Porteira fechada. Vim ser homem da cidade. Dobradiça de ferro antiga Rangendo ao peso da saudade.
Cantiga triste de campo Trazendo à memória Retratos queridos De gente que não vive mais.
Silêncios da campanha…
O silêncio do pampa É um silêncio diverso. Silêncio na voz do vento Cantando no arame da trama.
Mamangava vigiando o buraco do oitão.
Silêncio alegre do alarido das caturritas Pelas bergamoteiras carregadas de fruto. Silêncio mais doce não há.
Silêncio da água nas pedras Denunciando o rastro da sanga Num fundo de mato.
Silêncio da pedra ancestral Nas tardes de verão morno Embalando as sestas dos lagartos.
Tapera antiga. Madeirame curtido da intempérie. Ganchos cobertos de ferrugem Para arreios gastos de campeiros que se foram.
No pampa, O silêncio fala E o tempo é saudade.
Chapéu de aba larga Com marcas de temporal. Poncho baeta Carregando o carnal por dentro.
Botas de lida Com suor de mil potros.
Insistência da memória. Aperos de meu avô.
Vim ser homem da cidade…
Espera! Espera por mim saudade! Leva o tempo por munício*. Mandei avisar no rádio: Chego 'inda pr'amanhã Enforquilhado num verso!
26.04.2022
*Munício: s. Gado de corte que segue as forças para a alimentação dos soldados. Rês, quase sempre terneira ou novilha, que é incorporada à tropa de gado vacum para ser abatida, durante a viagem, para a alimentação dos tropeiros. Gênero alimentício que o tropeiro conduz consigo para as necessidades da viagem. (Minidicionário Guasca. Zeno Cardoso Nunes e Rui Cardoso Nunes. Martins Livreiro. 4ª edição).