Fantasma

O que vejo ali em meu filho?
Um sonho fugidio
Outrora menino em mim?

Vejo um rosto
Para além do seu
Interpelando-me pelo que fiz da vida?

Vejo-me em meu filho?
Quero para ele
Todos os desejos esquecidos
Cobertos pela areia das horas?

Quero para ele
Tudo que quero?
Quero para ele
Tudo que quis e não pude?

Meu filho olha em meus olhos
E há ali,
Por detrás,
Um olhar estrangeiro.

Irreconhecível.
Não reconhecido.
Algo atravessando nosso amor
Com um nó na garganta:
O inesperado.

Fantasia.
Fantasma caído
De tudo que em mim não deu
Assombra nossos abraços.

Alguém me olha
Pelo olhar de meu filho
E se nega.
Não quer.
Não me quer.

Entre encontros inusitados,
Inesperados sorrisos,
Há uma fenda insolúvel:
Dois estranhos buscando abrigo.

Por trás do olhar de meu filho
Há alguém
Pedindo outra coisa,
Alheio ao meu próprio querer.

Por trás do olhar de meu filho
Há o radicalmente,
O insuperavelmente,
O infamiliarmente diverso.
Aquilo que, um dia,
Inevitavelmente marcará entre nós
A diferença.
O desencaixe.

Entre mim e meu filho
Há ele.
Impossivelmente ele.
Feito de tudo que não sou.
Tudo que não quero.
Tudo que não sei,
Nem posso saber.

Por trás do olhar de meu filho
Há ele.

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