Mateando

Um dia serei de novo aquela estrela sozinha
Madrugando pelas ausências dos campos.
Serei o espanto e a novidade do mistério
Povoando o sonho dos amanhãs.
Serei o vento pampeiro
Buscando perdido o rastro ancestral da disparada,
Em estouro e tropel, de algum centauro charrua.

Serei a pedra silente do lajedo pequeno
Nas tardes de verão quente.
O arrulho escondido num cinamomo de tapera.
Serei para mim mesmo a quimera
De ser um pedaço de meu próprio mundo –
Uma braça de terra, um revoo na aguada...
Estrada, tempo e caminho...

Posso não ser importante e até desconhecido,
Mas não se importem comigo,
Na solidão das lonjuras,
Basta a mim ser horizonte;
Ou qualquer elemento anônimo,
Que faz a vida do meu rincão
Uma mensagem de Deus para a alma.

Não me canso atrás do bastante
Quando a mim mesmo me basto.
O que posso querer da ilusão
Se dela nunca terei verdade?

O que quero mesmo é ser flechilha e caraguatá;
Porque nada falta ao que bebe silêncio:
É só mate, fogão e a alma...



16.01.12

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