Via somente meus pés andando e distribuindo passos pela trilha. Parecia ser uma trilha em uma campina ou no sopé de um monte, não recordo bem. Eu era algo sobre esses pés. Eu era o que via esses pés andarem e era carregado por eles. O vento soprava da cor do sol leve. As folhas das árvores dançavam com as nuvens num chão que era céu. Ao lado de meus pés caminhava minha gata que atendia pelo nome de Madalena. Ladeava o caminho de relva uma mata de onde nascia cantiga de rio. Meu amor estava comigo. Ela passeava despreocupada observando as flores desconhecidas, as borboletas e as aves que cruzavam em seus bandos rumo ao horizonte. Em largos suspiros, flutuavamos na ausência do passado. Não que estivéssemos redimidos. Nada havia de que se redimir – a culpa não era uma palavra naquele lugar. O silêncio era onipresente. Silêncio tecendo de veludo o mistério. Silêncio sem gente que me trouxe uma paz parecida com Deus. Caminhávamos. Somente caminhávamos entre céu, árvores, chão, agreste cheiro de todas as coisas que, ao fim, acaba um só: carqueja. Aquele gosto de vida nas narinas tornando o demais dispensável. Caminhávamos. Chegar não nos interessava. Palavras mesmo não trocamos entre nós. Nem sei se naquele lugar havia palavras. Só cheiro, cores, cores de uma luz branda que não se encontra em outro lugar de tão intensa brandura. Naquele lugar, não era preciso falar. A palavra logo sufocaria em suas vasilhas a imensidão daquele instante – talvez por isso os anjos não falam. Li em algum lugar que eles não falam. Enfim, compreendo. Minha gata roçou minhas pernas e logo foi ao encontro de meu amor. Deitaram-se na relva. Ficaram a olhar o céu e a brincar com nuvens. Um gafanhoto apareceu de repente na grama. Madalena rastejou até ele lentamente como um felino em meio à savana e pulou sedenta sobre a suposta caça que escapou para um arbusto ali perto. Madalena seguiu seu intento obstinada e saltou novamente sobre a presa que então fugiu em minha direção. Com o reflexo e a rapidez dos gatos, Madalena avançou violentamente saltando sobre mim para apanhar seu gafanhoto. Eu me desequilibrei e caí. Acordei. No chão do quarto, um pouco assustado, demorei a perceber que caí. Vi as costas nuas e alvas de meu amor respirando leve, dormindo em seu lado da cama, talvez ainda passeando naquela relva. Minha gata, também sobre a cama, rolava com um brinquedo que meus filhos esqueceram por ali na noite anterior. Segurava-o com suas patas dianteiras atirando-o para cima para deixá-lo novamente cair sob seu jugo. Pobrezinha, tinha dificuldades para ficar em pé depois que uma das patas traseiras foi totalmente amputada para retirada de um tumor repentino. Até que se saía bem com as três que lhe restaram. De tanto saltar e se debater acabou por me derrubar da cama provavelmente. Olhei rápido para o relógio na cabeceira e vi que era tarde. Já estava atrasado para não ir. O real me esperava sem relva. E à Madalena, sem uma pata.
* O texto está escrito em bloco por opção de estilo.
Um pai é sempre depois. Não existe pai em tese. O pai é algo que habita o agora de um eterno presente. Função.
Talvez alguém se suponha pai pelo fato de ter participado da concepção de um ser humano. Porém, descobrirá em breve tempo que esse ente suposto nada vale para o olhar de um filho quando esvaziado das significações da presença. Presença subjetiva.
A velha autoridade bancada pela hereditariedade dos genes diluiu-se. O pai é demandado desde outro lugar. Nasce, desenvolve-se, cresce e ganha autonomia junto a seus pequenos. Há aí algo de uma simbiose em que a criança do pai retorna e impõe um real enfrentamento de suas questões a partir das demandas atualizadas pela criança que é o filho.
E é imperioso ao pai se haver com essa sua criança. Ela traz em si fantasias de onipotência e se não for contida em seu furor autoritário poderá impor à criança do filho castrações moralistas a título de educação. Uma criança onipotente (do pai) não ama, exige. Não escuta, grita. Não propõe, obriga. E não há nada tão trágico para o desejo de um filho que um pai ditador do destino. Para sua desgraça, o filho está condenado a ter alguém que sabe sempre o melhor caminho.
Com essa postura, a escuta está perdida. A comunicação entre ambos não encontra mais repertório para se haver com suas impossibilidades. Sobra apenas uma saída: a revolta. Uma criança ferida foi imposta a outra e a relação especular fez seu trabalho: agora são duas crianças feridas.
No entanto, é possível a busca de outras vias para se haver com o real da paternidade sem que se tenha de passar necessariamente pelas estruturas imaginárias herdadas da historiografia familiar, reproduzidas, muitas vezes, tão somente pelo gozo que há em reproduzi-las, sem qualquer questionamento.
Cabe ao pai a busca de um repertório simbólico próprio que o ajude na construção de um discurso a respeito do filho, fundado o mais próximo possível do seu desejo de ser pai e do desejo do filho, atento sempre às respectivas articulações com o núcleo familiar. Nesse ponto, a palavra da mãe acerca do pai também é decisiva para a construção da proposta discursiva em relação ao filho.
A partir dessa visão pode-se dizer que ser pai é dar a mão a uma pessoa e trilhar com ela um rumo desconhecido. Não há garantias de chegada, nem de como será essa chegada. É um estado de presença e atenção para os leves movimentos do desimportante.
E como é preciso desvestir-se das importâncias para estar apto à solenidade das crianças! Um olhar. Um gesto. Uma frase. Uma brincadeira. Crianças falam o mais importante pelas brincadeiras. Ali mora uma mensagem grave, cujas tintas da fantasia podem fazer com que a deixemos passar despercebida.
Paternidade é um movimento em que o gesto de um implica e supõe o gesto do outro. Tempo de duas vidas escoando pelos dedos das demoras. Demoras necessárias. Demoras já obsoletas, em outros momentos, pelas urgências do mundo.
A carne de um pai é feita de minutos. Minutos em que temos de deixar ruir construções imaginárias de um suposto eu próprio para participarmos, em boa medida, da vida pulsional e fragmentária da criança. Isso custa. Se não custa ao pai, custa ao filho. E cada um arca com o custo que é o seu.
Não proibir a birra, mas questionar de onde ela vem. Talvez seja proveitoso estar atento ao porquê de um determinado ato. Uma pergunta correta a um filho pode nos trazer uma resposta inesperada, embora resolutiva. Crianças são palavras que andam. Posto o valor na palavra dita e sustentando-se esse valor, a criança estará apta a se reconhecer como sujeito de suas próprias palavras.
Não há regras. Aliás, há só uma: estar implicado. Responsabilizar-se. O resto, somos livres para inventar. A paternidade não deixa de ser uma invenção nossa a partir do desejo próprio de pai. Se o tenho e o sustento, melhor para meu filho que aprenderá a ter e a sustentar o seu desejo.
Isso não ocorre sem erros. Escorregões. Atritos. Falhas. Faltas. A falta, no entanto, é o que nos constitui como pessoas. Pessoas vivas, porque desejantes. O problema é quando nada falta e estamos satisfeitos de tédio. A vida torna-se uma insuportável indolência. Pais que erram estão a caminho.
Triste é esconder-se na justificativa de ausências de regras, de inexistência de fórmulas, para não precisar inventar as próprias, bancá-las e viver de acordo com elas. Alguém as inventará e seguiremos regras alheias, de modo que nunca nos responsabilizaremos pelos encontros e desencontros da paternidade que é a nossa.
Infelizmente, a subjetividade do filho é que paga a conta mais alta pela desistência de um pai. Melhor inventá-lo enquanto há tempo.
*Texto dedicado a todos aqueles que fazem função paterna, inclusive aos pais biológicos.
Talvez Deus seja excêntrico. Sendo Deus, é melhor que seja excêntrico. Soa mais romântico. Excêntrico, Ele fica mais perto de nós. Em certa medida, deve ter sido essa constatação que levou Kepler a abrir mão de sua concepção própria de perfeição e harmonia para captar com mais precisão a (im)perfeição divina. Kepler, dito de outra maneira, parou de tentar dizer o que era Deus para poder vê-lo melhor. (1)
Feita a breve introdução, passemos à história.
Era um dia comum, em que fui até a escola de meu filho para buscá-lo. Antes de chegar à porta da sala, visualizei-o por uma janela sentado à mesa. Grave e compenetrado, brincava com blocos de montar. Ao me ver chegar, gritou:
– Olha, pai! Fiz uma cozinha espacial!
A professora me olha:
– Ele adora brincar com esses blocos, não?
Adora? – Pensei comigo.
A frase, então, caiu-me como uma revelação. Estava ali a chave há tanto buscada. Em um momento inusitado, através de alguém estranho, o oráculo foi proferido e um portal se abriu: um caminho de luz para o coração de meu filho – blocos de montar.
Não respondi à professora. Apenas lhe enderecei um sorriso de aprovação. Meu filho veio em minha direção correndo e abraçou-me. Voltamos para casa.
No caminho, no mesmo carro, seguimos. Não necessariamente para o mesmo lugar. Embora o filho queira, ou mesmo o pai faça questão, um pai e um filho não necessariamente vão para um mesmo lugar. Desencontros do amor. O amor, por vezes, está ali, mas não encontra a fresta por onde entrar. A casa para a qual eu ia não era a mesma para a qual meu filho estava indo. Qual era a dele? Só ele sabe dizer.
Tracei, como modelo cosmológico, uma órbita circular uniforme de amor: minha perfeição. Supus ser essa a forma justa e assim entregava um pai a meu filho. Geometria euclidiana. No entanto, quando o fenômeno se apresentava no mundo, a equação não fechava. A falta atravessava o caminho. Fazia furo. O teorema era perfeito, mas não se ajustava ao fato. Desentendimentos e cansaços do amor. Culpa da insuficiência.
Na hora do banho era a hora do brinquedo. A roupa não era aquela: “Não quero vestir a roupa! Quero ficar pelado!” Hora de comer: “Não quero comida! Não quero essa comida! Nunca mais vou escovar os dentes! Hora do banho: Nunca mais ninguém vai lavar a cabeça! Sabia, pai, que ninguém escova os dentes. Não quero dormir agora! Não quero!”
Quero você! Quero só você! Quero todo o amor que eu puder ter com a sua cara no meio! Quero o amor com a sua cara! Não quero nada outro! Não quero banho, janta, cama! Quero, quero você!
O que quer uma criança? Afeto com nome próprio até transbordar o balde. Até o fim. Amor com nome de pai e mãe. Com carne, gosto e cheiro de pai e mãe.
– Quem é sua família, meu filho?
– Você, a mãe, o mano e meus brinquedos.
Somos brinquedos. E o que faz uma criança com seus brinquedos senão criar. E o que faz um homem com o mundo, que já não tenha feito com seus brinquedos de criança? O amor dos filhos não tem lógica. Não tem perfeição. Não tem ajuste. É sempre demais. É sempre incabível, indizível, incontido, como deve ser o amor. Nós é que não sabemos amar. Somos nós que nos perdemos. Desencontramo-nos. Esse pastiche: os adultos.
No caminho de casa, ouço no carro uma música. Espero que meu filho goste dela quando crescer. Ele só quer ver desenho. Sou eu quem gosta da música, não ele. Talvez, no futuro, a música evoque a mim na sua lembrança, nada mais. Ele, no entanto, gosta mesmo de outra coisa.
E a porta nunca se abre. E batemos. Queremos estar ali no coração deles, mas o amor é arisco como um gato. Às vezes, alguém espia de leve, por uma fresta entreaberta, em uma tarde de sol ameno de sábado, e um sorriso nos abraça. No entanto, logo ao sentir o abraço, abruptamente esse alguém bate a porta em nossa cara com a frieza implacável de uma noite de domingo – a face tétrica do real.
– Veja aqueles pássaros, meu filho! – Aponto um bando de pássaros voando juntos, fazendo desenhos no céu.
– Parece a nossa família, né, pai! – E a porta entreabriu-se novamente.
Só vê o desencontro, quem está buscando encontrar. Quem não o vê, já está perdido.
Chego em casa e paro o carro, esperando o portão abrir. Minha esposa parou à porta com meu outro filho no colo.
– Temos uma surpresa, papai!
Meu filho grita do carro:
– O que é mamãe? Animais marinhos?
Entramos na sala.
– Uma caixa de blocos de montar!
E a porta se escancarou. Arrancaram a porta. Não há mais porta. Meus filhos espalharam os blocos todos pelo chão. Bagunça. O amor é uma bagunça.
Abramos aqui um parêntese. Consta nos anais da história que Kepler, depois de muito insistir em uma geometria por ele suposta, depois de muitas frustrações, culpas, finalmente percebeu que seu olhar estava equivocado. Bastava tornar o sol excêntrico ao sistema e torcer um pouco em elipse a órbita dos planetas e a verdade se daria a olhos de ver. Kepler, depois de anos tentando encaixar a vida na sua geometria, torceu o olhar e viu melhor. Foi o primeiro a perceber que os planetas traçam órbitas elípticas ao redor do sol. Sigamos a história. (2)
Envolto, ainda, em teoremas, sento no sofá e pego algumas peças para montar. Meu filho interpela-me:
– Pai, senta aqui no chão!
Penso: verdade. Quem brinca sentado em um sofá? Só adultos. Mas adultos não brincam. Paradoxo. Sentei-me no chão. Algo demiúrgico se apossou de mim e comecei a ver as peças tomando formas diversas diante de meus olhos. Bastava montar. A cada peça encaixada eu desmontava o adulto em mim. A criança adormecida logo apareceu e eu era um amiguinho do meu filho.
– Tu é o meu melhor amigo, né, pai!
– Sou, meu filho! Sou seu melhor amigo.
Somos nós que não sabemos amar.
Carro edifício. Zumbi elétrico. Cozinha voadora. Jaula de formiga.
Eu esqueci de mim. Só via minha esposa, meus filhos e meus brinquedos. Minha família. Para ver o amor talvez seja necessário torcer o olhar. Pode ser que Deus seja excêntrico, e precisemos olhá-lo como uma criança. Kepler sabe bem o que estou tentando dizer.
Notas:
(1) Johannes Kepler (Weil der Stadt, 27 de dezembro de 1571 — Ratisbona, 15 de novembro de 1630) foi um astrônomo, astrólogo[2] e matemático alemão. Como uma das suas grandes contribuições destaca-se a observação pioneira de que os planetas descrevem, em verdade, órbitas elípticas e não circulares ao redor do sol, sendo que este ocupa um dos focos da elipse, e não o centro. Com isso, abandonou-se a ideia vinda desde Aristóteles de que os corpos celestes possuíam órbitas circulares uniformes ao redor do sol.
(2) Mais surpreendente ainda é que, por ocasião da segunda edição do Mysterium, 25 anos depois, Kepler, já sabendo que esse modelo não tinha passado de um sonho e fazendo em notas ao texto uma autocrítica da sua obra de juventude, acrescentou, no entanto: “… é com prazer que eu lembro das muitas voltas que eu dei, das paredes sem fim ao longo das quais eu tateava na escuridão da minha ignorância, até encontrar a porta por onde entrava a luz da verdade. (SIGAUD, Geraldo Monteiro. Copérnico e Kepler: como a terra saiu do centro do universoin Cadernos IHU Ideias. ano 4 – nº 49 – 2006 – 1679-0316.
Virei número. Nesta semana, fui agraciado com a maior honraria que pode alcançar um sujeito pós-moderno: virei número. Não um número qualquer: uma nota. Não uma nota qualquer: a pior.
Não são todos que têm o privilégio de ver as circunstancialidades da sua existência, os minutos de cansaço, os mal-estares, as pequenas vitórias do dia-a-dia, as conquistas anônimas, as insônias, as preocupações, os desafios emocionais condensados em quatro abstrações que a humanidade convencionou chamar de número.
Como dizia, não são todos que têm esse privilégio. Apenas um sujeito pós-moderno como eu o tem.
A nota não é imerecida, entendam-me bem. Não é disso que se trata. Foi muito justa. Segundo o referencial proposto, foi justa. É outra coisa. É o impacto trazido pelo resumo de uma vida em fragmentos decimais, a síntese levianamente pragmática de um percurso dada em um número real, inescapavelmente real, injustificadamente real; é tudo isso que, em mim, não deixa de trazer um desconforto de alma.
Os enleios do novelo da vida resolvidos no traço de uma reta real: encontro impossível.
O número, como coisa dada, não se discute. Paradoxo de uma coisa que se faz indizível, porque sua existência em si já diz o que há para dizer de si mesma.
O número é surdo para o que falam dele.
Virei número. E não importa o que eu diga. Hoje eu sou ele. Amanhã, não sei. Hoje, no entanto, sou ele. Para um outro, sou ele.
Em certa medida, os números são, para o homem, uma tentativa desesperada de segurança. Promessa de ordem. Dias de paz. Se as coisas saem do controle, se algo escapa, se as sobras de nossos atos começam a compor um estranho, que com o tempo começa a ganhar vida e a nos ameaçar como um “outro-intruso”, é nessas horas que o número aparece para dourar a pílula.
Simplificação do não-saber.
E esse, que aí está a me olhar como um número, não é honesto. O número limita-se ao próprio ser de si. Aquele que olha o número, no entanto, põe dentro dele os significados que lhe aprazem, em desacordo com a lógica própria do número. Enche de conteúdo uma coisa que existe em si pelo fato de não comportar conteúdo de significado: desonestidade.
Esse olhar estrangeiro preenche o “número-eu” de ideias suas, não minhas. Aquilo posto no número é seu, não meu. Não é nem do número.
Talvez eu cause estranheza a esse que olha. Talvez a minha existência (sem número) seja para ele incontrolável, inclassificável, inconcebível: a sombra de um estranho começando a tomar forma, e que ele mantém distante fazendo de mim um número.
Como número, estou sob controle. Em número, estou concebido. Do número, não me escapo.
No número, sou qualquer outra coisa para um outro, menos eu.
Nunca foi tão necessário ao humano pôr-se de acordo consigo como agora.
Narciso, hoje, está só.
Sequer lhe resta o consolo de afogar-se nas águas de sua imagem.
Foi-lhe retirada a possibilidade do espelho.
O que diz a humanidade de si
Quando as aparências estão ao cabide
Com os ternos e as roupas de grife?
Como faz para suportar a si mesmo
Aquele para quem os títulos são inócuos ante a angústia iminente?
Aquele que por palavras convenceu tantos, mas nunca a si mesmo;
Como responde às suas insônias?
Ele, posto diante da morte em hora inoportuna,
Como irá se haver com ela?
A morte, agora, espreitando seus sonhos;
E ele, tão prolífico em ciência, só responde com ódio, medo e desespero…
Ronda os silêncios de sua habitação,
Como fantasmagoria, a pergunta:
O que fez até aqui?
Mas não há resposta.
Luta para agarrar-se ao concebido como realidade,
Mas o pensamento o traga em uma onda invencível para o caos de dentro.
O personagem vive em suspenso.
O que sobra?
Como ser?
O que é ser?
Ser para quê?
É possível não ser?
Narciso descobre hoje um mundo novo para além do espelho.
Tudo era imagem.
Imagem de si.
Suposto.
Suposto de si.
A realidade era um eu torto.
Por um instante, dirige o olhar à ninfa que o chama,
Mas não sabe amá-la.
Narciso olha ao redor,
Mas não sabe reconhecer o que vê.
O impossível.
O inominável.
A angústia.
Olha para si, não mais no espelho,
Mas a partir de si.
De que és feito, Narciso?
De que prazer e medo partiram teus anseios?
Qual foi a estrada do teu caminho?
Não há como retroceder.
Aquel’outra realidade era delírio.
Ilusão.
Este nada que hoje és tu,
É a matéria disponível para seguir.
Esse oco que hoje é a alma,
É o único lugar que te sobrou por casa.
A palavra está contigo, Narciso!
O significado também é teu.
E o mundo é feito daquilo que não disseste.
Tua fala é do, até hoje, não dito.
Não serve o idioma de antes.
Não há quem ouça.
Como farás para te pores de acordo contigo?
Quem és tu, Narciso?
21.07.2020
Passamos a vida nos havendo com sobras. Nossas sobras. Sobras de nós. Sobra-nós. Hoje somos o resto de ontem. Aquilo não consumido por este implacável Sempre do Agora. Osso sobrado das carnes dos segundos. Isto que deu ao ontem boa parte de si, e já não sabe o que fazer com resto. É o que somos. Nós em nossa mais absurda realidade.
Estarrecedor. Estarrecido, pergunto: O que sobra depois do ódio comido com fome? O que sobra depois de todas as hipocrisias mentidas para si mesmo? O que sobra para consciência depois dos crimes todos? O que sobra de todas as teimosias ao pé de portas fechadas por dentro? O que sobra depois de todas as desistências de planos supostos? O que sobra das fantasias ? O que sobra dos sucessos vencidos? Dos títulos pendurados em paredes de casas vazias? Dos inimigos derrotados com cinismo? O que sobra dos gozos da esperteza? O que sobra de crer com muita fé, para descrer com mais força? O que sobra dos moralismos das religiões não-Deus inventadas? O que sobra dos gritos, das discussões? O que sobra depois do bater de braços do afogado? O que sobra do amargo das poucas vitórias e do corriqueiro das derrotas; derrotas-gente-de-casa?
O que sobra de tentar, tentar e tentar? O sonho sonhado é um, posto em prática é já outro, e gozado é péssimo. O que sobra dele? Coisa deselegante e vil isto de colocar sonhos em prática…
O que sobra depois de todos os cansaços cansados, senão um cansaço metafísico. Um espaldar na cadeira da alma, e um suspirar de alívio de nada. Um estirar de músculos nas carnes do ser, e um dar de ombros às obrigações expectantes de nós, que as esquecemos.
O que sobra depois de tudo?
Tento provar, neste lugar, e desde este lugar, que sobra o inusitado. Sobra aquilo feito de linguagem, investido aqui de palavras: sonho íntegro em seu caráter de sonho, por ser contado, apenas; e nunca posto em prática.
Sobra o inesperado. Sobra o buscado e nunca encontrado, porque não se encontrava buscando. Compassivo expectador dessa busca, assistia-nos em nossa carreira, que era inútil, esperando uma fenda por onde mostrar o rosto, mas não dava. Não dávamos.
Eu, de mim, e por mim, estou convicto: o amor é o que sobra depois de tudo.