Outra coisa

Ontem eu nasci.
Não de novo.

Minha velha criança
Abriu os olhos pela primeira vez
Em outro mundo.

Nele o sol tinha um jeito
De correria na rua.
E a chuva
Cheirava à pipoca doce
Dentro de casa.

Os passarinhos cantavam igual,
Mas dentro de mim.
Não estavam mais presos
Nas gaiolas tristes das desatenções.

O vento corria nu
Pelos jardins das casas.

Lá era proibido importunar as tardes;
Elas eram das lebres
Dormindo suas sestas
Pelos arbustos do prado.

Os verões
Pareciam arrulhos de pombas
E trinados de cigarra,
Por vezes, na mesma árvore.

Meu trabalho,
Quando não brincava,
Era pescar minhocas
Para dar aos peixes,
Atrapalhando a solidão das garças.

Os homens sérios eram fantasmas
Quase invisíveis.

Aqueles que estavam mortos
Olhavam-me com sisudez
Pelo despeito de eu estar ali
Desmanchando suas arrumações.

Acusavam-me de ser muito pequeno
Para saber usar suas suposições.

Fazia pouco caso...

Os loucos, lá, não eram chatos
Em seus delírios inocentes.

E o povo era governado
Por um conselho de anciãos,
Todo eles
A jogar damas na praça.

Às vezes, cortavam-se as casas dos passarinhos
Para se fazer casas de gente.

Eu ficava triste,
Mas logo passava
Quando lembrava
Que eles sabiam voar.

Consola-me a paz de saber
Que dessa vida não morro.

Nessa minha outra coisa,
O mundo é todo o lugar.
O tempo sempre.

E não há Deus,
Porque ele já mora lá.

17.04.2021

Deixe um comentário