a plateia não vem…

Medo da alma.

Fico eu aqui
Ridículo e só.
Herói bobo
De um pastiche
Esperando que um dia
A vida volte ao normal.

29.05.2020