Eu sou advogado.
Eu, engenheiro.
Eu sou mestre em economia.
Sou Doutor em filosofia.
Sou chato.
Sou muito rápido.
Eu sou eficiente.
Já eu sou intuitivo.
Eu sou competitivo.
Eu não.
Eu sou pai.
Eu não sou ninguém
Sou jardineiro.
Sou um homem de sucesso.
Sou empresário.
Sou elegante.
Sou uma boa pessoa.
Sou imperfeito.
Sou detalhista.
Sou um bom motorista.
Sou jogador de futebol.
Sou psicólogo.
Sou chapista.
Sou catador de lixo.
Sou morador de rua.
Sou investidor.
Sou sério.
Sou pleno.
Eu sou triste.
Sou depressivo.
Tenho TOC.
Tenho TDAH.
Sou juiz.
Sou presidiário.
Eu sou carcereiro.
Eu, policial.
Sou o filho de minha mãe.
O orgulho de papai.
Sou homem de família.
Sou pervertido.
Sou empregado doméstico.
Sou copeira.
Sou professora.
Sou criminoso.
Sou político.
Sou aposentado.
Eu não sou.
Eu sou produtivo.
Sou grato.
Sou feliz.
Sou operário.
Sou presidente.
Sou bonito.
Sou feio.
Sou magro.
Sou realizado.
E essa impostura que olha você aí, desde o espelho,
E o espia impertinente por trás de sua imagem?
Isso aí é o quê?
O que vejo ali em meu filho?
Um sonho fugidio
Outrora menino em mim?
Vejo um rosto
Para além do seu
Interpelando-me pelo que fiz da vida?
Vejo-me em meu filho?
Quero para ele
Todos os desejos esquecidos
Cobertos pela areia das horas?
Quero para ele
Tudo que quero?
Quero para ele
Tudo que quis e não pude?
Meu filho olha em meus olhos
E há ali,
Por detrás,
Um olhar estrangeiro.
Irreconhecível.
Não reconhecido.
Algo atravessando nosso amor
Com um nó na garganta:
O inesperado.
Fantasia.
Fantasma caído
De tudo que em mim não deu
Assombra nossos abraços.
Alguém me olha
Pelo olhar de meu filho
E se nega.
Não quer.
Não me quer.
Entre encontros inusitados,
Inesperados sorrisos,
Há uma fenda insolúvel:
Dois estranhos buscando abrigo.
Por trás do olhar de meu filho
Há alguém
Pedindo outra coisa,
Alheio ao meu próprio querer.
Por trás do olhar de meu filho
Há o radicalmente,
O insuperavelmente,
O infamiliarmente diverso.
Aquilo que, um dia,
Inevitavelmente marcará entre nós
A diferença.
O desencaixe.
Entre mim e meu filho
Há ele.
Impossivelmente ele.
Feito de tudo que não sou.
Tudo que não quero.
Tudo que não sei,
Nem posso saber.
Por trás do olhar de meu filho
Há ele.
Com pressa, tenho de deixar meus filhos na escola.
Com pressa, tenho de ir trabalhar.
É tarde.
Com pressa, trabalho
Para, com pressa, buscá-los na escola.
Com pressa, preciso entregar no prazo.
Com pressa, preciso que durmam.
Com pressa, tomo um banho rápido.
Com pressa, janto
Para, em seguida, dormir com pressa.
Com pressa, preparo um café
Para tomar em pé.
Leio manchetes.
Com pressa tomo uma ducha.
Há reunião de trabalho logo cedo.
Leio com pressa as mensagens
De quem nem espera a resposta.
As mensagens para mim, respondo-as rápido.
Rapidinho, até dou uma passada lá.
Só se for rápido,
Sem risco de haver prazer.
Aí, vou.
Para me demorar, não me esperem.
Estou com pressa.
Não tenho tempo
Para essas coisas que demoram tempo.
Filmes, livros, romance, lágrimas
Não habitam mais estes tempos.
Abraços, visitas, bobeira,
Nada para fazer, conversa fiada,
Gente nas calçadas até mais tarde rindo,
Namoros de portão, baralho nas tardes,
Chuva assistida da poltrona,
Pensamento solto
Com as fantasias de crianças
A invadir sonhos de gente grande,
Adivinhar formas nas nuvens,
Desperdiçar amenidades com um desconhecido
Enquanto se aguarda o ônibus.
Essas coisas que costumavam fazer em nós
Nossa humanidade,
Tudo nada mais vale.
Se eu parar para pensar... Não!
Melhor não pensar, senão terei de parar.
Não temos tempo a perder.
Nossa moeda é o tempo.
Temos de ser avaros.
Não desperdiçá-lo.
Muitas coisas
No menor tempo possível.
A emoção distrai.
Faz perdermos tempo.
Demora demais. É incerta no resultado.
Melhor é fazer no menor tempo
Sem sentir.
Rende mais.
À distância é mais seguro.
Virtualmente, melhor.
Não se perde tempo com perguntas tolas:
- "Vejo pelo seu rosto que algo não está bem.
Gostaria de falar?"
Melhor evitar.
Perde-se tempo.
Diria mesmo,
Melhor não olhar no olho.
Melhor ainda não olhar no rosto.
Sem rosto, a gente rende mais.
Sem gosto, a gente come menos.
Sem vida, a gente vive menos
E não perde tempo.
Foto: Praia de Itapeva, Torres/RS. Maurício da Rosa Ávila. Janeiro de 2022.
Vemos Deus com a cor de nossos olhos,
Mas ele é outro.
Há os que o buscam em templos.
Os que seguem liturgias.
Os que reviram livros sagrados.
Há também os que descreem.
Eu
Cato conchas na praia com meus filhos
E sei o infinito.
Pego a eternidade na mão
Por um breve tempo
E fico a admirar
O acaso bonito e inesperado
Das cores e formas.
Deus me espia
Por entre os buracos das pedras
Arisco como os caranguejos.
Voa, de repente, com as gaivotas
Quando uma ânsia de liberdade
Não cabe mais no chão.
Atira-se com a força das marés
Contra as falésias antigas
Cobrindo meu rosto de brisa salgada.
E deita suspiros mansos
Nas maretas que me cobrem os pés
De sossego e sal.
Volta para casa com os pescadores
Que dançam cansaços
Em barcos humildes
Vistos da margem.
- Vamos embora, papai?
- Vamos, filho.
Deus me acena com as ondas
E se joga do poente
Com o sol.
Fica para trás um cheiro de mar.
Fica também o sono meu e de meus filhos
Cheios de sonhos de criança;
Daqueles que se contam pela manhã ao acordar.
Há os que creem
E os que descreem.
Eu cato conchas com meus filhos na praia
E sei o infinito.
Era costume do rapaz, em algumas tardes, caminhar até um outeiro próximo à humilde gleba de terras onde morava.
Ia a pé tranquilamente. Meneava a cabeça em respeitoso cumprimento aos pastores que passavam por ele com seus rebanhos de cabras na estrada empoeirada de Nazaré.
Gostava dos fins de tarde. Sorvia não sei que sabor misterioso dos arrebóis.
Era um moço discreto. Silencioso nas maneiras. Falava pouco. Talvez, por isso, quando falava, sua palavra vibrava com magnetismo especial, causando reverberações desconhecidas na alma de quem o ouvia.
Seu passo era curto. Sem pressa. Chegava-se à pedra onde tinha por hábito acomodar-se e ficava ali vendo o sol ir embora.
A roupa era humilde e encardida à moda dos camponeses de sua localidade. Sandálias em couro cru com algumas das tiras quase arrebentadas. Nas mãos, pequenos calos nas juntas nascidos do esforço repetitivo no manuseio das ferramentas de trabalho.
Olhos de menino ainda. Era como se houvesse por trás de seu rosto um garoto, embora fosse já um homem nos seus quase trinta anos.
O que pensava, é-nos impossível saber. O fato é que se entregava à contemplação com todo o seu espírito.
Chorava. E seu pranto não era de tristeza, nem de dor. Era um choro diferente. Brincava com as pedrinhas do chão. Lançava algumas ao longe para as ver rolarem ladeira abaixo.
Tirava os pés descalços. Sentia o odor da erva que a brisa dos fins de dia fazia passear pelo ar.
Nunca depositou o peso de sua dor em nenhum ouvido de amigo ou parente – não compreenderiam. Ainda que compreendessem, seria inútil. Antevia o seu destino. E sempre que o coração pesava, vinha ao outeiro chorar sua angústia.
Já no primeiro sopro gelado do vento da noite, olhava uma última vez para o rastro deixado pelo sol. Suspirava um alívio vindo do infinito. Calçava as sandálias e retornava para casa.
Seguia só, ouvindo os primeiros grilos. O canto agudo e solitário de uma coruja voando de um canto a outro da estrada, durante a passagem do rapaz, era como a saudação a um amigo querido.
Chegava à casa que era a sua batendo a poeira dos pés à porta. Antes de entrar, já havia conferido se os animais estavam bem fechados na encerra. Verificava, também, o ferrolho da porta da oficina.
Em silêncio, beijava carinhosamente o rosto da mãe. Pedia a benção ao pai e sentava-se para cear.
Partia o pão ázimo, que pegava de uma humilde tigela posta no meio da mesa de madeira rude, e mergulhava-o no caldo pobre que o trabalho da família podia pagar. Sorria. Falavam sobre qualquer assunto sem muita importância.
Enfim, quando a gordura do lampião já havia queimado o suficiente, a luz era apagada, de modo que sobrasse combustível para a noite seguinte. Todos iam deitar.
Em uma esteira, ele depositava o corpo cansado. Orava uma prece pequena e sentida – era homem de fé. Mais duas lágrimas rolavam na face e caíam no tecido esbranquiçado onde deitava.
Adormecia sentindo no rosto o frio que transpassava as frestas das portas.
Com o que sonhava? Nunca saberemos.
O que se comentava, tempos depois, era sobre as flores desconhecidas encontradas pelos pastores de cabras no cume de um outeiro ali perto nos arredores de Nazaré. Nunca se soube da existência de outras iguais naquela região.
De passagem, um dos pastores até comentou:
– Era costume, em dias incertos, ver por ali o Galileu aquele, crucificado alguns meses atrás, e que hoje afirmam ser o Cristo Jesus.