
Série “Resenhas sem sentido”.
Brancura
Jon Fosse
Quem nunca se perguntou como veio parar no lugar onde está? Dificilmente nossas escolhas obedecem a uma linearidade. Ou melhor, obedecem a uma linearidade apenas suposta por nós. Quando, então, nos deparamos com o inesperado, com o que não estava nos cálculos, aí vemos o quanto essa linearidade era suposta. Chegamos a um determinado ponto com a sensação de que fomos trazidos até ali por alguém distinto de nós. Algo como um mandado que se cumpre, mesmo sendo desconhecido mandante.
O fato é que chegamos e temos de lidar com a realidade disso.
Desamparo. Escuro e solidão de uma floresta. A neve e o frio dão o colorido da cena construída pelo texto: o desamparo da condição humana. O sem sentido de nossas escolhas que nos levam, muitas vezes, por caminhos enviesados e resultados sempre insatisfatórios, quando comparados aos nossos desejos.
Sentimo-nos, então, impelidos ao movimento, desde onde estamos, para encontrarmos alguma saída. Mesmo deparando-nos com a constatação angustiante de que, talvez, não exista um sentido predeterminado ser encontrado; mesmo deparando-nos com isso, precisamos nos movimentar. E mesmo que não pareça haver saída, é preciso se manter movimento.
Vozes dos pais surgindo (ou evocadas) em meio ao desamparo. Imperativos familiares brotando da floresta. Presença-ausência se insinuando na escuridão gelada. Perguntas sem resposta. Respostas sem perguntas. Desencontro e mal-entendido. Onde estão, quando chamo por eles? Aí está, mas não quando preciso. Quem bom que estão, mas para onde foram agora? Justo agora?
Relação que é, em si mesma, um desencontro. Voz dos pais como tentativa de saída desse sem sentido dos caminhos, como resposta ao desamparo, mas que falha.
Falha, porque o desamparo é nosso. Muito nosso.
A voz da brancura também ensaia respostas desde um lugar que é plácido, apenas metafisicamente. Plenitude branca, distante, em outro lugar. A brancura, no entanto, traz respostas vagas, que aparecem e somem em ritmo distinto ao aparecimento das perguntas.Ao fim, os pais também estão desamparados e já não têm respostas. Todos caminham de mãos dadas com alguém sem rosto, que parece saber algum caminho. No entanto, o desamparo também está ali, pois a criatura é sem rosto. Não ampara tanto assim. Não há saída, o desamparo está sempre ali. Até que todos imergem na brancura. E só eles sabem o que se esconde dentro desse vazio. A partir desse ponto, não há mais texto possível. Há só um nada que respira. Agora, o desamparo está com o leitor. Ele que se movimente
