Pequena elegia aos inibidores seletivos de recaptação de serotonina

Onde larguei a serotonina? 
Fui pegá-la de volta
E não estava mais lá.

Em verdade, nem mesmo sei
Porque a deixava ir
Para ter de buscá-la novamente.

Por que não a retinha comigo
Desde sempre?

Enfim, de qualquer maneira,
Fomos postos como Sísifo,
Ao pé da montanha,
Tendo de rolar a pedra
Eternamente.

Houve um momento, porém,
Em que alguém ficou triste com isso.
Triste, de não haver remédio.
E um outro sabichão bradou:
- Este recapturou seratonina demais.
Quem ceifa onde não semeou
Paga em dobro a conta! - sentenciou.

Inventaram, então, os inibidores
Para que não se colhesse felicidade
Em campos de prazeres inoportunos.

Interessante que o remédio deste tempo
Para os males da infelicidade
Seja um inibidor.

O que se inibe na inibição?
Sempre me ocorreu
Que a tristeza
Fosse a constatação captatória da falta.

Parece que não.
Ou é, e isso é o que se inibe na inibição.

De qualquer modo,
Ficamos melancólicos
Como o malabarista no sinal:
Jogando os malabares para cima
Impedidos de pegá-los na outra mão.

Inibidos da vida
Com a alegria baça dos produtivos.

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