Foto: Maurício da Rosa Ávila. Santiago/RS. Nov.2023
Se interessa a todos, A mim já não interessa. Se todos gostam, A mim repugna O fato de todos gostarem.
O normal é uma desgraça.
A mim interessa o que passou. O esquecido. Os cacos. O bagaço da vida.
A mim interessa a fachada velha Dessas casas antigas Sustentando, No canto esquecido de um bairro, Trepadeiras E flores insuspeitas Colhidas por ninguém.
Onde larguei a serotonina? Fui pegá-la de volta E não estava mais lá.
Em verdade, nem mesmo sei Porque a deixava ir Para ter de buscá-la novamente.
Por que não a retinha comigo Desde sempre?
Enfim, de qualquer maneira, Fomos postos como Sísifo, Ao pé da montanha, Tendo de rolar a pedra Eternamente.
Houve um momento, porém, Em que alguém ficou triste com isso. Triste, de não haver remédio. E um outro sabichão bradou: - Este recapturou seratonina demais. Quem ceifa onde não semeou Paga em dobro a conta! - sentenciou.
Inventaram, então, os inibidores Para que não se colhesse felicidade Em campos de prazeres inoportunos.
Interessante que o remédio deste tempo Para os males da infelicidade Seja um inibidor.
O que se inibe na inibição? Sempre me ocorreu Que a tristeza Fosse a constatação captatória da falta.
Parece que não. Ou é, e isso é o que se inibe na inibição.
De qualquer modo, Ficamos melancólicos Como o malabarista no sinal: Jogando os malabares para cima Impedidos de pegá-los na outra mão.
Inibidos da vida Com a alegria baça dos produtivos.
Resto esmaecido de paisagens velhas. O tempo d’antes é agora amarelecido. Sempre o aconchego da casa da avó No macio das lembranças em tecido.
Colcha colorida sobre o sofá antiquado. Janelas pequenas de madeira Feitas por quem mora na casa. - Assimetrias elegantes no labor silencioso que há nelas.
Tudo simples como a vida. Tudo sempre como Deus.
Foto do Papa à parede E a do casamento em seguida Falam de transcendências incabíveis em qualquer livro santo.
O essencial das lembranças é o amor que causam para hoje. Por isso, o amor insuspeito que há nas casas de avó. Tudo lá aguarda nossa chegada Nas maneiras carinhosas dos biscoitos que ela faz.
Há sempre o pão novo de forma para frugalidade de todos E o pequeno, com olhos de feijão, feito só para nós. Depois, passamos a vida buscando esse pão. Nunca encontramos o amor que havia Naquele de nossa avó.
Portanto, não estranho se, Nessas tardes de tristeza, Em que me cansei de ter altura, Tenho saudades de avó; E ânsia de me desfazer do que se apegou em meu ser Como pega-pega de capoeira Pelos caminhos tortos da vida.
Nesses dias, lembro da casa de minha avó E sento com ela na varanda de mim. Ela ainda me conta histórias Cobertas com a doçura Que uma bondade toda sua Sabia por às cantilenas.
Porteira fechada. Vim ser homem da cidade. Dobradiça de ferro antiga Rangendo ao peso da saudade.
Cantiga triste de campo Trazendo à memória Retratos queridos De gente que não vive mais.
Silêncios da campanha…
O silêncio do pampa É um silêncio diverso. Silêncio na voz do vento Cantando no arame da trama.
Mamangava vigiando o buraco do oitão.
Silêncio alegre do alarido das caturritas Pelas bergamoteiras carregadas de fruto. Silêncio mais doce não há.
Silêncio da água nas pedras Denunciando o rastro da sanga Num fundo de mato.
Silêncio da pedra ancestral Nas tardes de verão morno Embalando as sestas dos lagartos.
Tapera antiga. Madeirame curtido da intempérie. Ganchos cobertos de ferrugem Para arreios gastos de campeiros que se foram.
No pampa, O silêncio fala E o tempo é saudade.
Chapéu de aba larga Com marcas de temporal. Poncho baeta Carregando o carnal por dentro.
Botas de lida Com suor de mil potros.
Insistência da memória. Aperos de meu avô.
Vim ser homem da cidade…
Espera! Espera por mim saudade! Leva o tempo por munício*. Mandei avisar no rádio: Chego 'inda pr'amanhã Enforquilhado num verso!
26.04.2022
*Munício: s. Gado de corte que segue as forças para a alimentação dos soldados. Rês, quase sempre terneira ou novilha, que é incorporada à tropa de gado vacum para ser abatida, durante a viagem, para a alimentação dos tropeiros. Gênero alimentício que o tropeiro conduz consigo para as necessidades da viagem. (Minidicionário Guasca. Zeno Cardoso Nunes e Rui Cardoso Nunes. Martins Livreiro. 4ª edição).
Lançamento de meu livro de poemas. Acima, link para aquisição.
Segue trecho do livro:
(…)
“Extrodução
Isto deveria ser uma introdução. Não é. Não vejo sentido em introduções para livros de poemas. As palavras necessárias já estão todas por aí em algum lugar. As necessárias, as inconvenientes, atravessadas, mal colocadas, em desordem, de uma maneira ou de outra elas já estão todas aí.
Tentar explicar algo a mais com uma introdução seria até mesmo deselegante de minha parte. Uma concessão indevida a minha verve obsessiva. Porque até na obsessão deve haver uma ética. Um limite a partir do qual não se pode avançar, sob pena de se infringir o bom gosto e o valor da palavra. E a palavra nunca invade o vazio impunemente. O que ele não nos quer dar, o que nos furta do sentido, jamais será alcançado. Se insistirmos na busca, o valor da palavra é capturado. Ela própria é capturada pelo vazio. O vazio na palavra.
É preciso muito esforço para não dizer. Desbastar a gramática para poder visualizar os interstícios do dito: o suor do poeta. A palavra deve ser apenas um fio. Corda pendendo entre dois eus de que se vale o leitor para ir de mim até ele. Entrego-o ao seu vazio. Se não o faço é por inépcia minha. Se eu não o puser diante do seu próprio vazio em espelho, terei falhado em minha tarefa. Arrisco dizer, com sinceridade, apenas terei dito algumas coisas. Nada mais.
Este livro é de estranhamentos. Que o leitor torça o nariz, resista, faça pouco caso, desdenhe, aprecie, indique, não recomende, faça o que entender bem, desde que seja honesto de sua parte. De minha parte, espero apenas que entenda aquilo que não está dito. Possa, aqui, ver o escondido.
Não ofereço sentidos. Ofereço fragmentos. Fragmentos honestos cuja letra constitui a borda do meu vazio, que é nosso. Tenho o mau hábito das crianças: sofro de curiosidades pelos perigos. Arrisco olhadelas para o outro lado de mim.
Em parte, somos feios. Em boa parte, inaceitáveis. Inaceitáveis a nós mesmos, inclusive. Por isso, há sempre um custo em ser honesto. Para mim a angústia.
Teço de palavras meus absurdos. E não temo reconhecê-los. Uma boa parte das vezes, pelo menos. Digo ao meu vazio: esta é a linha. Daqui não passarás! Ao passo que ele me diz: a partir daqui, apenas olhe! É um justo acordo de cavalheiros, porque eu sei de sua tirania.
Sei também que, quanto mais palavras invento, na luta por lhe arrancar o sentido, mais palavras ele parece querer, e mais incógnito permanece. Interpelação esfíngica. Encantamento sombrio que me traz em licores inebriâncias do vazio.”
O texto tem de ser curto.
Não há tempo para ler.
O trabalho, objetivo.
Linha de produção.
Criatividade morta
Em tempos de eficiência.
O ócio é crime
De lesa-majestade.
Meu avô, com sua sesta
E seu chimarrão demorado
Nas tardes mornas de primavera
Deve arder, agora,
Em algum inferno de eficientes.
Coitado, ele que tinha tempo
Para me perguntar como anda a escola
E fazer cavacos à tardinha
Antes de acender o fogão a lenha
Deve lamentar
Não fazer parte do mundo moderno.
E minha avó, então!
Para ela a novela das oito
E o programa de rádio do meio-dia
Eram momentos litúrgicos
Tal como a missa das seis;
Hoje, certamente, pena por aí
Em algum purgatório
De gestores de tempo.
A espera foi embora.
Os abraços são rápidos.
Os beijos, pragmáticos.
Os namoros, virtuais.
A vida, exangue
Para gente que foge do tempo
Estando sempre adiante dele.
O cansaço tem sido a alma do corpo.
Fico vagando pelo resto de tarde. Jeito manso de noite clara Nas maneiras do sol partindo. Uma copla bem floreada para a nova Que um grilo longe vai brandindo.
Nessas noites leves de setembro, Recém-nascidas no calendário do ano, Há um cheiro doce pela brisa. Qualquer coisa de primavera afaga O rosto grave de um inverno morto.
Viço nas folhagens e nas gentes.
Brotam perfumes e carícias No desdobrar dos botões de flores;
Chegam instantes lentos Nos dias que desconhecem pressa.
Já não fico onde me vejo. Perde-se o espírito, velho andejo, Por paisagens que sei ou adivinho. Não paro nas malhas do tempo Se o belo me fala de eternidades.
Que poderia dizer do frio que minhas carnes não saibam...
Mas não é a elas que falo, senão à alma que tenho.
O inverno traz outro gosto à cevadura das horas,
E os instantes aguardam estios às janelas das casas.
Em me recolhendo tanto chego a estar no espírito.
Olho de mim para o cenho franzido do dia
- O tempo parece mais taciturno.
Sol tímido espia tardes frias
Por entre o peso argênteo do céu invernal.
Luzes por dentro das casas vistas da rua
Dormem ao vento gelado que cala a vida.
Todos cultivam em sonos
Esperanças de manhãs mais trigueiras.
Translucidez negra desenha a abóboda de um céu
Que ao inverno deu em estrelado.
Lua minguante profusa em claridades mais tímidas
Traz do absoluto mais infinito
Para o sentido de infinito que já há na paisagem.
Horas mais eternas.
Harmonias azuis distribuem cantigas insuspeitas,
Ressoando o arpejo frondoso que há nas copas
Das árvores mais altas pintadas de manhã.
Saudades mais queridas falam ao peito
De verdades a tanto esperadas.
Ansiedades morrem ao toque dessas coisas
Cessando procuras que eram fermento de ilusão.
O ser percebe a Verdade no belo que vê.
E sentindo-se, então, parte também do concerto,
Sabe-se elemento essencial de verdade.
- Intimidade mais estreita no coração com aquilo que é Deus.
Lua espalhando claridades
Pelos remansos da noite.
Estrelas.
Não há vento
E o escuro é infinito.
Dessa vida sinto apenas o jasmim:
Cheiro lilás em doçuras delicadas.
Passeio distraído pela rua.
Deus vê a mim sem que eu o perceba.
Intuo sua presença nas coisas
E sou pleno.
Pequena brisa toca de leve os cinamomos
E leva do meu peito todas as culpas.
Lavadeiras atentas derramam baldes nas calçadas do meu ser.
Lavam de escovas as lajes de mim – água fresca sobre a alma limpa.
Não preciso ou devo, nem quero ou tenho.
Apenas sou como vida e isso me basta.
Nesse instante, a noite transpassa-me o ser
E não sinto meu corpo.
A casa, o cinamomo da frente,
As pequenas pedras da rua, as estrelas,
O jasmim e os odores,
Tudo isso que compõe o enredo de minha calma de agora
Desaparece da vista como coisa de pegar.
Abraço, enfim, Deus
Como quem abraça o pai.
- Paz daquelas de voltar para casa -
Meu vizinho sai à frente ter também com a noite
E me acena.
Largo-lhe um sorriso em despedida.
Volto
E tranco a porta.
Imagino sonhos.
Meu sono não é de dormir.
Lastimo meu filho, coitado, Ele não é bilíngue. Anda, corre, fala, Mexe no que não deve, Mas, coitado, Ele não é bilíngue.
Que língua falas, meu filho? O que significam teus choros? Pedes o que com essa birra? Aquele risco na parede. O brinquedo arremessado. O que me dizes com tudo isso, meu filho?
Não sabes falar, Ou eu não sei te escutar? Ah, se fosses bilíngue, Tudo então estaria resolvido; Mas não falas como costumo entender.
Eu já sou bilíngue. Já tenho meus diplomas. Um dia serás bilíngue, meu filho. Então, saberemos conversar.
Tens esse mau hábito Das crianças muito pequenas De não falar por palavras. Acabo por não te saber, meu filho, Nem me fazer ouvir.
Resolveremos isso! Em breve serás bilíngue.
Terás duas professoras. Melhor, quatro ou cinco! Aprenderás piano, violino, sax. Aulas de natação à tarde, E muitos amigos tentando Também ser bilíngues Para falar com seus pais.
Logo, meu filho, Não terás tempo para perceber Que não há tempo para nós.
É preciso que saibas Que o tempo é curto, E há muitas coisas por fazer Antes que venha a morte.
Precisamos, rápido, Eu e tu sermos bilíngues!
Dará um certo trabalho. Mas, ao fim, ambos bilíngues, Por fim nos saberemos.
Não percebes, meu filho, Meus graves compromissos. Um dia te-los-á também. E lembrarás de teu velho pai Sem tempo para andar descalço, Ou tomar banho de chuva.
Por ora, não nos entendemos. Porém, quando fores bilíngue, Toda a verdade entre nós Será esclarecida.
Tem paciência, meu filho! Como é difícil… Não sei porque não escutas Quando te peço silêncio, Ou que não sujes a roupa.
Abres a porta do escritório Enquanto analiso gráficos...
Como é difícil te explicar… Espera, meu filho, pai já vai! Estou quase terminando. Agora não, pai está trabalhando. Depois, meu filho, estou falando Com um cliente importante.
Mas não me escutas… Como é difícil… Resolveremos a questão. Buscarei para você Uma escola bilíngue!
Só então, meu filho, Falaremos a mesma língua!
Quebraste a tela do meu computador, meu filho! Meu filho, por que o celular está no aquário?! É, bem, isto já chegou no limite. Farás aulas de alemão pela manhã. À tarde, aulas de inglês.
Quando chegares, então, Aos quatro anos de idade, Faremos um perfil no lattes, Meu filho, acho que isso Também te inquieta, não?
Pois bem, hoje mesmo Comprarei uma agenda, Daquelas bem grandes, Onde caibam bastantes coisas Durante todos os dias.
É imperioso, meu filho, Não haver nenhum tempo, De modo a não sentir Que não sabemos nos entender.