Os colaboradores

A tarde era clara. O vento era morno. Os cães brincavam na rua atrás das pombas. O mar estava calmo. A praia, deserta. A vida era farta. O planeta completava mais uma volta em torno de si com a resignada disciplina que há nas coisas da natureza. A despeito das guerras entres os homens, das bombas jogadas entre os cafés, a despeito da menina que, naquela tarde, perdera a mãe quando fugia de seu país, a despeito das ideologias embriagando cérebros perversos, apesar dos absurdos andarem pondo o surrealismo para fora dos quadros, apesar de tudo isso, a terra completava mais uma volta em torno de si.

No escritório, não havia janelas. Ilhas. As pessoas trabalhavam em ilhas. As pessoas moravam em ilhas. As pessoas eram ilhas. Havia ali uma soturna semelhança com as fileiras de lápides de um cemitério. Oito horas ininterruptas sem direito a plano de saúde. 

Chovia lá fora uma chuva boa e ninguém ficava sabendo do seu cheiro. O frio apavorava os mendigos, mas ninguém sabia. O filho perdia seu primeiro dente na escola e o pai não via. A mãe não via. A professora via caso ouvisse a criança chamar entre os gritos e demandas das outras crianças no pátio.

Reuniões aconteciam e decisões eram tomadas enquanto filhos eram esquecidos na escola no fim do dia.

O escritório seguia a pleno vapor. Todos em frente às telas tomando cafés ruins sem açúcar, bocejando logo depois do almoço e torcendo para que o relógio andasse. Os mais transgressores tiravam um cochilo no banheiro sobre caixas de papelão desdobradas. Os mais obsessivos levantavam apenas duas vezes por dia: uma para ir ao banheiro e outra para pegar o café. Alguns duravam uma semana e eram demitidos: contaram uma anedota, riram alto, descontraíram um pouco. Enfim, essas atitudes colocavam em risco o foco da equipe. Por isso, gente desse perfil era posta na rua antes que todos se dessem conta de que eram infelizes. Outros iam embora porque não suportavam a loucura. No momento em que percebiam que teriam de estudar o organograma das inimizades para encontrar o seu espaço no meio das intrigas, pegavam suas coisas, viravam as costas e sumiam.

Todos eram sérios. Todos estavam alinhados. Os homens em boas camisas e bons ternos. As mulheres também. Havia um silêncio incômodo por entre a tagarelice dos teclados. 

A liturgia só era quebrada nos dias em que havia reunião de metas, ocasião em que todos eram informados de que elas não foram alcançadas ou que, mesmo alcançadas, o lucro da empresa, infelizmente, não suportaria a bonificação. Todos, no entanto, ganhariam, como recompensa, uma semana de almoço gratuito no restaurante da esquina.

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Houve um tempo, no entanto, em que a empresa alcançou tremendo sucesso em seu nicho de atuação. As vendas bateram recorde durante todos os meses. Foi um ano ímpar. Naquele tempo, todos, absolutamente todos estavam motivados e trabalhavam além de seus limites. O comprometimento foi às alturas. Trabalhava-se até às dez horas da noite. Ninguém ia para casa antes das nove. Ninguém chegava depois das sete horas da manhã. O clima ficou mais leve entre os colegas. Todos pressentiam um futuro próspero trabalhando ali. O novato já se imaginava como gestor de equipe. O gestor, gerente de departamento. O gerente de departamento sonhava com o tempo em que seria promovido a gerente-geral e ganharia férias de bonificação em Cancún. O gerente-geral já sonhava com todo o poder que teria quando fosse convidado a compor o quadro societário. Os estagiários possuíam cartão de visitas.

Todos sonhavam. Finalmente o marasmo deixava o ambiente. O produto vendido possuía solidez no mercado. Credibilidade. A empresa conquistou o direito à patente da invenção por 20 anos, sendo a única produtora do insumo. Corria-se de lá para cá com relatórios urgentes, ofícios e memorandos de última hora. 

– Mais um cliente! E todos paravam o que estavam fazendo, abraçavam-se e brindavam no pub após o expediente.

Animados pelos resultados, alguns começaram a gastar de maneira um tanto quanto imprudente. Adquiriram carros de luxo. Outros, a casa própria. Os mais ousados financiaram a tão sonhada lancha. Dizem que o CEO comprou um jatinho particular e contratou piloto exclusivo.

Abriu-se o capital. Investidores de renome apostaram na marca. Nenhuma notícia poderia estragar o bom clima despertado por aquele belo momento da empresa no mercado.

O filho de um dos altos executivos, dirigindo uma Ferrari bêbado, a duzentos quilômetros por hora, perdeu o controle e atropelou uma estudante que aguardava no ponto de ônibus. Isso, no entanto, era fofoca de corredor.

A alegria era imensa. A equipe estava motivada. 

O filho de um colaborador do almoxarifado foi encontrado morto no banheiro de um bar e na certidão de óbito constou overdose provocada por uma droga cujo nome era ainda desconhecido. 

Isso, porém, era boato. O negócio andava bem. Voava.

Um dos gerentes de recursos humanos parece ter sido encontrado morto no banheiro de casa, sobre uma pilha de papéis e comprimidos – os papéis eram demissões de diversos colaboradores ocorridas nos últimos cinco anos. “Ele nunca bateu muito bem da cabeça mesmo”, eram os comentários de corredor. Às vezes, sem motivo aparente, corria para o banheiro chorando alto. Noutros momentos, estava efusivo, sendo qualquer ocorrência de somenos importância motivo para um brinde de café. Isso não impedia que, alguns minutos depois, explodisse repentinamente em frente a todos espalhando reproches aleatórios a não se sabe quem. 

Entregava resultados, isso é fato. Circunstâncias do destino. “Tem gente que não nasce bem da cabeça, coitado”.

As ações valorizavam-se a cada dia.

Aproximava-se o final do ano e a expectativa para os resultados crescia. Todos teciam teorias de como seria a distribuição da participação nos lucros. Faziam cálculos. Previam repercussões na remuneração. Um grupo de colaboradores contratou uma consultoria. Buscavam, em verdade, orientações sobre investimentos seguros ou com risco moderado, visando a futuras apostas no mercado de capitais. Muitos investiriam em imóveis.

A única tristeza da equipe digna de nota naquele ano foi um colega, colaborador da área de TI, que infartou em sua ilha numa tarde de sábado. Dizem que ele não cuidava bem da saúde. Uma hora aconteceria o pior. Foi um bom colega. Uma boa pessoa. 

Houve uma ação entre amigos para a compra do caixão, da qual o gerente não quis participar. Foi sepultado em uma cova pública, pois a família não pode pagar pelo jazigo.

A empresa mandou uma coroa de flores. Para o cemitério errado.

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Chegado o último mês do ano, tudo eram expectativas. Sensação de dever cumprido. Sorrisos nos rostos. Olheiras apagadas pelas maquiagens. Lesões por esforço repetitivo tornando-se problemas crônicos. Nada incomodava. Enxaquecas diárias e gastrites causadas pelo uso indiscriminado de analgésicos: ninharias. Alguns divórcios pelo meio do caminho: coisas da vida. Dois adolescentes, filhos de dois sócios, promoveram uma festa regada a vodca cara, energético, whisky doze anos, cocaína e umas balas de nome esquisito. Uma menina entrou em coma. Dez meninos fizeram sexo com ela desacordada, chamaram a ambulância e fugiram. Pouca coisa abalava a felicidade que naquele momento invadia de insanidade as fibras mais íntimas de suas loucuras: a ambição fazia a boca deles salivar e seus olhos virarem bocas a devorar o mundo.

Última semana! Seria na sexta. A reunião estava marcada para às nove horas da manhã. Foi um ano espetacular! Impecável! Como foi recompensador vestir a camisa da empresa. Sentir-se parte de um todo. Trabalhar conjuntamente para um fim único! Como é estimulante e recompensador! Na quinta-feira o faxineiro fechou as salas às onze e meia da noite após o último apagar as luzes.

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Sexta-feira. Sete horas da manhã. Gilson, o gerente-geral, chegou primeiro. Falava com seu corretor ao telefone, prometendo informações mais precisas para dali a algumas horas. Abriu a porta de sua sala. Acendeu as luzes do setor. Pôs o café para passar. 

Os primeiros funcionários chegaram rindo e conversando sobre amenidades. Aos poucos, todos chegavam. Conversas em voz alta e gargalhadas. 

O burburinho, no entanto, foi aos poucos arrefecendo.

As vozes foram aos poucos se calando.

Um silêncio sepulcral, então, tomou conta das ilhas. 

Ninguém estava entendendo. 

Haroldo tomou coragem e perguntou:

 – Dr. Gilson, o que houve com o nosso salário? Algum problema? Não recebemos o pagamento. Todos aqui já verificaram as contas, mas ninguém recebeu um centavo sequer.

O gerente-geral, um pouco atônito, em choque mesmo, respondeu com voz baixa e arrastada, sem tirar os olhos do monitor:

– Também não recebi… Vou ligar para o financeiro. Um minuto.

– Bom dia Gládis, pode nos dizer o que houve? A bonificação sabemos que só entrará amanhã, mas o salário já deveria estar depositado. Sabe informar o que houve?

– Sim, Dr. Gilson. Acabei de verificar que as contas da empresa estão todas bloqueadas por ordem judicial. O comando foi dado há dois dias e o oficial de justiça ligou logo cedo informando que virá aqui entregar a intimação.

Gilson derrubou o telefone lentamente no gancho, já adivinhando a notícia. Ele ouviu rumores. Até sabia que algumas coisas não estavam corretas. Coisas ilegais, mas coisas pequenas, nada de mais. A ponto, no entanto, de dar problema com a justiça, não imaginaria.

Saiu de sua sala e encostou-se na parede, pondo as mãos nos bolsos sem coragem de erguer o olhar:

– As contas da empresa estão bloqueadas pela justiça. Por isso, não houve depósito do pagamento.

Agitação violenta na sala. Alguns gritos. Socos nas mesas. 

– Picaretas! Eu deveria ter desconfiado! Aqueles velhos são uns picaretas! Eu sabia! Somos um bando de trouxas! – brada um dos colaboradores.

 Um deles interveio:

– Mas isso será resolvido, não é? Até o final da tarde teremos o salário? Tenho a reserva de vaga na escolinha de minhas pequenas para pagar e preciso do dinheiro. Preciso saber algo concreto!

Nisso, dois homens com semblante grave adentraram pela porta da sala, sob o olhar espantado dos colaboradores. 

Um deles se dirigiu a Gilson.

– O senhor é o gerente-geral?

– Sim, sou eu.

– Meu nome é Carlos, oficial de justiça. Este senhor é advogado de um grupo de investidores da empresa. Ele veio acompanhar o cumprimento do mandado. O senhor precisa assinar aqui neste documento como representante da empresa.

– Não vou assinar! Nem sei do que se trata.

– Vou ler para o senhor. Mas já adianto, caso o senhor não assine, anotarei a sua recusa, pois possuo fé pública, e a empresa estará, mesmo assim, citada.

O oficial de justiça, então, prosseguiu explicando que os sócios majoritários da empresa eram acusados de lavagem de capitais. Muito dinheiro foi desviado para contas no exterior. Credores ficaram sem receber. A empresa estava na iminência de ter sua falência decretada. Havia elementos que indicavam má administração, inclusive fraude ao mercado de capitais. O advogado que ali estava obteve para seu cliente o direito ao bloqueio das contas e arrestos de bens da empresa para a garantia de seu crédito

Gilson  ouviu em silêncio. 

Não esboçou reação. 

Apenas assinou os documentos e os devolveu ao oficial de justiça que saiu pela porta acompanhado do advogado.

Todos se entreolharam.

Foi um caso rumoroso. Escândalo na imprensa. Expedição de mandados de busca. Decretação de medidas constritivas diversas. Notas das defesas dos sócios eram publicadas nos jornais de grande circulação. Eles partiram em fuga para o exterior. Um para cada canto do mundo. O dinheiro sumiu.

Naquele mesmo dia, após um instante trágico, alguns juntaram seus pertences pessoais e saíram pela porta carregando caixas. Outros ficaram em pé diante da parede envidraçada olhando os escritórios dos prédios vizinhos onde se trabalhava freneticamente. Olhavam o trânsito fluindo lentamente entre os engarrafamentos das sinaleiras.

Dois saíram pela porta correndo e chorando. Três ou quatro batiam a cabeça contra o tampo da mesa repetidamente.

 – Filhas da puta! – murmurou um.

Um deles teve um acesso de riso e vomitou no carpete bege.

Uma senhora foi acometida de uma crise de ansiedade e teve de ser deitada no chão para conseguir voltar a respirar normalmente.

Mas o mais estranho, o mais bizarro, o mais fantástico foram os dez funcionários que, após o oficial de justiça sair pela porta, ajeitaram-se na cadeira, limparam a sujeira dos óculos, suspiraram pragmáticos e seguiram trabalhando normalmente.

O porteiro comentou que o último deles a sair, naquele dia, desligou o computador às dez horas da noite e despediu-se protocolarmente ao cruzar pela portaria:

 – Boa noite, Borges! Bom descanso! Até amanhã.

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A despeito das guerras entres os homens, das bombas jogadas entre os cafés, a despeito da menina que, naquela tarde, perdera a mãe quando fugia de seu país, a despeito das ideologias embriagando cérebros perversos, apesar dos absurdos andarem pondo o surrealismo para fora dos quadros, apesar de tudo isso, a terra completava mais uma volta em torno de si.